quinta-feira, 27 de maio de 2010

Merrian/Kerrian - "Sombrios" - Marjory Tolentino





“—Procurei por você em anos e nunca antes fui capaz de encontrar. Tive medo e alienei. Tive coragem e dispersei.” – Kerrian

“—Penso diferente de antes. Como alguém que tem os sentidos aguçados ao extremo. Sinto com tanta intensidade que somente vivendo além seria possível.” – Merrian

“—Crê que a uso como já o fiz com tantas outras que se acercaram de mim?Está enganada... Você é diferente! Sinto-a com mais força. Algo que até então me era desconhecido." – Merrian

 “—Como um animal, deixo meus instintos aflorarem. Não tenho medo de viver aquilo que todos fingem ser grotesco ou impuro. O meu toque arrepia a alma de quem o sente, seja por prazer ou por medo e não me importo com o que provoco. O que pensam, ou o que querem é mero detalhe." – Merrian

“—Sei aquilo que sinto, aquilo que penso e aquilo que quero. E sim, isto me basta! Vivo por mim mesmo e que isto signifique viver por você. Satisfaça-se com isso. Pois não consigo mais afastá-la. Não quero mais afastá-la. E não se iluda... Não tenho a mínima intenção de mudar.” – Merrian

“—Não olhe para mim desse jeito! Jamais pense que não a amo. Você é tudo o que mais quero. Necessito de ti mais do que pode supor. Dependo de você mais que de mim mesmo. Sua vida me dá forças para continuar vivo.” – Kerrian

“—Em todos esses anos aprendi a refinar meu paladar. O sabor da vida é diferente à superfície da língua. Saboreio apenas o que me atrai. Então... Não me culpe. Você me atraiu. Você é a única culpada da sua desgraça. Não se engane quanto a isso. Usarei de você diferentemente. Isso é claro! Não passa pela minha mente nem por um único instante a ideia de perdê-la.” – Kerrian

“—Saborearei você vívida, lúcida... Em minhas papilas gustativas será mais doce que qualquer outra. Descerá mais suave por minha garganta. Entrarei em suas entranhas marcando cada centímetro do seu ser como minha propriedade.” – Merrian

“—Mesmo que seja amarga como o fel... quando terminar... Mesmo assim, serei o mais completo entre todos. Simplesmente por ter um pouco de você em mim.” – Merrian

domingo, 2 de maio de 2010

Sem você - Marjory Tolentino


 
Por pensar em instantes, não lembrei de mim.
Por não lembrar-me de mim, me doei a você.
Seu choro e a dor da minha alma
Seu sofrimento é a angustia do meu mundo.
Sem seu olhar morro.
Sem você não existo.
Porque você é uma parte do meu corpo.
Um órgão...
Porque você é vital em mim.
Minha alma...
Por você eu mataria.
Por você eu morreria.
E se me negassem a existência mútua contigo.
Eu me negaria existir...

Marjory Tolentino

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O eu autor - Marjory Tolentino



Sou aquela que escreve por prazer. Em cada palavra há um sentimento, uma lágrima, um sorriso. Há a mistura de ódio e amor. Existe o calor das carícias dos amantes, aqueles que protagonizam os amores não vividos que na ânsia de tornarem reais suas almas, se esvaem em cada letra. Também há o afago quente e suave como um cobertor e doce como chiclete sabor "tutti-fruti" de infantis mãos a passear pelo rosto velho e sofrido de muitos.
Sou aquela que se deleita com uma mentira bem contada, que não se assusta com o monstro escondido em cada página, que briga com sua própria criação e discute com ela como se pudesse fazê-la entender aquilo que quer. Sem pedir licença como um Deus cria, mata, destrói, arrebata.
Sou aquela que vive, morre, cria inimizades, molda personalidades.
Sou aquela que briga com o mocinho e se apaixona pelo bandido, ou...  mata o bandido e casa-se com o mocinho.
Sou aquela que neste mundo sou mais que um Deus. Tenho todo poder em minhas mãos, tenho o maior poder em minhas mãos. Através delas posso fazer chorar, amedrontar, sorrir, amar, odiar... Enfim através de mim se sente.
Sou capaz de sujar os sentimentos mais puros, de influenciar ações e pensamentos.
Sou aquela que manipula seus sonhos, seu pensamento e se você me deixar entrar em sua mente ficarei em ti, mas não por muito tempo só o suficiente para te fazer sentir...

