segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Sombrios - Capítulo II - Marjory Tolentino

                                           

Sombrios


Marjory Tolentino




Capítulo II





"A morte é terrível, porém mais terrível ainda seria ter a consciência de viver eternamente e de nunca poder morrer."
Anton Pavlovich Tchekhov
Russia, 1860 / 1904 — Escritor; Novelista; Dramaturgo .






O vento nesta noite escura traz com ele algo além do cheiro da chuva. Como se quisesse delatar que o caminhar do destino mudou seu curso. Posso sentir a Moira¹ Láquesis² tocar na linha da vida.
É impossível saber o momento exato, mas sei que será logo. Há muito não me sinto tão vivo! Ao meu redor, esta noite, tudo estranhamente, ganha vida: as gotas da chuva, os ratos no porão do hotel, as promessas ditas às escondidas pelos amantes em um dos quartos do terceiro andar...
Raya!”
Minha suave e doce Raya... Com seus cabelos dourados, seus olhos da cor do mel mais puro, e uma meiguice tamanha, que era capaz de derreter o coração mais duro. Sabia que não era minha “Tertius”. Mas foi a única mulher que amei em toda a vida. Sinto saudades... Seu amor por mim, sua humanidade me deram forças para entender que vale a pena continuar a viver. Morri por muitos dias depois que ela se foi. Até que o tempo se encarregou de fazer das lembranças um emaranhado de imagens sem nexo. Restando-me apenas fragmentos do que vivemos.
Ao fechar os olhos e dirigir meus pensamentos a ela, posso sentir seu perfume invadir a sala. Com um suspiro profundo, por alguns segundos tento em vão voltar ao passado. É difícil materializar na mente imagens tão envelhecidas, tão desgastadas pelo uso constante.
Já não tenho uma pátria, não pertenço a lugar nenhum. Escolhi a Irlanda, por me parecer o mais atraente e não me arrependo. Sentir os suaves ventos matutinos que a varrem no final da primavera acalma a minha alma. O frio em Moscou é intenso... E esta estadia de duas semanas aqui esta me cansando mais do que gostaria.
Sei que não é inteligente manter-se preso em um lugar por longos períodos. Isso significa arriscar expor o que se é. E se isso acontecer uma nova temporada de “caça as bruxas” estará decretada, e todos os outros estariam em risco. Por isso de tempos em tempos viajo a “passeio” ou a “negócios”. Assim, mascaro o real motivo de tais viagens. “Usar” no mesmo lugar por muito tempo pode ser perigoso, é atrair demais atenção. Claro que o aumento da violência, de certa forma, nos ajudou bastante. Desaparecimentos e assassinatos de fundo estranho e insolúveis acontecem periodicamente. Pode até parecer cruel, mas é deliciosamente oportuna para nós, a violência desmedida.
O tempo vem se mostrado um amigo e também um inimigo quando me vejo obrigado a por um “fim” em minha vida para me tornar filho ou neto de mim mesmo. E nesse caso, quando é essa a escolha, procuro países onde possa passar despercebido por um bom tempo: Grécia, Itália, Turquia... E se por um lado hoje em dia o avanço das ciências facilitou a arte de envelhecer, graças a maquiagens e programas de computador que são capazes de fazer milagres com um rosto tornando-me senil com tranquilidade. Por outro lado, fotos, bancos de dados de organizações com F.B.I e C.I.A, internet, documentos e a mídia, fazem com que eu tenha que ter cuidado redobrado com minha privacidade. Já morri de varias formas: velhice, suicídio, assassinato, desaparecimento, doenças... Tive várias profissões... Ou profissão nenhuma. Já fui pobre, rico. É reencarnar diversas vezes “consciente” de quem se é. Ter que forjar minha morte para novamente forjar meu ressurgir requer certa destreza e paciência. E principalmente não depender de ninguém para fazer o trabalho sujo é crucial.
Morei em vários lugares do mundo, vivi mais do que suportaria viver qualquer ser. Vi seres iguais a mim pedindo a morte, muitas vezes, como tantos outros, pensei em ir ao encontro dela, mas sempre alguma coisa me impedia de concluir meu fim.
Quando conheci Raya, pensei ter encontrado o motivo. Meu amor por ela foi imenso, a única em mais de mil anos de monstruosidade que amei. Já faz quatrocentos anos que ela morreu, e ainda hoje, depois de tanto tempo, a quero como se fosse o primeiro dia. Quando ela morreu, me senti apequenado demais, nem mesmo quando rompi minha alma me senti tão vazio, tão deliberadamente... Morto!
Talvez, por isso a ideia de ser ou não aniquilado um dia não me preocupe tanto. Viver ou morrer, hoje, já não tem diferença alguma.
A porta do quarto abriu fazendo minha atenção voltasse para o homem, que seguro de seus passos, entrou sem cerimônias.
