sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A esposa - Marjory Tolentino


 Casados há vinte anos, tinha se acostumado com ela, com suas manias e seus gostos. Nunca ficaram longe um do outro, a não ser no nascimento das crianças e quando ele fez a cirurgia para a retirada do baço após sofrer um acidente automobilístico. Ah! Teve o dia em que dona Lúcia, sua sogra, morreu, nesta ocasião Silvia ficou por dois dias longe dele...
Vinte anos e se afastaram apenas por dez dias. Dez dias!
A idéia de passar o resto de vida que lhe sobrava sem a mulher provocou-lhe um arrepio agonizante pelo corpo.
Levantou a cabeça e olhou Silvia. Estava serena e tranqüila. Não a via assim já há muito tempo. Desde quando a doença foi diagnosticada nunca mais tiveram paz. Foram dias horríveis e intermináveis. Cinco anos se passaram e tiveram poucos resultados positivos.
Procuraram vários médicos, viajaram para testarem novas tecnologias contra a doença, novas drogas que surgiram no mercado... Porém parecia que apenas adiavam o inevitável e assim prolongavam o sofrimento de todos. Tudo que o dinheiro podia fazer por ela foi feito. Até descobrirem que não dependiam do dinheiro. Estavam à mercê da sorte, de Deus, ou da fatalidade.
Por um momento teve a impressão de vê-la sorrir. Como? Podia alguém que esta morrendo sorrir?
Ele agora passaria o resto da sua vida sozinho. Sozinho naquela mansão enorme. Talvez mudasse de casa. Um apartamento. Isso! Um apartamento bem pequeno! Teria vizinhos, pessoas com quem conversar para enganar a solidão que se tornaria sua companheira dali por diante.
Outra mulher? Ainda era novo tinha quarenta e quatro anos apenas. “Não, não!” Balançou a cabeça numa negativa.  Mulher nenhuma substituiria Silvia. Ele a amava e não se via ao lado de outra. Ao menos não para dividir sua vida.
Ele não entendia, horas antes dela adormecer no coma há três dias pediu que vivesse intensamente, que encontrasse alguém que o amasse. Pediu aos filhos para terem forças e obedecerem ao pai. Como ela sabia que não voltaria? E como o liberava do compromisso que mantiveram por tanto tempo?
Os filhos, graças à educação de Silvia eram pessoas muito boas e educadas. Foram criados no luxo mais não eram ostensivos nem arrogantes, muito pelo contrário eram simples e amáveis.
Casada há três anos, Claudia, a mais velha, estava segurando bem a barra ao seu lado. Não quis permitir que Claudia se casasse. Ainda via nela uma criança, a sua menininha, mas Silvia fez com que ele recordasse que eles também se casaram muito jovens. Fez com que ele lembrasse a paixão que sentiu avassalar seu peito quando a viu pela primeira vez.
E como ele a amou... Como ele a amava...
Sentiu a vida deixar o corpo de Silvia. Em um último e profundo suspiro sua amada morrera!
O desespero quis tomar conta da sua mente alguns instantes, mas tinha que manter a calma por causa dos filhos.
Claudia era mais madura, entenderia e estava mais preparada, mas Roberto...
Este daria trabalho. Roberto tinha o seu nome. Antes mesmo de casarem tinham combinado de colocar o seu nome na criança se esta fosse menino. Mas primeiro veio uma menina, Claudia, dois anos depois nascia o tão desejado menino.
Era muito apegado à mãe. E já fazia algum tempo mostrava-se revoltado com tudo. Não conseguia administrar a dor de perdê-la.
Ajoelhou ao lado do corpo inerte da mulher e proferiu mais uma oração.
A última.
                        Pediu que Deus desse-lhe forças, que ele pudesse enfrentar a dor com serenidade, que pudesse apoiar os filhos e os consolar. O tornasse forte. Mais forte do que vinha sendo todos esses anos.
E orando pediu para que o mesmo Deus o ouvisse desta vez...
Saiu do quarto como que anestesiado. Não sentia seus membros, não sentia sua alma.
 Fez todos os procedimentos burocráticos exigidos pela funerária. Ligou para os filhos os avisou e pediu para que eles avisassem alguns parentes.
Robertinho até que lhe soou tranqüilo. Estranhou.
Voltou para casa e deitou-se um pouco.
Acordou com a noite bem adiantada. Tomou seu banho e foi até a cozinha comer algo.