A canção do Umbral - Marjory Tolentino



O vento soprava forte por entre as árvores indicando que o inverno já se fazia presente, apesar do tom outonal que durante o dia a floresta apresentava. Suspirava toda vez que sentia a brisa gélida tocar a sua pele, mas sentia-se impulsionada a atender o seu chamado. A música era tão envolvente e aquecedora que podia ser ouvida a longas distâncias com notas que eram perfeitas, de tal forma que jurava poderem ser palpáveis.
Não tinha medo. O amou desde o primeiro instante que o viu, soube ali que morreria por ele, mesmo que ele fosse o seu algoz.
A noite não estava tão escura e as sombras apenas a circundavam. O ser, ao vê-la, sorriu lindamente. Ela era o amor de sua vida, aquela que esperou por anos. Durante séculos ele procurou e esperou por ela. Jurou para si mesmo, por tudo que já acreditou um dia, que jamais a prenderia, não a levaria junto de si. Mas vendo-a assim tão linda, pronta a entregar-se a ele sem se preocupar com sua monstruosidade, não era mais dono de suas certezas. Seu coração encheu-se de dúvidas.
E se ela estivesse ali para negá-lo, traí-lo? Se não o amasse? Podia estar com medo... Em sua consciência sabia que fisicamente não. Era muito jovem e belo para alguém o temer. Sua beleza exterior o tornava agradável aos olhos de quem o visse. Porém, ela o conhecia, inexplicavelmente ela conhecia seu mistério, seu segredo. Soube o que ele era no mesmo instante que o viu. E mesmo assim o amou.
Ou será que apenas sentiu? Quiçá ela não tenha noção do que ele é na realidade. O amou pela beleza e charme, mas não em sua essência.
Seu âmago se corroeu ante estes pensamentos. Pela primeira vez em Eras intermináveis sentiu medo. Medo de perder aquilo que nem mesmo veio a ter. A mulher, o amor, a liberdade...
Era isso que, além de tudo, ela significava: LIBERDADE! — gritou em pensamento.
A culpa; aqui estava ela. De tempos em tempos penetrava-lhe a mente. Sabia que era seu, por direito, uma fração de vida a cada alma que aprisionava.
A canção do umbral embriagava todos que a ouvissem. Porém, com ela não foi assim. E no desenfrear dos sentimentos que o avassalaram entregou a ela sua alma e seu coração.
Possuindo a maldição eterna, seu destino era aprisionar os que não mereciam viver. As almas que tomava, em grande parte, nem o inferno as queria, mas isto não o tornava melhor, sua atitude não deixava de ser a de um assassino. Muitos eram infanticidas, pedófilos, matricidas. E existiam também aqueles que usavam de má fé levando outros a erros incorrigíveis, deleitando-se ao ver a imundícia alheia em que foram coadjuvantes. Ah! Mas talvez nenhum desses fosse mau de fato, na grande maioria existia o fator do ambiente em que foram criados: pais omissos, mães promíscuas, amigos torpes, drogas, caráter fraco... Mas não maldade. Os de espírito puramente mau eram melhores. Seu prazer era maior quando aprisionava uma alma má e os vários anos acrescentados a sua já longínqua existência o tornava quase um imortal. Mesmo sabendo que livrava o mundo desses seres infames, sua culpa não diminuía. Isso não o tornava melhor que qualquer um deles, porque como eles, também sentia prazer em seus atos.
Nunca tocara a mesma melodia.  De quinquênio em quinquênio perambulava pela terra destilando sua melodia infernal, a cada cinco décadas apenas uma melodia seria tocada, a cada meio século a terra ouvia o seu chamado e os maus rendiam-se a ele.
Por mais de mil anos recusou-se a condenar alguém a carregar seu fardo. Fardo este que ele mesmo atraiu para si, com seus desejos impudicos. Mas agora ela existia. A dona de seus sonhos em eternais desejos contidos. Precisava encontrar alguém que pudesse continuar a fazer o seu infausto trabalho.
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Parou em frente ao músico. Era perfeito. De seus quase dois metros de altura a olhava com tamanha intensidade que o sentia devorar sua vida com seus pensamentos.
Colocou em dúvida, por instantes, se poderia corresponder a um desejo tão profundo como esse. Logo a mesma dúvida se dissipou. Afinal, não seria difícil amar alguém tão lindo quanto ele. Seus cabelos negros azulados, seus olhos de um verde esmeralda translúcido, sua pele branca e suave, era impossível imaginar que um homem como aquele, de traços tão masculinos, dono de uma beleza incomum fosse capaz de ser o destruidor de tantos seres.
Tocando o rosto dela com as pontas dos dedos como se tivesse medo de feri-la percebeu que cedia ao seu toque. Teve vontade de sujeitá-la a si ali mesmo, não suportaria a distância de seus corpos por mais tempo. Levantou-a em seus braços e a levou para dentro da velha casa.
Lá, apenas algumas lamparinas iluminavam o ambiente. Deitou-a em uma cama antiga, limpa e perfumada.
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O toque e o olhar dele a enfeitiçavam, mais que sua própria canção. 
— É linda. Tem certeza... Que quer a mim? — fez a pergunta lentamente. O medo da negativa invadia sua alma. Mas era necessário ter a certeza. Não poderia tomá-la sem que estivesse certa do que aconteceria com ambos depois. — Após esta noite, será minha. A mim pertencerás. Não só seu corpo, mas sua alma, seu coração... Entende isso?
— Sim. O meu coração já é seu desde o primeiro instante que te vi. — tinha a voz sonora e trêmula.
Abrindo seus braços para recebê-lo, abraçou-o e com um desejo promíscuo e insano se entregou a ele...
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A alvorada já era próxima quando levantou para poder cumprir o destino dos dois. Por um instante a observou em seu sono. Percebeu que não seria capaz de fazer com ela o que fazia há tanto tempo com outros.
Como uma sombra pesada e opaca, dedilhou uma melodia em sua guitarra; está era única, feita exatamente para aquele momento. Ele havia imaginado este instante muitas vezes, mas nunca pensou que seria tão difícil e doloroso. Pelo contrário, pensou que seria um alívio, afinal teria paz. Paz, alívio... Seria pedir demais para alguém que já causou tanta dor e sofrimento à humanidade. Um sorriso amargo mesclou-se às lágrimas que escorriam pelo seu rosto enquanto fitava a mulher. A música entrava em seus poros, não sentia dor física, apenas a dor que a separação lhe causava, a dor que a muitos fez sentir...
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A mulher acordou feliz ao som dos pássaros. O sol banhava o quarto por várias frestas e um calor cálido e aconchegante a envolvia. Procurou com o olhar pelo homem que a amava.
Estava sozinha. Apenas a guitarra estava deitada ao seu lado.
Olhando o instrumento, entendeu que ele já tinha partido, e sem coragem de se juntar a ele, segurando a guitarra em suas mãos, saiu em busca de almas cruéis...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Sabores agridoces - Marjory Tolentino


