domingo, 25 de março de 2012

O perfume da Carne - Marjory Tolentino

             


Foi um dos muitos que cruzou seu caminho. E como todos os outros, ele teve o mesmo fim. Com certeza a cigana o quis mais, o amou mais que a qualquer um.Sua vida fora perfeita até a moça de longos cabelos negros aparecer.  “Maldita! Se não fosse ela...” O ciúme a invadiu mais uma vez.  “Lafayette! Era linda realmente. Não o admiro ter se encantado por ela.”Repentinamente o horror tomou-lhe o semblante. Seria possível alguém ter conhecimento dos seus atos?“Impossível! Ninguém sabe. Nem mesmo ele sabia.”Esta pergunta lhe perseguia há anos.Como se para dissipar seus pensamentos da culpa lembrou-se da mulher. Sentiu o ódio brotar em seus pés e subir chegando ao seu estômago. O vômito quis sair boca afora, como se fosse algo com vida própria. Mas com um gole áspero e seco obrigou-o a descer garganta abaixo, deixando assim, apenas um gosto amargo em sua boca. Era este o gosto da afronta que ele há fez passar. Por isso fez o que fez. Sabia que era assim. Já não era o primeiro. Eles chegavam e após um tempo queriam ir embora. Mas isso não acontecia com ela. Nunca deu uma segunda chance a ninguém. Não estava disposta a passar por tola.
Uma mulher aproximou-se da banca, mais triste que antipática. Levava na face uma carranca de sofrimento tão viva que passava aos transeuntes sentimentos de pena e angústia profunda. A jovem cigana que parecia ter os olhos tão sofridos quanto os dela, vendia de um tudo. Roupas, sapatos, pentes e joias, se espalhavam pela mesa da banca.
Unhas postiças que pareciam reais e cabelos que podiam ter algum dia pertencido a mulheres que foram belas de alguma forma dividiam espaço com sabonetes tão perfumados quanto campos de jasmim e lavanda floridos.  Nada se compara a eles, sabonetes que ela mesma fazia. Ela os fabricava apenas de tempos em tempos, são tão perfeitos em sua utilidade e perfume que todos ansiavam por eles.
A mulher olhou com as mãos as várias peças de roupas. Um terno preto e um vestido verde-oliva foram estrategicamente colocados lado a lado. Eles balançavam com o vento, como se tomassem vida, dançando num vai e vem suave de uma música muda e sombria.
Demorou-se um pouco observando o vestido antes de perguntar o preço.
― Uma moeda de ouro, senhora. ― respondeu a cigana com seu sotaque húngaro.
― Uma moeda de ouro! ― repetiu a mulher indignada com o preço que a cigana dava a uma peça de roupa usada. ― Está usado!
― Porém posso lhe garantir que a dona o usou apenas uma vez. Está como novo. ― a cigana olhou para o vestido e soltou o sorriso torto que ele gostava tanto. Podia ouvir os gritos mudos da vagabunda, podia ver as lágrimas rolarem pela face do miserável antes de sucumbir.
Muitos diziam que era uma bruxa, mas não se importava. Deixou de temer as pessoas quando descobriu que eram elas que deveriam temê-la. E ninguém sabia realmente quem era. Sabiam que aparecia pela região às vezes. Nunca souberam de onde vinha ou para onde ia quando a feira acabava. 
A mulher fez cara de pouco gosto e dirigiu a atenção para longos fios de cabelos tão dourados quanto os seus. Estes que segurava em suas mãos, apesar de não pertencerem mais a cabeça alguma, tinham mais viço que os seus. Acariciou-os com carinho e tristeza trazendo com este gesto a imagem viva aos seus olhos de momentos em que um dia a felicidade reinou em seu coração.
― Qual é o seu nome senhora? ― perguntou a cigana seguindo a mulher com o olhar enquanto esta caminhava de um a outro lado da banca, sempre tateando os objetos que desejava.
― Dolores. É verdade que vocês ciganos não tem moradia? ― perguntou, puxando assunto.
