terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Olhos de cao - Marjory Tolentino




Procuro encontrar algo que me liberte desse ódio que existe aqui dentro, mas não consigo. Talvez por isso deixei que me dominasse, talvez por não saber enfrenta-lo ou apenas por não entender o que aconteceu de verdade. Talvez... Esteja louco realmente e somente me reste a loucura como marco de direção mais confiável... Sempre encontrei em uma pessoa que não gosta de animais um ser humano maléfico. Mas e se é o animal que não gosta dela então é pior ainda, isto demonstra que ela é um ser desprezível. Este ponto de vista viria a mudar após os acontecimentos dos quais fui protagonista.
 Já disse que a loucura não me é estranha, pelo contrario, é minha fiel companheira desde aquela noite. Vou deixar escrito o que vi e se alguém duvidar posso somente esboçar um ‘sinto muito’ irônico. Meu ceticismo veio abaixo depois do que vi e se o que eu vi não for o mal, então concluo que este não existe.
Tinha os olhos mais lindos que já vi, de cor castanha esverdeada, possuía um contorno negro nas pálpebras, como as mulheres costumam fazer com a maquiagem. Tal efeito contrastava maravilhosamente com sua abundante pelagem dourada e larga. Eram olhos extremamente convidativos ao carinho. Não o escolhi, ‘ele’ me escolheu. Tinha outro nos braços quando se chegou a mim cheirando e lambendo minhas botas. Calmo e tranquilamente sentou-se e limitou-se a me olhar... Não resisti...
Eu até gosto de gatos, eles é que não gostam de mim, tentei varias e varias vezes tornar um deles meu amigo, mas sempre fugiam sem nunca mais voltar. Então desde pequeno me apeguei aos cães. Eles sempre se mostravam mais amigos, dependentes e de uma fidelidade incondicional. Não me lembro de um único período da minha vida no qual passei sem ter um deles ao meu lado.
Nossos primeiros meses foram sem mais novidades, como qualquer inicio deve ser, ele de posse dos seus cinco meses, na fase de destruir qualquer coisa que lhe viesse à frente e eu de arrumar os estragos e educá-lo. Nunca usei de violência para com um animal. Conforme o tempo passava, ele se tornava maior, mais esperto e muito mais... Independente. Nunca vi um cão tão dono de si mesmo como aquele. Mal parecia um cão, era um cão com alma de gato: Livre!
Um pouco antes de tudo começar ele teve uma febre muito forte, passei duas noites cuidando daquele que julguei ser meu fiel amigo.
Quando a febre se foi deixou-lhe sua marca, um espasmo, como se estivesse em constante soluço, como se um soco o obrigasse a abalar a cabeça para cima e para baixo, um “tique” creio eu, como nas pessoas acometidas pela síndrome Gilles de Tourete.
Foi então que sem mais nem menos ele deixou de me obedecer, como se não adiantasse gritar, pedir ou até mesmo bater, fiz de tudo. Levei-o em centros de adestramento, mas com pouco mais de duas ou três sessões ele era notoriamente expulso. Mesmo assim não me abandonava nunca, se o deixava preso em casa ele era capaz de destruir a mais poderosa das guias, pular o muro e me encontrar onde quer que esteja. Certa vez me achou estando há dois dias, na fazenda de um amigo há mais de vinte quilômetros da minha casa.
Se alguém se aproximava de mim e ele estivesse por perto nada o impediria de morder a alma infeliz. Passei a entender que as coisas não iam bem, quando passou, não contente em morder os meus, mas também a machucar os passantes da rua.  Um dos fatos e pra mim o pior deles foi quando atacou uma menininha de pouco mais de cinco anos que brincava com seu gatinho na praça que fica perto de casa. A pobrezinha depois de duas cirurgias e uma estadia de três meses no hospital ficou bem, graças a Deus, estava viva, já o gato não teve a mesma sorte. Este caso me obrigou a trancafia-lo dentro de uma jaula.
Ali ele passava dias e noites sem dar um gemido sequer. Nada. Não reclamava, não se debatia... Nada! Algo em seus olhos mudou, não a cor, mas a intenção deles, olhos que antes eram brilhantes e carinhosos agora estavam opacos e com uma expressão demoníaca. Um animal lindo, que se encontrava num estado tão deplorável que dado a tudo que ocorrera não podia deixa-lo solto e também não me conformava em vê-lo preso e definhando a cada dia. Um amigo meu se apiedando dele sugeriu a ideia de leva-lo a adoção... Ah! Grande engano o meu... Em menos de uma semana estava adotado, bonito como era e como se soubesse o que acontecia, se mostrou muito simpático aos novos donos. Voltei para casa com a consciência tranquila, ele estaria bem e assim poderia ate mesmo ter uma melhora em seu comportamento indócil.
Qual não foi a minha surpresa, alguns dias depois ele aparece de volta, ofegante e com o focinho, pescoço e patas lavados em sangue. Liguei com urgência na casa do jovem casal que o adotara, desesperado, temendo o pior perguntei o que aconteceu. O jovem se mostrou muito nervoso quando citei o animal e me contou angustiado que ele matara todos os seus outros animais e ainda o mordera, quase lhe arrancando a mão do pulso, quando tentou impedi-lo.