Agostín Rivera possuía grandes olhos negros e cabelos castanhos extremamente lisos e compridos, que ele costumeiramente arrumava em um rabo de cavalo muito discreto. Lembrava os índios nativos do norte da Argentina. Por este motivo, demos a ele esse nome. Desconfiávamos de ser fruto do romance entre um padre jesuíta e uma índia. Encontramo-lo em mil setecentos e setenta, alguns anos após a expulsão das missões jesuítas da região pelos espanhóis. Aparentava ter entre trinta e trinta e cinco anos. Na época procuramos por pistas que nos mostrassem quem ele era, mas nada de substancial foi encontrado. A não ser boatos com parcos detalhes, de um padre que roubara uma índia e deste amor profano nasceu um menino que o pai criou sozinho como se fosse seu irmão. A índia morrera no parto.
Dono de uma jovialidade e alegria únicas, sempre fez com que o invejasse. Até perceber que em seu interior guardava um amargor que ele nunca deixava transparecer por completo. Foi encontrado perdido. Não se lembrava de nada à época. Nem mesmo daquele que o havia condenado a vagar pela terra com o peso das almas... Seu estado era deplorável, mas com o passar dos anos pareceu superar o trauma. Nunca soube onde ou com quem seu ‘Periapt’ descansava. Nunca se lembrou de nada.
Procurava viver da forma mais leve possível. Isso acabava tornando-o cínico, imagino que tenha sido esse o meio pelo qual conseguiu atenuar sua dor. Vivia a vida como se fosse morrer a qualquer momento, como se cada segundo vivido fosse o último. Admirava-o por conseguir viver assim!
Até Agostín surgir, passei um longo período sozinho. Mantive contato apenas com Paulupo. Este, além de Agostín, foi o único Sombrio com o qual me associei. Em Agostín encontrei mais que um amigo. Vi nele o irmão que perdi quando em sua loucura condenou-me a ser isso que sou! Há séculos coleciono secretários pessoais. Alguns sabiam o que sou... Outros nem imaginavam. Provavelmente conhecendo os homens como conheço, pelo preço certo, a maioria trabalharia para o próprio Diabo se ele existisse.  Definitivamente Agostín não era um deles. Nunca esteve preso a mim, escolheu ficar, mesmo depois de conhecer Wester. Passava grande parte do seu tempo disperso em seus romances. Homens, mulheres... Ambos... Mas há alguns anos o sueco, Wester Reirgärks, um Sombrio tão jovem quanto ele, era dono de seus caprichos. Wester morava conosco na Irlanda. Mas diferentemente de Agostín se mostrava mais retraído.
Não é justo culpar o Destino por sermos aquilo que escolhemos ser. Acostumei-me de tal forma a ser o que sou que matar já não provoca o mesmo terror que antes. Não é a melhor das sensações, mas depois de um tempo você se acostuma e o horror inicial acaba por se metamorfosear em prazer. Não posso negar que para alguns é mais fácil que para outros.
— Vai sair hoje? — perguntou Agostín esboçando desprezo pela chuva que caia do outro lado da janela.
— Talvez, ainda não decidi. — Olhei para a janela, acompanhando o olhar lânguido que ele lançara para o mundo que se expandia atrás dela. Não alimentava minha “Primus” há dias. Lembrei
— Comprou as passagens de volta? Precisamos partir assim que conseguir falar com Tabolt. Não quero me demorar mais por aqui.
 Crito Tabolt foi uma pessoa excepcional. Guardião dos meus segredos por quatrocentos anos. Sentiria saudades dele, mas não posso negar-lhe o direito de morrer. Cumpriria sua vontade. Sabia que Tabolt seria mais uma lacuna em minha existência... Uma a mais para tantas que vinha colecionando.
Quando vi Tabolt pela primeira vez seu estado era deplorável. Sua magreza e seu corpo cheio de doenças descreviam sua miserabilidade e pobreza. Se não o tivesse encontrado teria morrido em poucos dias.
— Sim, comprei hoje pela manhã. Por que se irrita tanto quando viaja? Fica inquieto, mesmo que seja apenas por alguns dias. Aproveite!
— Não gosto! Apenas isso. Incomoda-me mudar hábitos, mesmo que seja por poucos dias. E já faz duas semanas que estamos neste país frio e sem atrativo algum!
— Me explique: Qual a lógica em acumular dinheiro ao longo das décadas, desfrutar de uma saúde invejável a qualquer ser humano e viver assim... Como você? Aliás, você não vive! Há quantos dias sua “Primus” não vê alimento? Dois, dez, vinte? Já pensou em “Usar” mais vezes? Quem sabe assim seu mau humor niilista ativo digno de deixar Nietzsche com orgulho, acabe. Convidei algumas “distrações” para passarem a noite aqui. Posso dispor de uma ou duas se quiser. — sorriu.
— Você já imaginou que qualquer hora dessas vai se meter em problemas?
— Ah Keirran! Existem no mundo mais de sete bilhões de pessoas. Acredito que fazemos um bem enorme para todos em geral.