Tentei pensar, mas você não deixou
Tentei mudar, mas você não permitiu
Então, não pensei, não mudei...

Sujeitei a alma... O tempo passou e eu acabei. O tempo passou e eu desertei. Porém, insisti, lutei...
Perdi...
Mas veio a calmaria de sentimentos. E embrulhados em papel de bala, joguei fora todos os meus sonhos que cheiravam a hortelã. Substitui por outros com sabores exóticos de carambolas com pistache e limão com avelãs.
Então me revirando por dentro, forcei a calmaria ir embora. Expus minhas vísceras lavei-as e as reinstalei.
Tentei pensar, você já não me ordenava...
Tentei mudar, você já não me importava.
Então pensei, mudei... O tempo passou e eu renasci. O tempo passou e eu amei. Porem sorri, vivi...
Venci...

quarta-feira, 31 de março de 2010

Juventude - Marjory Tolentino


Hoje me lembrei de quando vivia na juventude,
De quando podíamos tudo.
Quando nossos navios venciam os sete mares,
 Mesmo sendo navios feitos de folhas de caderno feitos por mãos infantis...
Hoje me lembrei de quando éramos jovens,
De quando podíamos tudo.
Quando nossas armas matavam de “mentirinha” todos os bandidos das redondezas, mesmo sendo armas feitas de galhos retorcidos.
Hoje me lembrei de quando vivíamos na juventude,
De quando podíamos tudo.
Quando éramos princesas e príncipes e todos os nossos desejos eram atendidos o mais rápido possível...
Quando não tínhamos dor ou quando a tínhamos era passageira e superficial.
Hoje as dores que temos ou são profundas, doem a alma ou já doeram tanto que nem sentimos mais.
Hoje vemos o mundo real, o mundo onde os navios frágeis não vencem oceanos.
Um mundo onde as armas realmente matam.
Um mundo onde não somos ninguém.
Um mundo onde a maioria não significa nada.
Espero um dia encontrar aquele jovem que acreditava que seres fantasiosos existiam.
Espero que aquele jovem só esteja perdido, tomara que não tenha morrido em uma das suas aventuras.
Tenho muita vontade de reencontrá-lo.
Sentar e conversar cm ele horas a fio. Perguntar-lhe sobre o que se passou. Por que se escondeu de mim.
Quero saber se ele ainda esta por ai em algum lugar só esperando que mundo se acalme.
Talvez ele esteja assustado por não reconhecer o mundo.
Espero encontrar-lo em um mundo onde não importa o navio que se tenha e sim a vontade de navegar.
Espero um dia encontrá-lo em um mundo onde a morte já não reine, onde armas já não matem, onde a vida se espalhe sem restrições.
Quero encontrá-lo alegre, feliz desejoso de conhecimento.
Vou procurar... Vou ver se encontro este jovem!  Ele deve estar ou muito escondido, ou tão escancaradamente inexpressivo que se torna impossível visualizar seus sonhos...

Marjory Tolentino

sábado, 27 de março de 2010

Filhoctomia - Marjory Tolentino

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Você foi amado e desejado.
Querido...
Mas não ficou comigo...
Um presente...
Tão sereno, frágil, indefeso.
Será que te dei segurança?
Sei que me ouviu.
Sei que sabia que estava ao seu lado.
Não teve tempo de saber tudo.
Não tive tempo de lhe ensinar o que sei.
Não conheceu o melhor do mundo.
Mas conheceu o melhor amor do mundo.
Não tivemos muito tempo juntos.
Não nos abraçamos.
Só choramos...
Era meu...
Fomos um só.
E fomos dois.
Ignorando o grande amor que nos unia...
Ela nos separou.
Ficaram lembranças e saudades.
Se lembra?
Mesmo sem que quiséssemos, surgiu o adeus.
Espero...
Eternamente...

quinta-feira, 25 de março de 2010

Indecifrável - Marjory Tolentino


Amo você.
Quando nos encontramos todas as noites,
Eu o amo.
Sou apaixonada pelo seu mistério,
Por seus ideais, por suas vontades.
Só conheço de ti o pensamento
E aquilo que se sente é a única coisa real que temos.

Possui-me todas as noites
É neste momento que me entrego
E sinto a sua entrega.
É neste momento que durmo exausta em seus braços oníricos.
O que é físico não importa.
Há coisas mais importantes que isto.
Minha necessidade de ti, do seu pensamento,
Das suas palavras sem voz.