Sem saber o que fazer trancafiei a fera outra vez na cela de onde jamais devia ter permitido que saísse.
Por alguns dias perdi o sono com uma questão que me atormentava, e numa noite, não me recordo qual exatamente tornei-me simpático a ela. Já há tempos vinha amaciando e sovando uma ideia, como se amacia e sova a massa panifica, e quanto mais se sova tal massa mais ela cresce e toma forma, assim fiz com a ideia macabra. Devido a uma infestação de ratos que teve em minha casa me vi obrigado a ir ao velho boticário e adquirir um poderoso veneno. Era tão medonho o poder do liquido mortífero que com algumas gotas exterminei todos os ratos, sobrando mais de um quarto do veneno no frasco. Acompanhado de uma saborosa fatia de carne embebida em tal fármaco, me pus diante daquele que um dia foi meu amigo e lhe ofereci o alimento que o levaria ao Hades.
Claro, acredito que àquela época ainda lhe restava um pouco do instinto dos Canis lupus familiaris, pois comeu com gulodice seu fim. Não quis ficar para ver o animal dar seu ultimo suspiro, não queria ter em minha mente uma visão que julgava horrível. Sai. E horas depois quando voltei, ele estava encolhido, da boca saia uma substancia branca espumosa, havia evacuado todo seu sangue antes de morrer por todo o chão da jaula havia poças vermelhas. Seus olhos negaram-se a descansar, coisa que eu mesmo os obriguei antes de enterra-lo perto da fazendinha, onde as crianças da vila brincavam, logo atrás da serra. Ali ninguém passava, a não ser o gado.
E tive sim, por certo tempo, paz. Tudo caminhava como o esperado. Posso dizer que ate mesmo o ar se encontrava mais leve. O inverno já se aproximava e naquela noite ventava mais que o habitual. De súbito achei que fosse o vento, depois quando os uivos tornaram-se mais intensos pensei ser o cachorro de algum vizinho ou mesmo um lobo que se perdera da matilha, mas quando as patas começaram a arranhar a porta ficou evidente que era a mim mesmo que queriam chamar a atenção. Em momento algum pensei no que a realidade me mostrou ser a origem do barulho. Minhas pernas cambalearam, meu peito parecia que explodiria por não suportar a violência com a qual meu coração teimava em bater, queria tomar vida sair de mim.
Não sou capaz de descrever o estado em que ele se encontrava, mas pude ver os olhos e na penumbra da noite fui capaz de decifrar mesmo sem acreditar de quem eram. Olhando para mim com total ternura fitei pela fresta da janela, os próprios olhos do demônio. Na rapidez dos que não pensam fechei a porta e corri ate a caixa onde guardava um revolver que fora do meu pai, não sabia sequer se funcionava, mas arrisquei... Tremulo e amedrontado caminhei de encontro a ele. Ao abrir a porta o que entrou em casa era um ser disforme, de aparência apodrecida e nauseante. Dois tiros foram suficientes para derruba-lo e o cutelo terminou o serviço. Cortei-o ao meio e colocando em sacos à parte o enterrei novamente, dispondo de lugares distintos para cada uma delas. Vejo, hoje, que já me encontrava perturbado!
Em casa banhei-me e me desfiz de qualquer lembrança daquele cão atormentado. Mas o meu sossego deu-se ate a noite cair novamente. Outra vez pude ouvir os agoniantes uivos que eclodiam do quintal. Até hoje não sei se o que eu temia era o demônio ou o fato de acreditar estar louco. Mas buscando a coragem em um lugar muito intimo fui à varanda, o que vi me deixou muito mais mortificado que a noite passada, apenas metade do cão se arrastava em direção à casa, descarreguei o revolver nela, mas só serviu para piorar a sua aparência já em estado muito avançado de decomposição. De repente aquilo parou e pensem qual fora o meu desespero quando vi a outra metade indo de encontro com a primeira. Como algo em sonho, (penso estar neste pesadelo ate hoje) as duas juntaram-se novamente e o cão tornou-se inteiro.
Não lembro muito bem o que aconteceu depois. Acordei aqui, na ala psiquiátrica desde hospital que nem sei exatamente onde fica. Não me lembro de ter um desses na região onde moro. Não estou apavorado e nem me recuso a ficar aqui, acredito que seja o único lugar onde esteja seguro. Às vezes quando a noite vem, quando tudo se aquieta, escuto os uivos, e se olho pela minúscula janela da jaula onde me encontro, posso ver os olhos do demônio...



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Grito! - Marjory Tolentino




Arranca de mim esta dor insuportável. Arranca com as mãos, com os olhos...
Tira ela de mim como se tira algo que se deseja do peito. Faz-me sentir suas digitais por dentro...
Arranca tudo que for meu: minhas vísceras, meus olhos, meu cérebro. Arranca com a boca, com a alma...
Tira de mim tudo que for seu: meu eu, minha essência. Arranca com a língua, com os dentes...
Arranca-me de mim. Joga-me dentro de si. Liberta-me de mim. Cura-me...

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