― Moro no mundo senhora. Minha casa é a carroça. Do lugar onde estou faço minha nação.
Olhando para Dolores sentiu por ela algo que se limitava não sentir por quase ninguém; Apreço.
― Quer que leia sua mão? ― perguntou sem tirar os olhos dos seus.
― Não tenho dinheiro.
― Não se preocupe, não vejo as linhas por dinheiro.
Com receio a mulher fez um gesto de aceitação com a cabeça e lhe entregou uma das mãos. No momento em que viu as linhas da mulher seu coração sobressaltou. Nelas leu seu próprio passado recente. Seu destino cruzava o de Dolores e o dela o do homem que amou. Seus olhos faiscaram, apertou-os para tentar mudar a visão que lhe saltava a frente.
A mulher percebendo a inquietação da cigana afastou-se.
― Não há nada na vida de uma viúva, mãe de dois órfãos de colo, que a vila inteira não saiba. —sorriu.
― Não quer saber do futuro senhora? ― perguntou à cigana temendo a resposta ser afirmativa.
― Todas as minhas graças e desgraças vieram a mim sem que eu soubesse e é assim que tem que ser. O futuro a Deus pertence. A Ele entreguei meus pesares. —sorriu para a cigana, voltando sua atenção aos produtos tentou esconder o constrangimento criado.  
― São famosos! ― pegou alguns sabonetes em suas mãos e os cheirou profundamente. Sentiu um arrepio em sua nuca neste instante e de alguma forma que não soube explicar a fragrância lembrou alguém que conheceu. Embrulhados em tecido, e guardados em pequenas caixinhas feitas através da trança do sisal, os sabonetes estavam expostos lado a lado, em pares. O perfume que exalavam era suave e mudava de um para outro. Cada um deles tinha um perfume único. Porém todos tinham o mesmo tom rosáceo e a mesma suavidade. Afirmavam que eles podiam mudar o humor de quem os usasse. Seu aroma muito peculiar arremetia há sentimentos selvagens e intensos, ora depressivos, ora libidinosos e lascivos. Eram muitos os boatos em torno deles. Como em torno de tudo que a cigana fazia diziam que ela conjurava os sabonetes para encantar quem os usava. Fazendo com que fossem mais e mais procurados e desejados.
― Quanto custa? ― perguntou Dolores.
― Têm o valor que achar justo. Valem aquilo que puder dar.
Para a cigana os sabonetes não tinham valor algum, para ela. Eles apenas existiam e queria se livrar deles o mais rápido possível. Assim os vendia a troco de qualquer coisa que o comprador estava disposto a dar: um pente, um bracelete, um brinco, um espelho...
Colocando a mão na bolsa, a mulher ao retirá-la, trouxe junto um lenço que caiu sobre a banca. Nele se via o nome “Lafayette” bordado em vermelho vivo.
A cigana ao por os olhos em tal nome sentiu as pernas falharem. Tentando controlar o nervosismo, mais que depressa pegou o lenço caído e segurando em suas mãos, o analisou. A mulher no entanto puxou-o de suas mãos com rapidez e brutalidade.
― Desculpe. Isto é a única lembrança que me restou deles. Para mim tem um valor sentimental muito grande. ― Dolores guardou apressadamente o pedaço de pano.
― Tudo bem. Espero que para mim tenha algo tão bonito quanto ele. ― procurando conter sua ansiedade fingiu manter sua atenção na barganha que sairia da bolsa.
― Lafayette? Nome bonito.
― Sim, muito bonito. ― respondeu a mulher com ar saudosista, deixando o olhar se perder entre as tramas do sisal.
― Ele era meu marido. Não creio estar vivo. Se o estivesse já teria voltado, se não por mim pela irmã, ele amava a irmã. Os vizinhos dizem que ele se engraçou com alguma mulher e fugiu, que para um homem de bem virar assim a cabeça só mesmo uma mulher de paixão fácil.
A cigana sentiu a ânsia voltar à boca e como antes a conteve.  Lembrou-se dos corpos sendo consumidos pelo fogo. Ele tinha uma família e nunca contara a ela?