Amo a idéia da sua existência e o encanto do seu ser.
Homem, ser humano indefinido, desprovido de sexo.
Ser intenso, exótico.
Um enigma que decifro hoje
Só para descobrir que na próxima noite
Terei que repetir a descoberta.
Porque você não é desvendável.

Não foi feito para ser entendido.
Foi criado para ser sentido.
Sem perguntas, sem culpas.
É tudo que desejei.
Descrevo a mim mesma seu toque pelo meu corpo.
Todas as noites você esta comigo.
Consolando-me e agradando-me.

Sinto em ti a solidão dos amaldiçoados e o medo dos banidos.
Somos seres únicos.
Amantes incompreendidos.
Apaixonados e desejosos de si mesmos.
Você é um ser intenso, profundo e enorme.
Um buraco negro imaginário cuja força de atração me suga a alma e me devolve a vida
Volto a ser o nada quando sai de mim, ao me deixar retorno ao caos.

segunda-feira, 15 de março de 2010

O assassino - Marjory Tolentino



O sangue percorria seu corpo com rapidez, os músculos tremiam e algo doía por dentro. Ela era tão cheia de vida, tão bonita… Estava entre as mais belas que já teve.
Nenhum escapava à sua fúria quando ela se apresentava, homens, mulheres, crianças... Não que se arrependesse, era necessário, só não queria mais ter que fazê-lo. Não desejava matar, desejava viver! Não tinha escolha, nunca teve. A ânsia por tomar vida de outrem era insuportável. Negava, passava muito tempo afastado das pessoas, mas quando o desejo vinha não o abandonava. Tinha medo de ficar sozinho consigo mesmo e enlouquecer de vez.
Precisava ir embora. Logo amanheceria, e ninguém poderia nota-lo ali.
Era um homem livre (por hora). Um dia alguém o denunciaria. Teriam que perceber quem era, ou então ele mesmo se entregaria e assim acabaria com sua infernal existência. Talvez, alguém viu ele matar a moça que cheirava a tempranillo¹ fresco. Ele viu os olhos. Olhos que o procuravam.
Se tivesse coragem para tornar público seus atos... Se o vissem, acabaria esta agonia.
‘As pessoas o perseguiriam novamente e desta vez dariam fim ao que desonrosamente chama de vida. Assassino! Pária! Demônio!
Lembra? As pessoas ensandecidas, borbulhando de ódio a vingar entes queridos, que você destruiu. Que você carrega em si. Enfrentaria a fogueira novamente? Covarde!'
A voz! Agora era assim, ela o atormentava quando a necessidade chegava e também quando a saciava. Antes de levar a jovem para encontrar-se com seu destino naquele beco fétido ela o incitou e outra vez se fazia presente!
―Estou louco! É isso! Enlouqueci! ―pensou consigo, sorrindo cínico.
‘Vai matar amanhã? O que será? Quem será? Um homem ou uma mulher?Ah!’ ― uma risada fina e compassada cruzou sua consciência...
‘Desta vez será animais? Lixo!’
―Maldita! ―gritou para si mesmo, mas sua voz rouca ecoou pelas ruas vazias. A voz não o deixava em paz! Estava com ele há anos. Sempre o culpando por fazer o que sua mente e seu corpo queriam, mas que seu coração recusava.
De todas as pessoas que tirara a vida, nunca deixou que nenhuma gritasse ou olhasse em seus olhos. Era cuidadoso.  Porém hoje cometera o erro. A mulher bela, de olhar intenso, por um fragmento de tempo olhou dentro de seus olhos tão profundamente que queimou sua alma.
A chuva fina tornava as ruas íngremes, escorregadias. Ouviu falar que uma tempestade se aproxima. Não importava. Nada o amedronta mais que a si próprio.
―Os loucos homens da ciência deste infante século XVIII julgam saber tudo! ―um sorriso irônico estampou-lhe o rosto.
 ―Eles não fazem ideia o quanto ignoram.
Tentaria dormir quando chegasse ao hotel. Sabia que sonharia.
―Olhos negros e brilhantes. Intensos... Vivos. ―repetiu para si. Sua face tornou-se rude ante a lembrança.
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O homem de boas vestes chegava um tanto desalinhado à recepção do hotel barato. O cheiro de café, álcool e cigarro o entorpecia. Pegou as chaves das mãos da velha e gorda recepcionista, uma mulher de horrível aparência que se apoiava sobre o balcão, sorriu-lhe deixando-o ver as falhas de dois incisivos superiores.
Começou subir as escadas com dificuldade. Lutando com os degraus para que não rangessem tanto e rompessem sob o peso do seu corpo que além de si levava as almas de outros. Suava. E o suor descia espesso por suas têmporas. Estava cansado, a mulher não fora suficiente.
No quarto, um cubículo com pouca iluminação que fedia a urina e mofo, estava seus pertences, que se resumiam a um velho baú e uma valise. O lugar de tão ruim era seguro. Ninguém o procuraria naquele inferno. Sorriu ao pensar nisso.
―Quem procuraria o demônio no inferno? Quem se atreveria? 
Lavou suas vestes, tomou um banho e deitou-se na cama, nu e ensopado de água. Antes que o sono chegasse e o dominasse, veio a sua mente o olhar da sua ultima vitima. Aqueles olhos profundos, olhos negros tão vivos e brilhantes. E seu toque ainda se fazia sentir em sua pele. A vívida lembrança deles ficou em sua mente até adormecer em um limbo mortal.
Amanhã quando a noite cobrisse a cidade novamente com seu lençol de escuridão, e a necessidade se fizesse presente, teria que encontrar outro alguém. Não importaria quem fosse. Alimentar-se-ia da energia de um ser, porém desta vez seria mais cuidadoso. Não olharia em seus olhos…


Nota do autor¹: Tempranillo é uma casta de uva tinta da família da Vitis vinifera, uma das castas mais conhecidas da Península Ibérica. Originária do norte da Espanha, também é muito cultivada em Portugual, onde é geralmente conhecida como Aragonez, ou Tinta Roriz na região do Douro.

