quarta-feira, 31 de março de 2010

Juventude - Marjory Tolentino


Hoje me lembrei de quando vivia na juventude,
De quando podíamos tudo.
Quando nossos navios venciam os sete mares,
 Mesmo sendo navios feitos de folhas de caderno feitos por mãos infantis...
Hoje me lembrei de quando éramos jovens,
De quando podíamos tudo.
Quando nossas armas matavam de “mentirinha” todos os bandidos das redondezas, mesmo sendo armas feitas de galhos retorcidos.
Hoje me lembrei de quando vivíamos na juventude,
De quando podíamos tudo.
Quando éramos princesas e príncipes e todos os nossos desejos eram atendidos o mais rápido possível...
Quando não tínhamos dor ou quando a tínhamos era passageira e superficial.
Hoje as dores que temos ou são profundas, doem a alma ou já doeram tanto que nem sentimos mais.
Hoje vemos o mundo real, o mundo onde os navios frágeis não vencem oceanos.
Um mundo onde as armas realmente matam.
Um mundo onde não somos ninguém.
Um mundo onde a maioria não significa nada.
Espero um dia encontrar aquele jovem que acreditava que seres fantasiosos existiam.
Espero que aquele jovem só esteja perdido, tomara que não tenha morrido em uma das suas aventuras.
Tenho muita vontade de reencontrá-lo.
Sentar e conversar cm ele horas a fio. Perguntar-lhe sobre o que se passou. Por que se escondeu de mim.
Quero saber se ele ainda esta por ai em algum lugar só esperando que mundo se acalme.
Talvez ele esteja assustado por não reconhecer o mundo.
Espero encontrar-lo em um mundo onde não importa o navio que se tenha e sim a vontade de navegar.
Espero um dia encontrá-lo em um mundo onde a morte já não reine, onde armas já não matem, onde a vida se espalhe sem restrições.
Quero encontrá-lo alegre, feliz desejoso de conhecimento.
Vou procurar... Vou ver se encontro este jovem!  Ele deve estar ou muito escondido, ou tão escancaradamente inexpressivo que se torna impossível visualizar seus sonhos...

Marjory Tolentino

sábado, 27 de março de 2010

Filhoctomia - Marjory Tolentino

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Você foi amado e desejado.
Querido...
Mas não ficou comigo...
Um presente...
Tão sereno, frágil, indefeso.
Será que te dei segurança?
Sei que me ouviu.
Sei que sabia que estava ao seu lado.
Não teve tempo de saber tudo.
Não tive tempo de lhe ensinar o que sei.
Não conheceu o melhor do mundo.
Mas conheceu o melhor amor do mundo.
Não tivemos muito tempo juntos.
Não nos abraçamos.
Só choramos...
Era meu...
Fomos um só.
E fomos dois.
Ignorando o grande amor que nos unia...
Ela nos separou.
Ficaram lembranças e saudades.
Se lembra?
Mesmo sem que quiséssemos, surgiu o adeus.
Espero...
Eternamente...

quinta-feira, 25 de março de 2010

Indecifrável - Marjory Tolentino


Amo você.
Quando nos encontramos todas as noites,
Eu o amo.
Sou apaixonada pelo seu mistério,
Por seus ideais, por suas vontades.
Só conheço de ti o pensamento
E aquilo que se sente é a única coisa real que temos.

Possui-me todas as noites
É neste momento que me entrego
E sinto a sua entrega.
É neste momento que durmo exausta em seus braços oníricos.
O que é físico não importa.
Há coisas mais importantes que isto.
Minha necessidade de ti, do seu pensamento,
Das suas palavras sem voz.

Amo a idéia da sua existência e o encanto do seu ser.
Homem, ser humano indefinido, desprovido de sexo.
Ser intenso, exótico.
Um enigma que decifro hoje
Só para descobrir que na próxima noite
Terei que repetir a descoberta.
Porque você não é desvendável.

Não foi feito para ser entendido.
Foi criado para ser sentido.
Sem perguntas, sem culpas.
É tudo que desejei.
Descrevo a mim mesma seu toque pelo meu corpo.
Todas as noites você esta comigo.
Consolando-me e agradando-me.

Sinto em ti a solidão dos amaldiçoados e o medo dos banidos.
Somos seres únicos.
Amantes incompreendidos.
Apaixonados e desejosos de si mesmos.
Você é um ser intenso, profundo e enorme.
Um buraco negro imaginário cuja força de atração me suga a alma e me devolve a vida
Volto a ser o nada quando sai de mim, ao me deixar retorno ao caos.

