sábado, 9 de março de 2013

A melhor defesa - Marjory Tolentino



















Tentou encontrar algum sentido em tudo aquilo, mas não conseguiu. Não doía somente o rosto e o corpo maltratado pela violência que foi submetida. A dor passaria, mas logo seu algoz estaria de volta. Teria tempo de sair e pedir ajuda, teria tempo de esconder-se? Não, definitivamente isso não funcionava. Já o fizera antes e ele sempre se saía bem.  Essa atitude só faria piorar as coisas, só aumentaria a raiva na qual ele adora se afundar, assim julgava ter motivos para bater e bater, mais e mais.
Com esforço levantou-se do chão e foi ao banheiro lavar-se. Estava um horror!  Tinha um corte acima do olho esquerdo, quase na fronte. Os cabelos loiros e longos se desprendiam com facilidade por terem sido puxados seguidamente com tanta força. Era claro porem, que muito mais que seus hematomas e ferimentos o que lhe doía era sua alma que por muitas vezes pensou haver perdido.
Não amava mais. Não sentia nada mais além da dor e do medo. Medo de ir embora e ele por fim em sua vida como tantas vezes lhe jurou enquanto faziam amor, deixando claro que se fugisse morreria. Com certeza não a deixaria permanecer viva!
Não via outra escolha a não ser suportar seu destino.
Depois do banho, voltou à sala para limpar o próprio sangue que manchara o chão. Ele não gostaria nada de ver, ao chegar, que a casa estava suja e bagunçada por conta da surra que lhe dera. Enquanto limpava, lembrou-se da sua adolescência, de quando se apaixonou pelo homem que hoje fazia com que sofresse tanto.
Um carro parou em frente a casa. Estremeceu. Será? Já?
Precisava de ajuda. O medo. Os vizinhos!  A polícia! Alguém! Mesmo impedida de gritar devem ter visto ou escutado alguma coisa. Por alguns segundos esperou. Não era o socorro. Ninguém a ajudaria, ninguém a tinha ouvido. O carro permanecia em frente ao portão. Isso era um problema, se voltasse agora teria que explicar que não havia ninguém em casa e com certeza não acreditaria.
Foi um homem gentil. Tentou lembrar quando foi que ela o havia perdido, quando ele havia se tornado o monstro que era.
Viveram felizes por dois anos. Era muito jovem e cheia de sonhos, queria ser arquiteta como seu pai, mas seu amor pelo homem foi mais forte. Tudo o que ele dizia ela fazia lei. Teve alertas de sua mãe, ela tentou mostrar onde errava, mas não deu ouvido. Ele era tão bom e amável... De alguma forma a fazia sentir-se culpada por nunca poder servir a janta no horário, por ele nunca ter roupas bem passadas, pela casa sempre estar desorganizada, devido o adiantado da hora que chegava da faculdade.
Acabou por ceder a seus pedidos quando surgiu a gravidez. Era um menino. Já sabiam o sexo! No oitavo mês ele a surrou. Chutou tanto a barriga... Teria ido para o pronto socorro, tentado salvar a criança, mas ele a trancou no banheiro.
Quase morreu junto com o bebê, e lamentou muito isso não ter ocorrido.
Merda! – pensou.
O carro não saia dali. Não suportaria mais uma sessão de murros hoje. Morreria se isso acontecesse.
Quem sabe seria melhor, assim ele a mataria e acabaria com o tormento de uma vez por todas.
Foi ao quarto. Abriu o guarda roupa, colocou um vestido, presente de sua mãe, nunca o usaram, Seus pais haviam morrido em um acidente de carro há pouco tempo. Passando a mão pelo tecido leve sentiu uma leve saliência. Um saquinho costurado com maestria no avesso do vestido abrigava um papel e um pacotinho azul. Com cuidado desdobrou o pequeno bilhete.
 “Querida Sofia
                 Serei breve: Use com sabedoria o presente que lhe dou. Ele libertará você de todas as suas amarras. Que Deus a proteja. “Te amo.”
                                                   Mamãe
No pacotinho azul um pozinho branco recheava seu interior. Alguns transeuntes passavam na calçada fazendo burburinho de conversa. Os pelos de seu pescoço arrepiaram.
Tinha que parar de se assustar à toa. Agarrou-se ao saquinho como se este fosse sair correndo.
Na cozinha a geladeira abrigava apenas água. O coração deu um salto no peito. Barulho na rua outra vez! Estava demorando. Ele logo chegaria.
Correu para o quarto e em uma sacola de plástico colocou umas poucas mudas de roupa.
Tinha que se apressar. Desceu as escadas aos pulos e pegando a bolsa deu uma última olhada para a casa.
Quando virou a esquina a dois quarteirões pode ver um homem entrando em sua casa. Limitou-se a apressar o passo.
O sol da manha brilhava forte quando entrou em outro estado. Dois dias se passaram desde que fugiu e nem sinal dele. O ônibus parou e o Motorista alertou que os passageiros tinham quinze minutos para suas necessidades.
Tinha fome. Comprou um pão com manteiga, um pacote de biscoitos e tomou um café.
Na saída, também pegou um jornal. Em letras miúdas apenas uma nota trágica entre tantas outras das páginas policiais lhe chamou a atenção.
Homem é encontrado pelos vizinhos morto em sua casa após sofrer uma parada cardíaca.
Ele era de sua cidade. Mas ignorou seu nome. Tirou um saquinho azul, vazio de seu bolso, e o jogou no lixo junto com o jornal.

Era melhor apressar-se ou o ônibus partiria sem ela.










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