Nota do autor²: Este conto é uma adaptação de uns dos trechos do Romance "Sombrios" da mesma autora.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A esposa - Marjory Tolentino


 Casados há vinte anos, tinha se acostumado com ela, com suas manias e seus gostos. Nunca ficaram longe um do outro, a não ser no nascimento das crianças e quando ele fez a cirurgia para a retirada do baço após sofrer um acidente automobilístico. Ah! Teve o dia em que dona Lúcia, sua sogra, morreu, nesta ocasião Silvia ficou por dois dias longe dele...
Vinte anos e se afastaram apenas por dez dias. Dez dias!
A idéia de passar o resto de vida que lhe sobrava sem a mulher provocou-lhe um arrepio agonizante pelo corpo.
Levantou a cabeça e olhou Silvia. Estava serena e tranqüila. Não a via assim já há muito tempo. Desde quando a doença foi diagnosticada nunca mais tiveram paz. Foram dias horríveis e intermináveis. Cinco anos se passaram e tiveram poucos resultados positivos.
Procuraram vários médicos, viajaram para testarem novas tecnologias contra a doença, novas drogas que surgiram no mercado... Porém parecia que apenas adiavam o inevitável e assim prolongavam o sofrimento de todos. Tudo que o dinheiro podia fazer por ela foi feito. Até descobrirem que não dependiam do dinheiro. Estavam à mercê da sorte, de Deus, ou da fatalidade.
Por um momento teve a impressão de vê-la sorrir. Como? Podia alguém que esta morrendo sorrir?
Ele agora passaria o resto da sua vida sozinho. Sozinho naquela mansão enorme. Talvez mudasse de casa. Um apartamento. Isso! Um apartamento bem pequeno! Teria vizinhos, pessoas com quem conversar para enganar a solidão que se tornaria sua companheira dali por diante.
Outra mulher? Ainda era novo tinha quarenta e quatro anos apenas. “Não, não!” Balançou a cabeça numa negativa.  Mulher nenhuma substituiria Silvia. Ele a amava e não se via ao lado de outra. Ao menos não para dividir sua vida.
Ele não entendia, horas antes dela adormecer no coma há três dias pediu que vivesse intensamente, que encontrasse alguém que o amasse. Pediu aos filhos para terem forças e obedecerem ao pai. Como ela sabia que não voltaria? E como o liberava do compromisso que mantiveram por tanto tempo?
Os filhos, graças à educação de Silvia eram pessoas muito boas e educadas. Foram criados no luxo mais não eram ostensivos nem arrogantes, muito pelo contrário eram simples e amáveis.
Casada há três anos, Claudia, a mais velha, estava segurando bem a barra ao seu lado. Não quis permitir que Claudia se casasse. Ainda via nela uma criança, a sua menininha, mas Silvia fez com que ele recordasse que eles também se casaram muito jovens. Fez com que ele lembrasse a paixão que sentiu avassalar seu peito quando a viu pela primeira vez.
E como ele a amou... Como ele a amava...
Sentiu a vida deixar o corpo de Silvia. Em um último e profundo suspiro sua amada morrera!
O desespero quis tomar conta da sua mente alguns instantes, mas tinha que manter a calma por causa dos filhos.
Claudia era mais madura, entenderia e estava mais preparada, mas Roberto...
Este daria trabalho. Roberto tinha o seu nome. Antes mesmo de casarem tinham combinado de colocar o seu nome na criança se esta fosse menino. Mas primeiro veio uma menina, Claudia, dois anos depois nascia o tão desejado menino.
Era muito apegado à mãe. E já fazia algum tempo mostrava-se revoltado com tudo. Não conseguia administrar a dor de perdê-la.
Ajoelhou ao lado do corpo inerte da mulher e proferiu mais uma oração.
A última.
                        Pediu que Deus desse-lhe forças, que ele pudesse enfrentar a dor com serenidade, que pudesse apoiar os filhos e os consolar. O tornasse forte. Mais forte do que vinha sendo todos esses anos.
E orando pediu para que o mesmo Deus o ouvisse desta vez...
Saiu do quarto como que anestesiado. Não sentia seus membros, não sentia sua alma.
 Fez todos os procedimentos burocráticos exigidos pela funerária. Ligou para os filhos os avisou e pediu para que eles avisassem alguns parentes.
Robertinho até que lhe soou tranqüilo. Estranhou.
Voltou para casa e deitou-se um pouco.
Acordou com a noite bem adiantada. Tomou seu banho e foi até a cozinha comer algo.
Percebeu que não se alimentava há dias.
Ao descer as escadas sentiu um vento frio tocar-lhe a nuca. Como um suspiro, um lamento. A sensação de alguém o observar era clara.
Pensou em voltar para o quarto e logo em seguida chegou à conclusão de que era bobagem da sua cabeça.
A esta hora da noite estava sozinho em casa.
