quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Passional - Marjory Tolentino





O ar pesado e o calor insuportável faz com que o suor empape sua blusa de cetim, grudando a alta gola em seu pescoço. Não sabia exatamente porque a vestiu, a gola apertada provocava-lhe angustias. A ansiedade crescia a cada minuto de espera, reencontrá-lo agora seria um alento para tudo de ruim que passou.

Nos últimos tempos as coisas ficaram cada vez mais difíceis, e vê-lo tornou-se algo praticamente impossível. Augusto dava sinais de desconfiança fazendo com que adiassem cada vez mais seus encontros. Tornando suas vidas um verdadeiro suplício. Não estava fácil manter uma postura fidedigna com tanta paixão fervilhando por dentro.

A noite levantou seu manto escuro e cobriu o céu a horas e nada dele chegar.

“Merda! Nunca se atrasou antes!” —pensou.

Através da minúscula janela daquele pardieiro, pôde ver algumas nuvens encobrirem a minguante lua, que nesta noite parecia quase tocar a terra. A tempestade que atingiu a região foi intensa. Ventos, raios e granizo... Agora a calma reinava ironicamente, o agitamento do povo na praça lembrava formigas que iam e vinham...
Mentiu muito e não tinha a menor dor na consciência por tê-lo feito. Não podia dar na cara assim sem mais nem menos, tinha que ter muito cuidado. Sabia o que era preciso fazer, mesmo assim foi insuportável. Necessitava tanto dele quanto do sangue que corria ferozmente por suas veias....
A praça estava barulhenta hoje, já passava das dez e nada do povo dispersar. Carros, cachorros, gatos, passantes... Todos estavam a mil. Aproximou-se mais ainda da janela com a vã intenção de refrescar-se um pouco com a brisa! Mas nada! Nem mesmo um sopro! O mundo a sua volta estava mergulhado em um torpor imenso, em uma calmaria inquietante. Abaixo, na rua, o carrinho de algodão doce estava parado na praça onde varias crianças brincavam de pique esconde. Alguns bancos abrigavam casais de namorados, um dos quais pareciam discutir. Limpando as lágrimas com as mãos, a moça, mostrando indignação, levantou-se, disse algumas palavras ao rapaz que atônito e aparentemente sem reação a observou partir.

Ele a seguiu com o olhar ate desaparecer em uma esquina. Cabisbaixo e com ar de quem não entendeu o que acabou de acontecer também foi embora se perdendo em meio às pessoas que preenchiam o lugar.

Alguma coisa naquela cena a fez lembrar quando era mais jovem, e um aperto no peito a fez lembrar das horas!

“Filha da puta! Ele não chega nunca!”

 Durante o dia Augusto estava irreconhecível! Nervoso, gritava e chorava. Se soubesse que esta seria sua reação não tinha contado daquela forma. Teria fugido. Uma coisa era certa, a situação como estava não dava mais.

Estava escondendo o romance com Marcelo há mais de dois anos, não suportava mais mentir, fingir e não viver. E depois que Marcelo separou-se de Úrsula tudo piorou, era ele que agora cobrava uma atitude dela e o fazia com razão. Afinal não existia motivo algum para permanecer com Augusto. Principalmente depois que descobriu que o marido, Augusto, mantinha com a mulher do próprio irmão há anos. Tentou aproveitar-se desta informação para causar o divorcio. Achou erroneamente conseguir assim, por fim em seu casamento que já estava defasado há muito tempo, sem expor o seu próprio erro.

O sino da igreja anunciava vinte e duas horas e nada dele aparecer.
“Onde diabos ele se meteu, que não aparece!”

Uma criança começou a chorar, caiu enquanto brincava, a mãe correu ao seu encontro para acalenta-la.

Não teve filhos. Não sabe exatamente o motivo, mas nunca aconteceu. Talvez agora, quando as coisas se acalmassem ela e Marcelo poderiam tentar...

Temeu a demora do amante. Augusto podia encontra-los! No estado que estava não pensaria duas vezes antes de fazer uma desgraça.

 “Que merda! Estavam arriscando demais, Marcelo estava louco era isso?”

A porta abriu-se no instante em que lagrimas enchiam seus olhos. Ao ver a imagem de Marcelo conseguiu sentir alivio em sua alma. Estava lindo, vestido com seu inseparável jeans surrado. O cabelo loiro cortado em desalinho e o sorriso torto (“Ah! O sorriso! O mesmo sorriso de menino travesso que fez com que se apaixonasse por ele.”), davam àquele homem uma jovialidade inabalável.

“Te amo!” —disse ao abraça-la.

“Também te amo muito!”

Beijaram-se demoradamente e deixaram o desejo tomar conta de seus corpos. E na loucura única dos apaixonados entregaram-se um ao outro, simples, como se nada mais existisse. Fazendo do eterno um segundo e do instantâneo eras.

A exaustão do amor fez-se presente nos corpos suados. Olhando fixamente a mulher Marcelo tirou uma mecha azeviche dos longos cabelos, revelando-lhe os olhos castanhos, intensos. Ele adora vê-la sorrindo. Quando sorri duas ‘covinhas’ formam-se em sua face uma a cada lado da boca. Laura não era realmente linda, mas era dotada de muitos encantos. Encantos estes que o seduziram desde o primeiro instante que pôs os olhos nela.

Deixando a razão voltar a sua mente, Laura lembrou-se do motivo pelo qual estavam ali.

“Temos que ir. Demoramos demais aqui. É perigoso, arriscar assim é insano.”