Virei-me debochando da sua afirmação, peguei o terno e caminhei em direção à porta.
— Ei? Aonde você vai? — perguntou. Não entendeu que não estava com vontade de ouvir suas ironias esta noite. Não esta noite!
— Seguir seu conselho. “Usar” alguém! — saí, deixando a porta bater um pouco mais enérgica que de costume.
Não sei para onde iria, mas sei que em uma coisa Agostín tem razão: Preciso alimentar minha “Primus”. Do contrário acabarei cedendo à loucura. Se fosse mais jovem já teria perdido a noção da realidade. Graças aos anos adquiri um autocontrole imenso.
A noite, hoje em especial, parece mais longa, mais vazia.
Um homem caminhou em minha direção. Com um aceno cumprimentou-me. Hesitei. — “Maldição!” — Ele passou por mim em sua caminhada sem mais preocupações, sem ter ciência que havia escapado ao horror.
Precisaria mais que “Usar” um pouco de alguém. Precisaria “Usar” esse alguém por inteiro. E estava muito à vista para fazê-lo.
Ela passou por mim desapercebidamente. Meneei a cabeça em uma afirmação apresentando um sorriso, com rapidez fitei seus olhos e agindo com sutileza a atrai para perto. A sorte parecia estar ao meu lado, mesmo que não exista lógica alguma nisso. Não poderia fazer ali, claro! Teria que escolher um lugar mais deserto, onde ninguém nos visse juntos.
Enquanto andava ela me seguia a poucos metros de distancia, induzida por minha vontade. Era bonita, cabelos ruivos, alta. Um rosto firme e sofrido escondia a sua verdadeira idade, era muito mais jovem do que aparentava. Seus olhos negros e grandes, neste momento já expressavam o medo que sentia. Estava consciente, mas se via impossibilitada de ter outra atitude a não ser obedecer ao meu desejo. Como o inseto escolhido pela vespa Ampulex compressa¹, sabendo do fim, é incapaz de atitude contrária.
 Quando entramos em uma ruela sem saída, virei-me para ela e tal qual um zumbi sem vontade própria se ofereceu a mim. O cheiro do sangue fomentou-me a angustia. Sei que só estarei satisfeito se a possuir por completo. Já faz muito tempo... Não somente a minha alma, mas também o meu corpo estão sedentos.
Era uma mulher de formas esguias e belas. Não sabia o quanto tiraria dela, não sei se minha necessidade a mataria ou não. É perigoso ficar muitos dias sem “Usar”, sei disso. Corre-se o risco de perder o controle e acabar por cometer devaneios. Mantê-los vivos até o fim nem sempre é fácil! E se a morte chegar antes de terminarmos? O que fazer com o corpo? No passado um corpo dilacerado aqui, ou outro ali não faria a menor diferença. Ninguém saberia, ninguém veria e provavelmente culpariam os demônios. Hoje não é mais assim. Não se pode mais contar com o isolamento das cidades, das pessoas. Uma morte dessas, no centro de Moscou antes mesmo que o sol nascesse seria manchete no mundo todo. E se existisse mais alguma, os mais entendidos teriam apenas que ligar os pontos para chegarem ao um denominador comum. Não nego que usar parte do "Lícor" de uma pessoa não é tão satisfatório quanto “devorá-la” por inteiro. E poucos se importam realmente se as almas estarão ou não livres depois. Porém, novos tempos pedem meios menos ortodoxos para o mesmo fim.
O sangue da mulher borbulhava dentro de si, a sua carne gritava para ser saboreada. O cheiro de seus hormônios me enlouquecia. Abracei-a afastando uma mecha de cabelo que lhe caia ao colo. Tinha seios fartos que acariciei com força!
Com a sutileza que cabe apenas aos predadores, extrai dela ao mesmo tempo em que a penetrava. Era forte, sua energia saia pelos poros sem muita dificuldade. Enquanto estive dentro dela, não pensei, só aproveitei cada segundo. Não se debateu, não reclamou. Pensava que morreria, e como imaginei não se importou com isso. É fácil ler os pensamentos de um animal tão simples...
Quando dei por acabado a noite já ia alta. Perdi-me em pensamentos e sentimentos íntimos, sem me dar conta da mulher que se estendia sob meu corpo.  Ainda lhe restara vida. Ínfima admito... Mas provavelmente se recuperaria. Ela se lembraria de tudo como um sonho despedaçado e desconexo. Aos poucos recuperaria o autocontrole.
Tentou gritar, mas de sua garganta a única coisa audível que saiu foi um gemido surdo.
Não saberia como chegara até ali, nem se lembraria do que aconteceu para que sentisse tamanha exaustão. Sentiria uma dor enorme por todo o corpo como se este fosse abrir-se ao meio. Aos poucos entendeu que estava deitada no chão úmido da rua. Esforçou-se para ficar em pé, mas foi em vão.
Sem força e muito fraca limitou-se a ficar quieta, deixando apenas que uma lágrima escorresse pelo rosto.