Comeu um lanche e tomou um copo de suco, mesmo sem sentir o sabor. Não teve animo para tirar o prato e o copo de cima da mesa de centro da sala. Amanhã cedo pediria desculpas a Marisa por ser tão desleixado, explicaria que hoje não estava com cabeça para lavar louça. Ela trabalhava ali há mais de dez anos e já devia estar acostumada com ele. Silvia detestava quando ele comia e deixava as louças sujas e esparramadas pela casa.
Ligou a TV e logo adormeceu novamente.
Acordou com o telefone tocando. Sua mãe avisava que não poderiam vir para o enterro porque seu pai estava com gripe e acamado. Tentou consolá-lo e prometeu ir assim que seu pai melhorasse.
Subiu, tomou seu banho, colocou seu melhor terno e desceu para tomar o café. Marisa ainda não chegara e passava das 8 da manhã.
Olhando pela janela percebeu que chovia, o trânsito devia estar congestionado. Explicado o atraso da empregada e o lembrando da louça suja que tinha deixado na mesinha da sala.
Ao chegar à sala a louça já não estava. Ele as tinha deixado ali. Lembrava nitidamente disso. O prato, o copo... A mesa estava limpa, nem migalhas ou a marca do copo sobre ela havia.
Foi à cozinha e viu os objetos ainda molhados no escorredor.
Pensou, tentando afastar a loucura da mente, que Marisa já estivera na casa e que por algum motivo tinha saído novamente.
Droga! − Olhou o relógio. Estava atrasado.
No caminho muitas lembranças passaram por sua cabeça. Algumas decisões também.
Venderia a casa assim que pudesse. Mudaria para um apartamento. Isso estava certo. Faria uma faculdade, qualquer uma, talvez História... Sempre quis lecionar, mas seus pais diziam que não sustentaria uma família com o salário de professor. Resolveu ser advogado tributarista.
No enterro amigos, empregados, parentes, todos estavam muito comovidos. Ficou algum tempo após o enterro olhando o túmulo onde um dia deitaria ao lado de Silvia.
O súbito arrepio novamente lhe percorreu a nuca.
Ela que tinha escolhido o mármore escuro. Queria seu nome escrito em dourado... Foi o que fez.
A chuva caia fina, mas constante, não parou um minuto sequer durante o dia todo.
Almoçou na casa da filha, consolou o filho, conversou com o primo Luis que fazia mais de dez anos que não via e resolveu voltar para casa...
Sozinho.
Robertinho se ofereceu para ir junto. Mas ele recusou.
Tinha que começar a enfrentar a sua solidão.
Abriu a porta, a casa estava vazia e escura. Marisa provavelmente passara por lá, mas já tinha ido embora quando chegou.
A casa estava limpa, perfeita. Tudo estava como Silvia gostava. Cada vaso de planta, cada porta retrato, tudo.
Marisa tinha lavado as roupas, feito comida e deixado no forno. Ainda estava quente.
Ele se sentia estranho. Aquela sensação de estar acompanhado voltou. E o arrepio também.
Tomou seu banho, jantou e deitou-se no sofá da sala com a TV ligada com o volume bem alto. Não percebeu quando o sono lhe alcançou. Já dentro da madrugada ouviu um barulho.
Meio zonzo de sono percebeu um toque. Sentiu a mão gelada segurar a sua. O frio percorreu todo seu corpo. Ao erguer os olhos viu seu rosto. Seus olhos estavam com o mesmo brilho de quando jovem. A paixão esquentou seu coração novamente como se nunca houvesse saído dele.
Ela aproximou-se e tocou seus lábios em um beijo tão profundo que o frio cadavérico envolveu-o por completo deixando seu corpo rígido.
“Venha meu amor. Fique comigo. Estou tão sozinha!” − Sua voz soou longe, quase um sussurro.
Seu pedido era irresistível. Ele queria ir. Precisava ir. E por se imaginar sonhando aceitou o convite da sua eterna amada. Poderia assim estar com ela mais uma vez.
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A mulher apressava-se em abrir a porta. Queria já estar com a mesa do café pronta quando o patrão acordasse. Afinal faltou ontem, no dia do enterro da patroa.
“Aff!” − A porta não abria. Algumas sacolas escorregavam de suas mãos. −“Ele deve estar uma fera. Nervoso como andava nos últimos dias...” – pensou.
Ela faltou sim, mas foi por que seu filho caçula estava doente. − Sabe essas viroses que derruba as crianças? − E ninguém que conhecia podia ficar com ele, a creche mesmo pediu que não o levasse para não infectar outras crianças.
Reparou que a casa estava limpa, a louça lavada. Ou ele estava muito bravo ou não viera para casa. Mas já na sala sua garganta secou e um grito de horror e pânico preencheu cada cômodo da casa. A pobre Marisa nunca viu ninguém assim.
No sofá a frente da TV seu Roberto jazia inerte, os olhos estavam abertos estáticos e sua boca esboçava um leve sorriso.
Reuniu toda sua coragem. Suas pernas e mãos ainda tremiam quando ligou para Claudinha:
−“Seu Roberto morreu durante a noite.”