“Isso é. Afinal antes de vir para cá nos encontramos e não nos controlamos, acabamos brigando.”

“Vocês brigaram? Como assim, onde ele esta?”—Seu coração queria saltar do peito ante tal informação. Augusto podia ter seguido Marcelo.

“Calma! Não aconteceu nada demais. Fui ate sua casa porque liguei várias vezes em seu celular, mas só dava caixa postal. Fiquei preocupado e arrisquei tudo indo ate lá.”

“Você é louco! Quando o deixei ele estava possesso!”

“Tive medo por você, meu amor. Ana disse que você contaria tudo a ele, e fiquei apavorado quando não atendeu ao celular. Não me perdoaria se alguma coisa ruim tivesse acontecido.”

“Fui tudo muito rápido! Contei e ele simplesmente enlouqueceu, partiu pra cima de mim como um selvagem. Tive que detê-lo acertando a garrafa de vinho em sua cabeça. Assim que consegui levantar corri pra cá.”

“Ah! Então por isso havia sangue na sala. Pensei que fosse seu. Aquele desgraçado tentou atirar em mim, por sorte errou e quebrou aquela escultura ridícula que tem na sala. Mas não se preocupe, dei-lhe uma boa sova antes. Vai demorar a se recuperar. Vamos passar a noite aqui. Amanhã bem cedo saímos.”

Abraçaram-se e como por magia a dor e o medo que sentiam desapareceram. Naquele minúsculo quarto de hotel todas as tardes de quarta e noites de sexta se encontravam.

“Não posso esquecer de ligar para Ana e agradecer pela ajuda e amizade que ela vem nos dispensando durante todo esse tempo.”

“Certo! Amanhã. Hoje descansaremos.”—disse ele dando-lhe um beijo na testa.

O sol já ia alto quando acordou. Todo o burburinho da noite anterior havia desaparecido. Pensou em ligar para a recepção e pedir um café. Desistiu logo, aquilo era uma espelunca! Comeriam na estrada. Marcelo ainda dormia quando o beijou.

“Ter seus beijos como despertador é acordar no paraíso.”

Sorriram...

Enquanto ele se banhava, tentou ligar várias vezes para Ana. Foi inútil, parecia que as operadoras de telefonia estavam com algum problema. Foi quando decidiu escrever um bilhete contando tudo o que aconteceu, dando-lhe alguma satisfação pelo sumiço repentino. Não disse para onde ia, pois desconhecia o lugar onde Marcelo a levaria. Mas prometeu, assim que pudesse ligar avisando.

Deram adeus ao quarto que por tantas vezes os acolheu, e partiram com a certeza que o amor que sentiam um pelo outro era muito mais forte que o medo.

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Por volta das quinze horas Ana e dois investigadores entraram no quarto. O perfume feminino e o cheiro de sexo emanava do lugar onde os amantes tantas vezes estiveram. Ela os convenceu irem lá antes do enterro, podia ter alguma prova que incriminasse abertamente Augusto. Mesmo que desconfiasse de seus atos, ou melhor, por mais certeza que todos tivessem do que ele foi capaz, precisavam de provas. Encostou-se à pequena janela lembrando-se da amiga tão querida. A irmã que não teve.

“Ana? Não encontramos nada. Podemos ir.” — disse um dos investigadores, tocando seu ombro tirando-a do transe.

Sem resistir Ana tomou o rumo da porta, antes passou um ultimo olhar no cômodo e algo que se encontrava entre os livros chamou sua atenção. Um envelope... Como uma criança quando ganha um presente o desdobrou contendo-se para não rasga-lo.

Enquanto lia, lágrimas escorriam pelo seu rosto, os investigadores puderam notar o espanto em seu semblante. Entregou a carta a um deles.

Ali Laura contava como tudo aconteceu, não dava muito detalhes, mas ficou claro que Augusto a matou primeiro e provavelmente matou Marcelo assim que este chegou a sua casa.

“Como?... Quem escreveu isso?” —o policial não pode esconder a confusão mental em que se encontrava.

“Estão mortos! Que porra de brincadeira é essa!”

“A letra é dela. Não sei como ou quando, mas Laura escreveu isso.”

“Impossível!” —o homem jogou na cama com indignação o bilhete e sem olhar pra trás saiu.

Ana não disse nada. Limitou-se a pegar de volta o papel e guardar em sua bolsa. Pensou nos amigos que perdera com a certeza de que, seja lá onde estiverem, estavam bem, em paz e finalmente... Juntos.


terça-feira, 9 de agosto de 2011

Alento - Marjory Tolentino




Se a morte chegasse...
Eu a temeria.
Eu a desejaria.
Se ela chegasse teríamos uma longa noite de amor.
Onde o escuro se uniria as sombras,
Onde a dor se uniria ao prazer.

Se a morte chegasse...
Eu a amaria.
Eu a temeria.
Se ela chegasse fugiríamos juntos.
Como quem quer viver.
Como quem se amedronta fácil.
Como alguém que não quer morrer.

Se a morte chegasse...
Eu a temeria.
Eu a desejaria.
Faria dela minha companheira.
Minha amiga inseparável.
Se ela chegasse tudo acabaria
Dor, amor, desejo, sorte, azar...
E o desespero também acabaria

Se a morte chegasse...
Eu a amaria.
Eu a temeria.
Tocaríamos mutuamente uma a outra.
Mas, tenho medo!
Ela não quer vir até mim!

Se ela chegasse e me tocasse...

Ah! Tenho pena da morte!

Se ela chegasse e me tocasse...

Com certeza, também sucumbiria.

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