quarta-feira, 21 de abril de 2010

O eu autor - Marjory Tolentino



Sou aquela que escreve por prazer. Em cada palavra há um sentimento, uma lágrima, um sorriso. Há a mistura de ódio e amor. Existe o calor das carícias dos amantes, aqueles que protagonizam os amores não vividos que na ânsia de tornarem reais suas almas, se esvaem em cada letra. Também há o afago quente e suave como um cobertor e doce como chiclete sabor "tutti-fruti" de infantis mãos a passear pelo rosto velho e sofrido de muitos.
Sou aquela que se deleita com uma mentira bem contada, que não se assusta com o monstro escondido em cada página, que briga com sua própria criação e discute com ela como se pudesse fazê-la entender aquilo que quer. Sem pedir licença como um Deus cria, mata, destrói, arrebata.
Sou aquela que vive, morre, cria inimizades, molda personalidades.
Sou aquela que briga com o mocinho e se apaixona pelo bandido, ou...  mata o bandido e casa-se com o mocinho.
Sou aquela que neste mundo sou mais que um Deus. Tenho todo poder em minhas mãos, tenho o maior poder em minhas mãos. Através delas posso fazer chorar, amedrontar, sorrir, amar, odiar... Enfim através de mim se sente.
Sou capaz de sujar os sentimentos mais puros, de influenciar ações e pensamentos.
Sou aquela que manipula seus sonhos, seu pensamento e se você me deixar entrar em sua mente ficarei em ti, mas não por muito tempo só o suficiente para te fazer sentir...