― Nunca mais soube dele?
― Não. Há alguns meses a irmã dele saiu a procurá-lo. Eu mesma não fui junto por causa das crianças. Com certeza não o encontrou e se perdeu pelo mundo. Era uma boa moça, bonita, de longos cabelos loiros. ― a mulher tornou olhar para os longos cabelos cor de trigo, esvoaçantes ao vento presos à banca.
O coração da cigana pulsava desenfreado dentro do peito. Teria cometido um engano? Disse algo sobre a moça ser sua irmã, mas não acreditou, não quis ouvir, julgou ser mentira!
― Jamais teria ido embora se não fosse por uma razão forte. Penso ser mesmo alguma mulher por quem se apaixonou. Não entendo os motivos que o levou a ir. Gostaria de estar com ele e dizer-lhe tanta coisa... Uma única vez, a última. ― pareceu desligar-se de suas memórias neste instante.
― Bem, tenho este broche. Serve?
A cigana olhou o broche em forma de folha que a mulher lhe estendia. Era bonito, mas não era valioso. Porem queria livrar-se da Dolores e de todas as suas lembranças e também dos seus próprios enganos.
― Tome. ― disse colocando alguns sabonetes a mais na sacola da mulher.
― Pelo broche pode levar mais alguns.
Dolores com um sorriso tímido virou-se e se foi com seu andar vazio.
Enquanto desarmava a barraca e organizava as coisas para partir, a cigana sentiu pena da pobre mulher.                                                    
                                                        ***
Hoje ao banhar-se, Dolores não sabia, mas era o mais perto que poderia vir a estar do marido novamente.



terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Olhos de cao - Marjory Tolentino




Procuro encontrar algo que me liberte desse ódio que existe aqui dentro, mas não consigo. Talvez por isso deixei que me dominasse, talvez por não saber enfrenta-lo ou apenas por não entender o que aconteceu de verdade. Talvez... Esteja louco realmente e somente me reste a loucura como marco de direção mais confiável... Sempre encontrei em uma pessoa que não gosta de animais um ser humano maléfico. Mas e se é o animal que não gosta dela então é pior ainda, isto demonstra que ela é um ser desprezível. Este ponto de vista viria a mudar após os acontecimentos dos quais fui protagonista.
 Já disse que a loucura não me é estranha, pelo contrario, é minha fiel companheira desde aquela noite. Vou deixar escrito o que vi e se alguém duvidar posso somente esboçar um ‘sinto muito’ irônico. Meu ceticismo veio abaixo depois do que vi e se o que eu vi não for o mal, então concluo que este não existe.
Tinha os olhos mais lindos que já vi, de cor castanha esverdeada, possuía um contorno negro nas pálpebras, como as mulheres costumam fazer com a maquiagem. Tal efeito contrastava maravilhosamente com sua abundante pelagem dourada e larga. Eram olhos extremamente convidativos ao carinho. Não o escolhi, ‘ele’ me escolheu. Tinha outro nos braços quando se chegou a mim cheirando e lambendo minhas botas. Calmo e tranquilamente sentou-se e limitou-se a me olhar... Não resisti...
Eu até gosto de gatos, eles é que não gostam de mim, tentei varias e varias vezes tornar um deles meu amigo, mas sempre fugiam sem nunca mais voltar. Então desde pequeno me apeguei aos cães. Eles sempre se mostravam mais amigos, dependentes e de uma fidelidade incondicional. Não me lembro de um único período da minha vida no qual passei sem ter um deles ao meu lado.
Nossos primeiros meses foram sem mais novidades, como qualquer inicio deve ser, ele de posse dos seus cinco meses, na fase de destruir qualquer coisa que lhe viesse à frente e eu de arrumar os estragos e educá-lo. Nunca usei de violência para com um animal. Conforme o tempo passava, ele se tornava maior, mais esperto e muito mais... Independente. Nunca vi um cão tão dono de si mesmo como aquele. Mal parecia um cão, era um cão com alma de gato: Livre!