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Vida Fácil - Marjory Tolentino


Nada mais importava. Seu corpo não tinha mais a suavidade da vida.
Ali caída à beira do acostamento conseguia ver pouco ou quase nada e o que via tinha dificuldade de distinguir em meio à escuridão da noite. Não sabia se estava com medo. Talvez pavor...
Inspirava com dificuldade e um pouco de vida lhe escapava a cada expiração.
Por um instante lembrou-se do  menino. Não devia tê-lo deixado. Não devia! − pensou com arrependimento.
Fique comigo esta noite mamãe – ele pediu.
Recordou sua vozinha na mente.
O bichinho parecia saber!
Nunca pediu para ficar. Sabia que a mãe trabalhava à noite e já estava acostumado com sua ausência. O gosto de ferro lhe subiu à boca. Lembrou-se do Toddy, o cachorro que tinha quando criança. Morreu envenenado, seu pai disse que quando um animal expelia sangue pela boca sua morte era certa. Entendeu que seu fim aproximava-se a cada segundo. E tudo conspirava para isso. Estava em um lugar deserto, à alta madrugada e sem forças para gritar.
Sempre soube dos riscos da  sua profissão. Não tinha o trabalho que sonhara quando criança (queria ser médica), mas era com este que o alimento chegava à sua mesa e dava condições para que seu pequeno estudasse.
Não era uma vadia como muitos pensavam e cada homem que a possuía abria um corte em sua alma. Por muitas noites pensou em abandonar tudo.
Mas tinha o menino...
Ele era a única coisa que a vida lhe deu de bom. Bom não. Ele era maravilhoso! Era a luz na sua vida. Não teve muito estudo. Muito bonita, não conseguiu um emprego quando enviuvou. ninguém emprega uma mulher com mais de trinta anos sem experiência. Foi uma época  muito difícil. Seu marido morreu sem deixar nada para eles.
Ela tentou. Trabalhava três dias durante a semana como faxineira. Mas o dinheiro era pouco e o menino necessitava. Moravam longe do centro. Não podia deixá-lo sozinho.
A vida nunca foi fácil para ela. Tudo que tem conseguiu com muita dificuldade. Estava cansando de sempre estar em busca de algo que sempre estava fugindo dela.
Esta noite foi diferente. Teve a impressão de que o milagre ocorrera. Por um segundo pensou que as coisas pudessem mudar.
Este último cliente mostrou-se diferente. Mais gentil, que os outros, quase humano. Normalmente a usavam, pagavam e a dispensavam como se dispensa o cavalo no final de um dia de trabalho. As vezes ate pior. Porém este homem não era como os outros. Há algumas semanas vinha usando seus serviços quase que diariamente. Chegou a pedir seu endereço e telefone.
Tratou-a com respeito, coisa que não tinha da parte de um homem há muito tempo. Mostrou-se preocupado com seus sentimentos e com sua segurança. Não queria deixá-la naquele lugar ermo. Mas devido a sua insistência cedeu.
Afinal não tinha ficado tão longe de casa e preferiu ficar assim mesmo. Queria evitar comentários maldosos dos vizinhos sobre a forma com a qual ganhava a vida.
Agora estava ali... Morrendo.
Queria parar de pensar e deixar que a morte a levasse em seu manto negro quase que reconfortante. Podia sentir seu cheiro. Cheiro de morte, doce, acre, quase cítrico. Mas tinha o menino... Ele era alegre e inocente. Tão criança ainda, apenas cinco anos. Mandariam ele para um orfanato. Não tinham ninguém por eles.
Ele a amava! Este sim a amava! Sempre a amou. Nunca tinha sentido um amor tão puro e profundo ate o dia de seu nascimento. Era arrebatador.
O desespero chegou a sua mente. Pediu a Deus para que não lhe deixasse morrer. Que pudesse viver para estar ao lado de seu menino. Ao lado do seu amor reconfortante.
Que pudesse sentir o toque de suas mãozinhas em seu rosto novamente.
Fique hoje mamãe. Só hoje.
As lágrimas escorreram por seu rosto ferido. E esboçou na mente uma oração desesperada. Deus precisava ouvir desta vez. Chegou a pensar que abandonaria o profano trabalho se Ele lhe concedesse vida.
Tudo lhe doía. Agora podia sentir como o choque violento destruira seu corpo.
O desgraçado fez de propósito! Ela estava longe da rodovia. Sempre teve cuidado.
Agora tinha que lutar. Pelo menino, tinha que tentar. Talvez ele nunca soubesse de seu empenho em viver. Tinha que ter forças para mexer-se.
Tentou, mas não conseguia. A dor era insuportável.
Focalizou algum movimento no breu noturno e percebeu luzes de farol. Será que seu algoz voltara para certificar-se que seu corpo boiava no lamaçal já inerte e sem vida?
Ouviu quando a porta do carro bateu e passos firmes vieram em sua direção. Deu-se conta que o impacto não a havia lançado tão longe da estrada.
Sentiu mãos quentes e acolhedoras envolverem seu corpo levantando-a do seu túmulo de lama. Sentiu também um suave perfume já conhecido, que mesmo esforçando-se não conseguiu lembrar onde o tinha notado antes.
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Acordou em um quarto iluminado e branco. Seus olhos ardiam ante tanta claridade, e a dor de seu corpo não mais existia.
Viu o menino entrar com algumas margaridas que colhera (provavelmente escondido pelo caminho). Subiu em seu leito com a inocência que só as crianças são capazes de expressar. Lhe deu um beijo demorado na face e um abraço apertado. Olhando para ele sentiu seu coração esquentar a alma.
Não terá que trabalhar mais a noite mamãe.
Não sabia se a frase lhe era uma questão ou uma afirmação e achou muito difícil explicar a ele agora que não podia deixar o seu castigo.
Apenas cedeu ao abraço sôfrego do menino. E agradeceu a Deus por tê-la ouvido.
Ele me disse. – O menino olhou em direção a porta.
Só então notou o homem à entrada do quarto portando em suas mãos as mais belas rosas que já vira.
Aquele mesmo homem gentil que minutos antes de seu atropelamento a tinha possuído com tanto carinho.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Quero um amor - Marjory Tolentino