A canção do Umbral - Marjory Tolentino



O vento soprava forte por entre as árvores indicando que o inverno já se fazia presente, apesar do tom outonal que durante o dia a floresta apresentava. Suspirava toda vez que sentia a brisa gélida tocar a sua pele, mas sentia-se impulsionada a atender o seu chamado. A música era tão envolvente e aquecedora que podia ser ouvida a longas distâncias com notas que eram perfeitas, de tal forma que jurava poderem ser palpáveis.
Não tinha medo. O amou desde o primeiro instante que o viu, soube ali que morreria por ele, mesmo que ele fosse o seu algoz.
A noite não estava tão escura e as sombras apenas a circundavam. O ser, ao vê-la, sorriu lindamente. Ela era o amor de sua vida, aquela que esperou por anos. Durante séculos ele procurou e esperou por ela. Jurou para si mesmo, por tudo que já acreditou um dia, que jamais a prenderia, não a levaria junto de si. Mas vendo-a assim tão linda, pronta a entregar-se a ele sem se preocupar com sua monstruosidade, não era mais dono de suas certezas. Seu coração encheu-se de dúvidas.
E se ela estivesse ali para negá-lo, traí-lo? Se não o amasse? Podia estar com medo... Em sua consciência sabia que fisicamente não. Era muito jovem e belo para alguém o temer. Sua beleza exterior o tornava agradável aos olhos de quem o visse. Porém, ela o conhecia, inexplicavelmente ela conhecia seu mistério, seu segredo. Soube o que ele era no mesmo instante que o viu. E mesmo assim o amou.
Ou será que apenas sentiu? Quiçá ela não tenha noção do que ele é na realidade. O amou pela beleza e charme, mas não em sua essência.
Seu âmago se corroeu ante estes pensamentos. Pela primeira vez em Eras intermináveis sentiu medo. Medo de perder aquilo que nem mesmo veio a ter. A mulher, o amor, a liberdade...
Era isso que, além de tudo, ela significava: LIBERDADE! — gritou em pensamento.
A culpa; aqui estava ela. De tempos em tempos penetrava-lhe a mente. Sabia que era seu, por direito, uma fração de vida a cada alma que aprisionava.
A canção do umbral embriagava todos que a ouvissem. Porém, com ela não foi assim. E no desenfrear dos sentimentos que o avassalaram entregou a ela sua alma e seu coração.
Possuindo a maldição eterna, seu destino era aprisionar os que não mereciam viver. As almas que tomava, em grande parte, nem o inferno as queria, mas isto não o tornava melhor, sua atitude não deixava de ser a de um assassino. Muitos eram infanticidas, pedófilos, matricidas. E existiam também aqueles que usavam de má fé levando outros a erros incorrigíveis, deleitando-se ao ver a imundícia alheia em que foram coadjuvantes. Ah! Mas talvez nenhum desses fosse mau de fato, na grande maioria existia o fator do ambiente em que foram criados: pais omissos, mães promíscuas, amigos torpes, drogas, caráter fraco... Mas não maldade. Os de espírito puramente mau eram melhores. Seu prazer era maior quando aprisionava uma alma má e os vários anos acrescentados a sua já longínqua existência o tornava quase um imortal. Mesmo sabendo que livrava o mundo desses seres infames, sua culpa não diminuía. Isso não o tornava melhor que qualquer um deles, porque como eles, também sentia prazer em seus atos.
Nunca tocara a mesma melodia.  De quinquênio em quinquênio perambulava pela terra destilando sua melodia infernal, a cada cinco décadas apenas uma melodia seria tocada, a cada meio século a terra ouvia o seu chamado e os maus rendiam-se a ele.
Por mais de mil anos recusou-se a condenar alguém a carregar seu fardo. Fardo este que ele mesmo atraiu para si, com seus desejos impudicos. Mas agora ela existia. A dona de seus sonhos em eternais desejos contidos. Precisava encontrar alguém que pudesse continuar a fazer o seu infausto trabalho.
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Parou em frente ao músico. Era perfeito. De seus quase dois metros de altura a olhava com tamanha intensidade que o sentia devorar sua vida com seus pensamentos.
Colocou em dúvida, por instantes, se poderia corresponder a um desejo tão profundo como esse. Logo a mesma dúvida se dissipou. Afinal, não seria difícil amar alguém tão lindo quanto ele. Seus cabelos negros azulados, seus olhos de um verde esmeralda translúcido, sua pele branca e suave, era impossível imaginar que um homem como aquele, de traços tão masculinos, dono de uma beleza incomum fosse capaz de ser o destruidor de tantos seres.
Tocando o rosto dela com as pontas dos dedos como se tivesse medo de feri-la percebeu que cedia ao seu toque. Teve vontade de sujeitá-la a si ali mesmo, não suportaria a distância de seus corpos por mais tempo. Levantou-a em seus braços e a levou para dentro da velha casa.
Lá, apenas algumas lamparinas iluminavam o ambiente. Deitou-a em uma cama antiga, limpa e perfumada.
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O toque e o olhar dele a enfeitiçavam, mais que sua própria canção. 
— É linda. Tem certeza... Que quer a mim? — fez a pergunta lentamente. O medo da negativa invadia sua alma. Mas era necessário ter a certeza. Não poderia tomá-la sem que estivesse certa do que aconteceria com ambos depois. — Após esta noite, será minha. A mim pertencerás. Não só seu corpo, mas sua alma, seu coração... Entende isso?
— Sim. O meu coração já é seu desde o primeiro instante que te vi. — tinha a voz sonora e trêmula.
Abrindo seus braços para recebê-lo, abraçou-o e com um desejo promíscuo e insano se entregou a ele...
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A alvorada já era próxima quando levantou para poder cumprir o destino dos dois. Por um instante a observou em seu sono. Percebeu que não seria capaz de fazer com ela o que fazia há tanto tempo com outros.
Como uma sombra pesada e opaca, dedilhou uma melodia em sua guitarra; está era única, feita exatamente para aquele momento. Ele havia imaginado este instante muitas vezes, mas nunca pensou que seria tão difícil e doloroso. Pelo contrário, pensou que seria um alívio, afinal teria paz. Paz, alívio... Seria pedir demais para alguém que já causou tanta dor e sofrimento à humanidade. Um sorriso amargo mesclou-se às lágrimas que escorriam pelo seu rosto enquanto fitava a mulher. A música entrava em seus poros, não sentia dor física, apenas a dor que a separação lhe causava, a dor que a muitos fez sentir...
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A mulher acordou feliz ao som dos pássaros. O sol banhava o quarto por várias frestas e um calor cálido e aconchegante a envolvia. Procurou com o olhar pelo homem que a amava.
Estava sozinha. Apenas a guitarra estava deitada ao seu lado.
Olhando o instrumento, entendeu que ele já tinha partido, e sem coragem de se juntar a ele, segurando a guitarra em suas mãos, saiu em busca de almas cruéis...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Sabores agridoces - Marjory Tolentino


Tentei pensar, mas você não deixou
Tentei mudar, mas você não permitiu
Então, não pensei, não mudei...

Sujeitei a alma... O tempo passou e eu acabei. O tempo passou e eu desertei. Porém, insisti, lutei...
Perdi...
Mas veio a calmaria de sentimentos. E embrulhados em papel de bala, joguei fora todos os meus sonhos que cheiravam a hortelã. Substitui por outros com sabores exóticos de carambolas com pistache e limão com avelãs.
Então me revirando por dentro, forcei a calmaria ir embora. Expus minhas vísceras lavei-as e as reinstalei.
Tentei pensar, você já não me ordenava...
Tentei mudar, você já não me importava.
Então pensei, mudei... O tempo passou e eu renasci. O tempo passou e eu amei. Porem sorri, vivi...
Venci...

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