Um pouco antes de tudo começar ele teve uma febre muito forte, passei duas noites cuidando daquele que julguei ser meu fiel amigo.
Quando a febre se foi deixou-lhe sua marca, um espasmo, como se estivesse em constante soluço, como se um soco o obrigasse a abalar a cabeça para cima e para baixo, um “tique” creio eu, como nas pessoas acometidas pela síndrome Gilles de Tourete.
Foi então que sem mais nem menos ele deixou de me obedecer, como se não adiantasse gritar, pedir ou até mesmo bater, fiz de tudo. Levei-o em centros de adestramento, mas com pouco mais de duas ou três sessões ele era notoriamente expulso. Mesmo assim não me abandonava nunca, se o deixava preso em casa ele era capaz de destruir a mais poderosa das guias, pular o muro e me encontrar onde quer que esteja. Certa vez me achou estando há dois dias, na fazenda de um amigo há mais de vinte quilômetros da minha casa.
Se alguém se aproximava de mim e ele estivesse por perto nada o impediria de morder a alma infeliz. Passei a entender que as coisas não iam bem, quando passou, não contente em morder os meus, mas também a machucar os passantes da rua.  Um dos fatos e pra mim o pior deles foi quando atacou uma menininha de pouco mais de cinco anos que brincava com seu gatinho na praça que fica perto de casa. A pobrezinha depois de duas cirurgias e uma estadia de três meses no hospital ficou bem, graças a Deus, estava viva, já o gato não teve a mesma sorte. Este caso me obrigou a trancafia-lo dentro de uma jaula.
Ali ele passava dias e noites sem dar um gemido sequer. Nada. Não reclamava, não se debatia... Nada! Algo em seus olhos mudou, não a cor, mas a intenção deles, olhos que antes eram brilhantes e carinhosos agora estavam opacos e com uma expressão demoníaca. Um animal lindo, que se encontrava num estado tão deplorável que dado a tudo que ocorrera não podia deixa-lo solto e também não me conformava em vê-lo preso e definhando a cada dia. Um amigo meu se apiedando dele sugeriu a ideia de leva-lo a adoção... Ah! Grande engano o meu... Em menos de uma semana estava adotado, bonito como era e como se soubesse o que acontecia, se mostrou muito simpático aos novos donos. Voltei para casa com a consciência tranquila, ele estaria bem e assim poderia ate mesmo ter uma melhora em seu comportamento indócil.
Qual não foi a minha surpresa, alguns dias depois ele aparece de volta, ofegante e com o focinho, pescoço e patas lavados em sangue. Liguei com urgência na casa do jovem casal que o adotara, desesperado, temendo o pior perguntei o que aconteceu. O jovem se mostrou muito nervoso quando citei o animal e me contou angustiado que ele matara todos os seus outros animais e ainda o mordera, quase lhe arrancando a mão do pulso, quando tentou impedi-lo.
Sem saber o que fazer trancafiei a fera outra vez na cela de onde jamais devia ter permitido que saísse.
Por alguns dias perdi o sono com uma questão que me atormentava, e numa noite, não me recordo qual exatamente tornei-me simpático a ela. Já há tempos vinha amaciando e sovando uma ideia, como se amacia e sova a massa panifica, e quanto mais se sova tal massa mais ela cresce e toma forma, assim fiz com a ideia macabra. Devido a uma infestação de ratos que teve em minha casa me vi obrigado a ir ao velho boticário e adquirir um poderoso veneno. Era tão medonho o poder do liquido mortífero que com algumas gotas exterminei todos os ratos, sobrando mais de um quarto do veneno no frasco. Acompanhado de uma saborosa fatia de carne embebida em tal fármaco, me pus diante daquele que um dia foi meu amigo e lhe ofereci o alimento que o levaria ao Hades.