Percebeu que não se alimentava há dias.
Ao descer as escadas sentiu um vento frio tocar-lhe a nuca. Como um suspiro, um lamento. A sensação de alguém o observar era clara.
Pensou em voltar para o quarto e logo em seguida chegou à conclusão de que era bobagem da sua cabeça.
A esta hora da noite estava sozinho em casa.
Comeu um lanche e tomou um copo de suco, mesmo sem sentir o sabor. Não teve animo para tirar o prato e o copo de cima da mesa de centro da sala. Amanhã cedo pediria desculpas a Marisa por ser tão desleixado, explicaria que hoje não estava com cabeça para lavar louça. Ela trabalhava ali há mais de dez anos e já devia estar acostumada com ele. Silvia detestava quando ele comia e deixava as louças sujas e esparramadas pela casa.
Ligou a TV e logo adormeceu novamente.
Acordou com o telefone tocando. Sua mãe avisava que não poderiam vir para o enterro porque seu pai estava com gripe e acamado. Tentou consolá-lo e prometeu ir assim que seu pai melhorasse.
Subiu, tomou seu banho, colocou seu melhor terno e desceu para tomar o café. Marisa ainda não chegara e passava das 8 da manhã.
Olhando pela janela percebeu que chovia, o trânsito devia estar congestionado. Explicado o atraso da empregada e o lembrando da louça suja que tinha deixado na mesinha da sala.
Ao chegar à sala a louça já não estava. Ele as tinha deixado ali. Lembrava nitidamente disso. O prato, o copo... A mesa estava limpa, nem migalhas ou a marca do copo sobre ela havia.
Foi à cozinha e viu os objetos ainda molhados no escorredor.
Pensou, tentando afastar a loucura da mente, que Marisa já estivera na casa e que por algum motivo tinha saído novamente.
Droga! − Olhou o relógio. Estava atrasado.
No caminho muitas lembranças passaram por sua cabeça. Algumas decisões também.
Venderia a casa assim que pudesse. Mudaria para um apartamento. Isso estava certo. Faria uma faculdade, qualquer uma, talvez História... Sempre quis lecionar, mas seus pais diziam que não sustentaria uma família com o salário de professor. Resolveu ser advogado tributarista.
No enterro amigos, empregados, parentes, todos estavam muito comovidos. Ficou algum tempo após o enterro olhando o túmulo onde um dia deitaria ao lado de Silvia.
O súbito arrepio novamente lhe percorreu a nuca.
Ela que tinha escolhido o mármore escuro. Queria seu nome escrito em dourado... Foi o que fez.
A chuva caia fina, mas constante, não parou um minuto sequer durante o dia todo.
Almoçou na casa da filha, consolou o filho, conversou com o primo Luis que fazia mais de dez anos que não via e resolveu voltar para casa...
Sozinho.
Robertinho se ofereceu para ir junto. Mas ele recusou.
Tinha que começar a enfrentar a sua solidão.
Abriu a porta, a casa estava vazia e escura. Marisa provavelmente passara por lá, mas já tinha ido embora quando chegou.
A casa estava limpa, perfeita. Tudo estava como Silvia gostava. Cada vaso de planta, cada porta retrato, tudo.
Marisa tinha lavado as roupas, feito comida e deixado no forno. Ainda estava quente.
Ele se sentia estranho. Aquela sensação de estar acompanhado voltou. E o arrepio também.
Tomou seu banho, jantou e deitou-se no sofá da sala com a TV ligada com o volume bem alto. Não percebeu quando o sono lhe alcançou. Já dentro da madrugada ouviu um barulho.
Meio zonzo de sono percebeu um toque. Sentiu a mão gelada segurar a sua. O frio percorreu todo seu corpo. Ao erguer os olhos viu seu rosto. Seus olhos estavam com o mesmo brilho de quando jovem. A paixão esquentou seu coração novamente como se nunca houvesse saído dele.
Ela aproximou-se e tocou seus lábios em um beijo tão profundo que o frio cadavérico envolveu-o por completo deixando seu corpo rígido.
“Venha meu amor. Fique comigo. Estou tão sozinha!” − Sua voz soou longe, quase um sussurro.
Seu pedido era irresistível. Ele queria ir. Precisava ir. E por se imaginar sonhando aceitou o convite da sua eterna amada. Poderia assim estar com ela mais uma vez.