Duas mulheres e um jovem de traços bastante delicados faziam companhia para Agostín no sofá. Os quatro estavam em um verdadeiro frenesi. Enquanto as duas se acariciavam, Agostín se deliciava penetrando tranquilamente o jovem rapaz. Tentei passar despercebido aos quatro, mas falhei em meu intuito.
— Fico feliz em ser um bom conselheiro. — disse Agostín em tom irônico assim que me viu sem diminuir o ritmo.
Limitei fita-lo acidamente.
Sem acender a luz e em silencio dirigi-me ao banheiro.
— Seu amigo precisa de companhia? — uma das mulheres perguntou a ele.

A água do chuveiro caia quente em meu corpo e como um cobertor me confortava. Não me surpreendi quando a mulher entrou na ducha e sem cerimonias abraçou-me por trás.
— Posso aquecer você mais que esta água “morna”.
Pobre “animalzinho”... Desconhece o perigo. Nem mesmo sabia onde estava, nem quem era aquele que acarinhava.
Ainda ansiava em minhas entranhas por mais. Sempre mais! E aquela mulher era bonita e saudável o suficiente para dar a mim tudo de si. Abracei o corpo nu e quente, sua excitação era visível, fazer amor agora que estava com a “Primus” equilibrada seria mais satisfatório.
Quando acabamos sorriu exausta.
— Você é muito bom, estou esgotada. — sorriu satisfeita.
— Não fiz um terço do que quero. — gosto de ver como são simples, como nunca conseguem ver além dos próprios olhos.
— Hummm! Vejo que acabará comigo esta noite.
— Venha! Sente-se. — ordenei.
Obedeceu, e por não entender o real significado, minha ordem provocou nela uma gargalhada tímida. Parecia um passarinho, de tão delicada.  Seu sexo tinha um sabor adocicado e levemente acido. Contorcia-se de prazer enquanto tirava dela a essência vital sem que percebesse. E quando o fez era tarde demais! Tentou gritar, mas com uma das mãos quebrei seu maxilar, enquanto com a outra a abri. Sua carne macia era saborosa... Leve...