Quero um amor que me arrebata, que me destrua.
Quero viver o amor que se entregue e me mate.
Quero sentir o amor que me fira,
Que me doa,
Que me coma.
Que provoque lágrimas e prove a mim mesma que estou viva.
Quero um amor que enlouqueça e me consuma.
Quero me doar a este amor.
Quero vivê-lo.
Mesmo que morra ou enlouqueça.
Mesmo que mate ou adoeça.
Caso contrário não estarei completa, não estarei inteira.
Serei sempre metade.
Metade de algo que busco e desconheço.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A avó - Marjory Tolentino


O salão enorme parecia muito maior do que realmente era. Apenas alguns parcos amigos vieram lhe prestar a ultima homenagem. Da família somente nós três permanecíamos ali, junto a seu corpo inerte. Somos três irmãos, os últimos da sua linhagem de seres onde a vivacidade e a ignonimia reinavam.
Eu imagino o quão estranho será voltar para casa e já não a encontrar lá.
Quando nós éramos crianças (época em que a inocência nos dá a liberdade de falar qualquer coisa, sem que isto pareça uma blasfêmia) brincávamos de sermos os fantasmas dos que já foram, arrastando correntes pelo chão dos corredores do velho casarão, estragando o lustre dado a eles. Imaginávamos como seria quando todos estivessem mortos, e só restasse nos três. Qual seria a sensação de sermos os últimos? E qual espectro tomaria as correntes nas mãos.
 
Agora que isto ocorrera, restou o vazio. A sensação de pesar e nostalgia que estas horas sempre trazem.
Ao acabar aquela recepção infinita e seu corpo for guardado dentro da terra, só restará a eu voltar ao casarão. Será eu, a casa e a solidão.
O lugar onde ela escolheu para formar a sua família há mais de meio século, era um casarão antigo e desbotado pelo tempo, construído em meados do século dezoito, que mesmo estando fadado a ruir um dia, assim como ela o fez ate o ultimo minuto, permanecia imponente.
Todos que fizeram parte da sua vida morreram. Seus filhos, irmãos, seus maridos... Enterrou todos, só lhe restou nós três. Mas ela se recusava a morrer, como meu irmão vivia a dizer “Esta velha é imorrivel”.
Contou cento e vinte anos, vivendo mais do que é permitido à maioria dos seres humanos. Seu corpo abrigava muitas rugas e um ar cansado se fez presente nesses dias.
Cansado também estavam seus passos. Já não conseguia levantar todo o peso dos pés e os arrastava pela casa calçada em seus chinelos de couro criando um som característico, um chiado quase um sussurro.
Era fisicamente ativa, andava por toda a casa, porem não organizava as idéias direito. Ao caminho do banheiro mudava a direção e ia para a cozinha acabando por fazer suas necessidades ali mesmo. Sua mente já não funcionava como antes, mas mantinha-se uma velhinha agradável e simpática.
Em raros momentos de lucidez falava do passado como se este houvera ocorrido a pouco e mantinha uma conversa solta por horas a fio.
O tempo não acinzentou seus cabelos, não lhe tirou o bom humor, mas lhe acrescentou a rabugice que só cabe aos senis.
Tínhamos criado um elo muito forte nesses sete anos que passamos juntas. Aprendi a olhar para ela não mais como a vovó dos doces e guloseimas, mas como uma mulher frágil e dependente.
Voltei para casa assim que meus irmãos foram embora para retornar as suas vidas.
Um vento invernal tornava muito mais fria a noite que já ia alta.
O casarão, um pouco mais soturno agora, mantinha a sua imponência apesar de tudo a sua volta parecer sem cor.
Ao entrar pensei vê-la sentada no sofá olhando pela janela o horizonte, como fazia todas as tardes. A vi levantar seu corpo cadavérico de tão magro. Sua imagem sumiu tão rápida e nítida quanto surgiu.
Tomei uma xícara de chá e percebi que os últimos dias não foram tranqüilos. Precisava dormir.
Em meu quarto entre um ou outro cochilo, não escutei correntes sendo arrastadas. Escutei a chuva caindo no telhado, os cachorros da vizinhança latindo interminavelmente, o assovio do vento na janela e um chiado...
Chiado de passos cansados.

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