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A mulher apressava-se em abrir a porta. Queria já estar com a mesa do café pronta quando o patrão acordasse. Afinal faltou ontem, no dia do enterro da patroa.
“Aff!” − A porta não abria. Algumas sacolas escorregavam de suas mãos. −“Ele deve estar uma fera. Nervoso como andava nos últimos dias...” – pensou.
Ela faltou sim, mas foi por que seu filho caçula estava doente. − Sabe essas viroses que derruba as crianças? − E ninguém que conhecia podia ficar com ele, a creche mesmo pediu que não o levasse para não infectar outras crianças.
Reparou que a casa estava limpa, a louça lavada. Ou ele estava muito bravo ou não viera para casa. Mas já na sala sua garganta secou e um grito de horror e pânico preencheu cada cômodo da casa. A pobre Marisa nunca viu ninguém assim.
No sofá a frente da TV seu Roberto jazia inerte, os olhos estavam abertos estáticos e sua boca esboçava um leve sorriso.
Reuniu toda sua coragem. Suas pernas e mãos ainda tremiam quando ligou para Claudinha:
−“Seu Roberto morreu durante a noite.”

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Vida Fácil - Marjory Tolentino


Nada mais importava. Seu corpo não tinha mais a suavidade da vida.
Ali caída à beira do acostamento conseguia ver pouco ou quase nada e o que via tinha dificuldade de distinguir em meio à escuridão da noite. Não sabia se estava com medo. Talvez pavor...
Inspirava com dificuldade e um pouco de vida lhe escapava a cada expiração.
Por um instante lembrou-se do  menino. Não devia tê-lo deixado. Não devia! − pensou com arrependimento.
Fique comigo esta noite mamãe – ele pediu.
Recordou sua vozinha na mente.
O bichinho parecia saber!
Nunca pediu para ficar. Sabia que a mãe trabalhava à noite e já estava acostumado com sua ausência. O gosto de ferro lhe subiu à boca. Lembrou-se do Toddy, o cachorro que tinha quando criança. Morreu envenenado, seu pai disse que quando um animal expelia sangue pela boca sua morte era certa. Entendeu que seu fim aproximava-se a cada segundo. E tudo conspirava para isso. Estava em um lugar deserto, à alta madrugada e sem forças para gritar.
Sempre soube dos riscos da  sua profissão. Não tinha o trabalho que sonhara quando criança (queria ser médica), mas era com este que o alimento chegava à sua mesa e dava condições para que seu pequeno estudasse.
Não era uma vadia como muitos pensavam e cada homem que a possuía abria um corte em sua alma. Por muitas noites pensou em abandonar tudo.
Mas tinha o menino...
Ele era a única coisa que a vida lhe deu de bom. Bom não. Ele era maravilhoso! Era a luz na sua vida. Não teve muito estudo. Muito bonita, não conseguiu um emprego quando enviuvou. ninguém emprega uma mulher com mais de trinta anos sem experiência. Foi uma época  muito difícil. Seu marido morreu sem deixar nada para eles.
Ela tentou. Trabalhava três dias durante a semana como faxineira. Mas o dinheiro era pouco e o menino necessitava. Moravam longe do centro. Não podia deixá-lo sozinho.
A vida nunca foi fácil para ela. Tudo que tem conseguiu com muita dificuldade. Estava cansando de sempre estar em busca de algo que sempre estava fugindo dela.
Esta noite foi diferente. Teve a impressão de que o milagre ocorrera. Por um segundo pensou que as coisas pudessem mudar.
Este último cliente mostrou-se diferente. Mais gentil, que os outros, quase humano. Normalmente a usavam, pagavam e a dispensavam como se dispensa o cavalo no final de um dia de trabalho. As vezes ate pior. Porém este homem não era como os outros. Há algumas semanas vinha usando seus serviços quase que diariamente. Chegou a pedir seu endereço e telefone.
Tratou-a com respeito, coisa que não tinha da parte de um homem há muito tempo. Mostrou-se preocupado com seus sentimentos e com sua segurança. Não queria deixá-la naquele lugar ermo. Mas devido a sua insistência cedeu.
Afinal não tinha ficado tão longe de casa e preferiu ficar assim mesmo. Queria evitar comentários maldosos dos vizinhos sobre a forma com a qual ganhava a vida.
Agora estava ali... Morrendo.