Claro, acredito que àquela época ainda lhe restava um pouco do instinto dos Canis lupus familiaris, pois comeu com gulodice seu fim. Não quis ficar para ver o animal dar seu ultimo suspiro, não queria ter em minha mente uma visão que julgava horrível. Sai. E horas depois quando voltei, ele estava encolhido, da boca saia uma substancia branca espumosa, havia evacuado todo seu sangue antes de morrer por todo o chão da jaula havia poças vermelhas. Seus olhos negaram-se a descansar, coisa que eu mesmo os obriguei antes de enterra-lo perto da fazendinha, onde as crianças da vila brincavam, logo atrás da serra. Ali ninguém passava, a não ser o gado.
E tive sim, por certo tempo, paz. Tudo caminhava como o esperado. Posso dizer que ate mesmo o ar se encontrava mais leve. O inverno já se aproximava e naquela noite ventava mais que o habitual. De súbito achei que fosse o vento, depois quando os uivos tornaram-se mais intensos pensei ser o cachorro de algum vizinho ou mesmo um lobo que se perdera da matilha, mas quando as patas começaram a arranhar a porta ficou evidente que era a mim mesmo que queriam chamar a atenção. Em momento algum pensei no que a realidade me mostrou ser a origem do barulho. Minhas pernas cambalearam, meu peito parecia que explodiria por não suportar a violência com a qual meu coração teimava em bater, queria tomar vida sair de mim.
Não sou capaz de descrever o estado em que ele se encontrava, mas pude ver os olhos e na penumbra da noite fui capaz de decifrar mesmo sem acreditar de quem eram. Olhando para mim com total ternura fitei pela fresta da janela, os próprios olhos do demônio. Na rapidez dos que não pensam fechei a porta e corri ate a caixa onde guardava um revolver que fora do meu pai, não sabia sequer se funcionava, mas arrisquei... Tremulo e amedrontado caminhei de encontro a ele. Ao abrir a porta o que entrou em casa era um ser disforme, de aparência apodrecida e nauseante. Dois tiros foram suficientes para derruba-lo e o cutelo terminou o serviço. Cortei-o ao meio e colocando em sacos à parte o enterrei novamente, dispondo de lugares distintos para cada uma delas. Vejo, hoje, que já me encontrava perturbado!
Em casa banhei-me e me desfiz de qualquer lembrança daquele cão atormentado. Mas o meu sossego deu-se ate a noite cair novamente. Outra vez pude ouvir os agoniantes uivos que eclodiam do quintal. Até hoje não sei se o que eu temia era o demônio ou o fato de acreditar estar louco. Mas buscando a coragem em um lugar muito intimo fui à varanda, o que vi me deixou muito mais mortificado que a noite passada, apenas metade do cão se arrastava em direção à casa, descarreguei o revolver nela, mas só serviu para piorar a sua aparência já em estado muito avançado de decomposição. De repente aquilo parou e pensem qual fora o meu desespero quando vi a outra metade indo de encontro com a primeira. Como algo em sonho, (penso estar neste pesadelo ate hoje) as duas juntaram-se novamente e o cão tornou-se inteiro.
Não lembro muito bem o que aconteceu depois. Acordei aqui, na ala psiquiátrica desde hospital que nem sei exatamente onde fica. Não me lembro de ter um desses na região onde moro. Não estou apavorado e nem me recuso a ficar aqui, acredito que seja o único lugar onde esteja seguro. Às vezes quando a noite vem, quando tudo se aquieta, escuto os uivos, e se olho pela minúscula janela da jaula onde me encontro, posso ver os olhos do demônio...



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Grito! - Marjory Tolentino




Arranca de mim esta dor insuportável. Arranca com as mãos, com os olhos...
Tira ela de mim como se tira algo que se deseja do peito. Faz-me sentir suas digitais por dentro...
Arranca tudo que for meu: minhas vísceras, meus olhos, meu cérebro. Arranca com a boca, com a alma...
Tira de mim tudo que for seu: meu eu, minha essência. Arranca com a língua, com os dentes...
Arranca-me de mim. Joga-me dentro de si. Liberta-me de mim. Cura-me...

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