segunda-feira, 15 de março de 2010

O assassino - Marjory Tolentino



O sangue percorria seu corpo com rapidez, os músculos tremiam e algo doía por dentro. Ela era tão cheia de vida, tão bonita… Estava entre as mais belas que já teve.
Nenhum escapava à sua fúria quando ela se apresentava, homens, mulheres, crianças... Não que se arrependesse, era necessário, só não queria mais ter que fazê-lo. Não desejava matar, desejava viver! Não tinha escolha, nunca teve. A ânsia por tomar vida de outrem era insuportável. Negava, passava muito tempo afastado das pessoas, mas quando o desejo vinha não o abandonava. Tinha medo de ficar sozinho consigo mesmo e enlouquecer de vez.
Precisava ir embora. Logo amanheceria, e ninguém poderia nota-lo ali.
Era um homem livre (por hora). Um dia alguém o denunciaria. Teriam que perceber quem era, ou então ele mesmo se entregaria e assim acabaria com sua infernal existência. Talvez, alguém viu ele matar a moça que cheirava a tempranillo¹ fresco. Ele viu os olhos. Olhos que o procuravam.
Se tivesse coragem para tornar público seus atos... Se o vissem, acabaria esta agonia.
‘As pessoas o perseguiriam novamente e desta vez dariam fim ao que desonrosamente chama de vida. Assassino! Pária! Demônio!
Lembra? As pessoas ensandecidas, borbulhando de ódio a vingar entes queridos, que você destruiu. Que você carrega em si. Enfrentaria a fogueira novamente? Covarde!'
A voz! Agora era assim, ela o atormentava quando a necessidade chegava e também quando a saciava. Antes de levar a jovem para encontrar-se com seu destino naquele beco fétido ela o incitou e outra vez se fazia presente!
―Estou louco! É isso! Enlouqueci! ―pensou consigo, sorrindo cínico.
‘Vai matar amanhã? O que será? Quem será? Um homem ou uma mulher?Ah!’ ― uma risada fina e compassada cruzou sua consciência...
‘Desta vez será animais? Lixo!’
―Maldita! ―gritou para si mesmo, mas sua voz rouca ecoou pelas ruas vazias. A voz não o deixava em paz! Estava com ele há anos. Sempre o culpando por fazer o que sua mente e seu corpo queriam, mas que seu coração recusava.
De todas as pessoas que tirara a vida, nunca deixou que nenhuma gritasse ou olhasse em seus olhos. Era cuidadoso.  Porém hoje cometera o erro. A mulher bela, de olhar intenso, por um fragmento de tempo olhou dentro de seus olhos tão profundamente que queimou sua alma.
A chuva fina tornava as ruas íngremes, escorregadias. Ouviu falar que uma tempestade se aproxima. Não importava. Nada o amedronta mais que a si próprio.
―Os loucos homens da ciência deste infante século XVIII julgam saber tudo! ―um sorriso irônico estampou-lhe o rosto.
 ―Eles não fazem ideia o quanto ignoram.
Tentaria dormir quando chegasse ao hotel. Sabia que sonharia.
―Olhos negros e brilhantes. Intensos... Vivos. ―repetiu para si. Sua face tornou-se rude ante a lembrança.
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O homem de boas vestes chegava um tanto desalinhado à recepção do hotel barato. O cheiro de café, álcool e cigarro o entorpecia. Pegou as chaves das mãos da velha e gorda recepcionista, uma mulher de horrível aparência que se apoiava sobre o balcão, sorriu-lhe deixando-o ver as falhas de dois incisivos superiores.
Começou subir as escadas com dificuldade. Lutando com os degraus para que não rangessem tanto e rompessem sob o peso do seu corpo que além de si levava as almas de outros. Suava. E o suor descia espesso por suas têmporas. Estava cansado, a mulher não fora suficiente.
No quarto, um cubículo com pouca iluminação que fedia a urina e mofo, estava seus pertences, que se resumiam a um velho baú e uma valise. O lugar de tão ruim era seguro. Ninguém o procuraria naquele inferno. Sorriu ao pensar nisso.
―Quem procuraria o demônio no inferno? Quem se atreveria? 
Lavou suas vestes, tomou um banho e deitou-se na cama, nu e ensopado de água. Antes que o sono chegasse e o dominasse, veio a sua mente o olhar da sua ultima vitima. Aqueles olhos profundos, olhos negros tão vivos e brilhantes. E seu toque ainda se fazia sentir em sua pele. A vívida lembrança deles ficou em sua mente até adormecer em um limbo mortal.
Amanhã quando a noite cobrisse a cidade novamente com seu lençol de escuridão, e a necessidade se fizesse presente, teria que encontrar outro alguém. Não importaria quem fosse. Alimentar-se-ia da energia de um ser, porém desta vez seria mais cuidadoso. Não olharia em seus olhos…


Nota do autor¹: Tempranillo é uma casta de uva tinta da família da Vitis vinifera, uma das castas mais conhecidas da Península Ibérica. Originária do norte da Espanha, também é muito cultivada em Portugual, onde é geralmente conhecida como Aragonez, ou Tinta Roriz na região do Douro.

Nota do autor²: Este conto é uma adaptação de uns dos trechos do Romance "Sombrios" da mesma autora.

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