Queria parar de pensar e deixar que a morte a levasse em seu manto negro quase que reconfortante. Podia sentir seu cheiro. Cheiro de morte, doce, acre, quase cítrico. Mas tinha o menino... Ele era alegre e inocente. Tão criança ainda, apenas cinco anos. Mandariam ele para um orfanato. Não tinham ninguém por eles.
Ele a amava! Este sim a amava! Sempre a amou. Nunca tinha sentido um amor tão puro e profundo ate o dia de seu nascimento. Era arrebatador.
O desespero chegou a sua mente. Pediu a Deus para que não lhe deixasse morrer. Que pudesse viver para estar ao lado de seu menino. Ao lado do seu amor reconfortante.
Que pudesse sentir o toque de suas mãozinhas em seu rosto novamente.
Fique hoje mamãe. Só hoje.
As lágrimas escorreram por seu rosto ferido. E esboçou na mente uma oração desesperada. Deus precisava ouvir desta vez. Chegou a pensar que abandonaria o profano trabalho se Ele lhe concedesse vida.
Tudo lhe doía. Agora podia sentir como o choque violento destruira seu corpo.
O desgraçado fez de propósito! Ela estava longe da rodovia. Sempre teve cuidado.
Agora tinha que lutar. Pelo menino, tinha que tentar. Talvez ele nunca soubesse de seu empenho em viver. Tinha que ter forças para mexer-se.
Tentou, mas não conseguia. A dor era insuportável.
Focalizou algum movimento no breu noturno e percebeu luzes de farol. Será que seu algoz voltara para certificar-se que seu corpo boiava no lamaçal já inerte e sem vida?
Ouviu quando a porta do carro bateu e passos firmes vieram em sua direção. Deu-se conta que o impacto não a havia lançado tão longe da estrada.
Sentiu mãos quentes e acolhedoras envolverem seu corpo levantando-a do seu túmulo de lama. Sentiu também um suave perfume já conhecido, que mesmo esforçando-se não conseguiu lembrar onde o tinha notado antes.
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Acordou em um quarto iluminado e branco. Seus olhos ardiam ante tanta claridade, e a dor de seu corpo não mais existia.
Viu o menino entrar com algumas margaridas que colhera (provavelmente escondido pelo caminho). Subiu em seu leito com a inocência que só as crianças são capazes de expressar. Lhe deu um beijo demorado na face e um abraço apertado. Olhando para ele sentiu seu coração esquentar a alma.
Não terá que trabalhar mais a noite mamãe.
Não sabia se a frase lhe era uma questão ou uma afirmação e achou muito difícil explicar a ele agora que não podia deixar o seu castigo.
Apenas cedeu ao abraço sôfrego do menino. E agradeceu a Deus por tê-la ouvido.
Ele me disse. – O menino olhou em direção a porta.
Só então notou o homem à entrada do quarto portando em suas mãos as mais belas rosas que já vira.
Aquele mesmo homem gentil que minutos antes de seu atropelamento a tinha possuído com tanto carinho.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Quero um amor - Marjory Tolentino



Quero um amor que me arrebata, que me destrua.
Quero viver o amor que se entregue e me mate.
Quero sentir o amor que me fira,
Que me doa,
Que me coma.
Que provoque lágrimas e prove a mim mesma que estou viva.
Quero um amor que enlouqueça e me consuma.
Quero me doar a este amor.
Quero vivê-lo.
Mesmo que morra ou enlouqueça.
Mesmo que mate ou adoeça.
Caso contrário não estarei completa, não estarei inteira.
Serei sempre metade.
Metade de algo que busco e desconheço.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A avó - Marjory Tolentino


O salão enorme parecia muito maior do que realmente era. Apenas alguns parcos amigos vieram lhe prestar a ultima homenagem. Da família somente nós três permanecíamos ali, junto a seu corpo inerte. Somos três irmãos, os últimos da sua linhagem de seres onde a vivacidade e a ignonimia reinavam.
Eu imagino o quão estranho será voltar para casa e já não a encontrar lá.
Quando nós éramos crianças (época em que a inocência nos dá a liberdade de falar qualquer coisa, sem que isto pareça uma blasfêmia) brincávamos de sermos os fantasmas dos que já foram, arrastando correntes pelo chão dos corredores do velho casarão, estragando o lustre dado a eles. Imaginávamos como seria quando todos estivessem mortos, e só restasse nos três. Qual seria a sensação de sermos os últimos? E qual espectro tomaria as correntes nas mãos.
 
Agora que isto ocorrera, restou o vazio. A sensação de pesar e nostalgia que estas horas sempre trazem.
Ao acabar aquela recepção infinita e seu corpo for guardado dentro da terra, só restará a eu voltar ao casarão. Será eu, a casa e a solidão.
O lugar onde ela escolheu para formar a sua família há mais de meio século, era um casarão antigo e desbotado pelo tempo, construído em meados do século dezoito, que mesmo estando fadado a ruir um dia, assim como ela o fez ate o ultimo minuto, permanecia imponente.
Todos que fizeram parte da sua vida morreram. Seus filhos, irmãos, seus maridos... Enterrou todos, só lhe restou nós três. Mas ela se recusava a morrer, como meu irmão vivia a dizer “Esta velha é imorrivel”.
Contou cento e vinte anos, vivendo mais do que é permitido à maioria dos seres humanos. Seu corpo abrigava muitas rugas e um ar cansado se fez presente nesses dias.
Cansado também estavam seus passos. Já não conseguia levantar todo o peso dos pés e os arrastava pela casa calçada em seus chinelos de couro criando um som característico, um chiado quase um sussurro.
Era fisicamente ativa, andava por toda a casa, porem não organizava as idéias direito. Ao caminho do banheiro mudava a direção e ia para a cozinha acabando por fazer suas necessidades ali mesmo. Sua mente já não funcionava como antes, mas mantinha-se uma velhinha agradável e simpática.
Em raros momentos de lucidez falava do passado como se este houvera ocorrido a pouco e mantinha uma conversa solta por horas a fio.
O tempo não acinzentou seus cabelos, não lhe tirou o bom humor, mas lhe acrescentou a rabugice que só cabe aos senis.
Tínhamos criado um elo muito forte nesses sete anos que passamos juntas. Aprendi a olhar para ela não mais como a vovó dos doces e guloseimas, mas como uma mulher frágil e dependente.
Voltei para casa assim que meus irmãos foram embora para retornar as suas vidas.
Um vento invernal tornava muito mais fria a noite que já ia alta.
O casarão, um pouco mais soturno agora, mantinha a sua imponência apesar de tudo a sua volta parecer sem cor.
Ao entrar pensei vê-la sentada no sofá olhando pela janela o horizonte, como fazia todas as tardes. A vi levantar seu corpo cadavérico de tão magro. Sua imagem sumiu tão rápida e nítida quanto surgiu.
Tomei uma xícara de chá e percebi que os últimos dias não foram tranqüilos. Precisava dormir.
Em meu quarto entre um ou outro cochilo, não escutei correntes sendo arrastadas. Escutei a chuva caindo no telhado, os cachorros da vizinhança latindo interminavelmente, o assovio do vento na janela e um chiado...
Chiado de passos cansados.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Melhor Defesa - Marjory Tolentino

Tentou encontrar algum sentido em tudo aquilo, mas não conseguiu. Não lhe doía somente o rosto e o corpo maltratado pela violência a que fora submetida. A dor passaria e logo seu algoz estaria de volta. Teria tempo de sair dali, de  pedir ajuda, de se esconder... Não, não! Isso não funcionava. Já o fizera antes e ele sempre se saía bem.  Essa atitude só faria piorar as coisas.
Com esforço levantou-se do chão e foi ao banheiro lavar-se. Estava um horror!  Tinha um corte acima do olho esquerdo, quase na fronte.
Os cabelos loiros e longos se desprendiam com facilidade por terem sido puxados seguidamente com violência extrema. Mas, mais que seus hematomas e ferimentos o que doía era sua alma que por muitas vezes pensou haver perdido.
Não amava mais. Não sentia nada mais além da dor e do medo. Medo de ir embora e ele por fim em sua vida como tantas vezes lhe jurou, quando faziam amor deixava claro que se fugisse morreria. Não a deixaria permanecer viva! Era certo.
Sabia não ter escolha. O que fazer, a não ser suportar seu destino?
Após o banho, voltou à sala para limpar o próprio sangue que manchava o chão. Ele não gostaria nada se ao chegar visse a casa suja e bagunçada por causa da briga anterior.
Lembrou de quando era adolescente, de quando se apaixonou pelo homem que hoje fazia com que sofresse tanto.
Um carro parou em frente a casa. Estremeceu. Poderia ser ele já?
Precisava de ajuda. O medo. Os vizinhos!  A policia! Mesmo impedida de gritar alguém deve ter visto ou escutado alguma coisa. Por alguns segundos esperou. Não era o socorro. Ninguém a ajudaria, ninguém a tinha ouvido. O carro permanecia a frente de seu portão. Isso era um problema quando ele voltasse teria que explicar que não havia ninguém em casa e com certeza não acreditaria.
Foi um homem gentil. Tentou lembrar quando ela o havia perdido, quando ele havia se tornado o monstro que era.
Viveram felizes por dois anos. Era muito jovem e cheia de sonhos, queria ser arquiteta como seu pai, mas seu amor pelo homem foi mais forte. Tudo o que ele dizia ela fazia lei. Teve alertas de sua mãe, ela tentou mostrar onde errava, mas não deu ouvidos. Ele era tão bom e amável... sempre a fazia sentir-se culpada por nunca poder servir a janta no horário devido o adiantado da hora que chegava da faculdade.
Acabou por ceder a seus pedidos quando veio a gravidez. Era um menino. Já sabiam o sexo . No oitavo mês apanhou. Chutou tanto a barriga... Teria ido para o pronto socorro  se não fosse o fato dele a ter trancado no banheiro.
Podia ter morrido junto com seu filho e lamentava isso não ter ocorrido.
Merda! –pensou.
O carro não saia dali. Não suportaria mais uma sessão de murros  hoje. Morreria se isso acontecesse.
Quem sabe seria melhor assim. Ele a mataria e acabaria com seu tormento de uma vez por todas.
Foi até a lavanderia lavar as roupas sujas de sangue. Pegou um vestido e sentou em sua cama, era um presente de sua mãe.
Nunca o tinha usado, fazia pouco tempo que seus pais haviam morrido em um acidente de carro. Passando a mão pelo tecido leve sentiu uma leve saliência. Um saquinho transparente abrigava um papel branco  e um pacotinho azul muito bem dobrados em varias partes.
No branco papel sua mãe escreveu:
“Querida Sofia
                 Serei breve: Use com sabedoria o presente que lhe dou. Ele libertará você de todas as suas amarras. Que Deus a proteja. “Amo-te.”
                                                   Mamãe
“Obs.: Homens ébrios amam uma bebida de qualidade”
Desdobrou o papel azul e encontrou um saquinho com um pozinho branco em seu interior.
Alguns transeuntes passavam na calçada fazendo burburinho de conversa. Os pelos de seu pescoço arrepiaram.
Tinha que parar de se assustar à toa.
Agarrou o saquinho. Voltou à cozinha, abriu a geladeira. Só tinha água.
O coração deu um salto no peito. Barulho na rua outra vez! Estava demorando. Ele logo chegaria.
Água não era bebida para um ébrio... Ou era?
Lembrou-se que quando bebia amanhecia com muita sede e ele não fugiria à regra.
Correu para o quarto e em uma sacola de plástico colocou umas poucas mudas de roupa.
Tinha que se apressar. Iria embora.
Teria que ir embora.
Desceu as escadas aos pulos e pegando a bolsa deu uma última olhada para a casa.
Ao virar a esquina a dois quarteirões pode ver um homem entrando bêbado em sua casa.
Apressou o passo.
Já amanhecia quando entrava num outro estado. Já fazia dois dias que havia fugido e nem sinal dele.
O ônibus parou. E o Motorista alertou que os passageiros tinham 20 minutos para suas necessidades.
Percebeu que tinha fome. Olhou em sua carteira. Tinha pouco dinheiro. Mais ia dar para comer alguma coisa na Loja de conveniência do posto de gasolina.
Comprou um pão com manteiga, um pacote de biscoitos e tomou um café.
Na saída, lembrou de comprar o jornal.
Entre outras notícias uma em especial lhe chamou a atenção. Em letras miúdas apenas uma nota trágica entre tantas outras das páginas policiais.
Homem é encontrado pelos vizinhos morto em sua casa após sofrer uma parada cardíaca.
Ele era de sua cidade. Mas ignorou seu nome, tirando um saquinho vazio de sua bolsa jogando-o no lixo junto com o jornal.
Tinha que se apressar ou o ônibus partiria sem ela.


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