Será que alguém a esperava? Será que alguém sentiria falta dela?

A carne quente saciou-me ao mesmo tempo em que o sangue tingia rapidamente a água. Quando a abri ao meio, seu coração ainda batia. E antes de morrer pôde me ver transformar seu corpo em um emaranhado de músculos duros e contorcidos. Sua alma escapou-lhe rapidamente e rapidamente desapareceu. Estava livre! Não é uma morte satisfatória, além da dor a consciência de se estar morrendo é suficiente para fazer com que uma grande parte das pessoas entre em choque e morra antes mesmo que consigamos prova-los. Manipular eles de forma que não percebam antes da hora que estão morrendo é uma verdadeira arte!
O que antes era uma mulher, agora não passava de uma múmia ressequida que em alguns segundos viraria cinzas. Levantei-me, poderia passar muitos dias, agora, sem ter que tocar em outra pessoa.
Ainda nu fui até o bar e preparei uma bebida. No banheiro o corpo pairava estático à borda da banheira, tentei buscar na memória os detalhes da mulher, alguma coisa que me fizesse lembrar suas feições. Nada me veio em mente! Seus olhos exprimiam surpresa, não demostrava em nenhuma das mínimas fibras dor ou qualquer outro sentimento. Só surpresa.
Um sopro... Um sopro e aquele corpo que a pouco sustentava uma vida, se desintegraria por completo. Preferi tocá-lo. Creio que ao menos isso eles mereciam...
Um punhado de cinzas passou a boiar na água. Retirei o tampão e fiquei a olhar a água de cor encarnada ir embora. Pela manhã a camareira reclamaria da sujeira...
Antes de adormecer a sensação de que acontecimentos futuros seriam relevantes voltou. Isso me assusta e acalenta ao mesmo tempo. Um pressentimento forte, bom. Mas devido a sua violência o pavor me fez companhia.
A manhã traria o sol e com ele a esperança de mais um dia para muitos. É assim que deve ser. Como um rio ora revolto, ora calmo, a vida caminha a velocidades variadas. Esta é uma lei que vale para todos. Vaguei sem rumo por muito tempo antes de aceitar o que não tem como mudar. Sei em que me transformei há séculos atrás. Não desejava matar quando comecei, nem mesmo sabia o que realmente acarretaria a minha malfadada escolha. Mas isso não muda a minha natureza. —“Sou um assassino!” — Mesmo que me compare com um predador irracional, em busca de sobrevida! Ainda assim sou um assassino! Quando matei a primeira vez o medo e terror foram tanto que hesitei muito em fazê-lo novamente. Mas o fiz... E tornei a fazê-lo e o farei sempre. E quanto mais mato mais o ato de matar perde o peso que deveria ter. Percebi que não mais me importo, não mais sento pena, dor... Não vejo mais as pessoas como iguais, não sou em nada iguais a elas. E ao mesmo tempo não consigo separá-las de mim mesmo.
Olhei o relógio: cinco e trinta e cinco da manhã. Pensei nos amigos que perdi, no impetuoso Agostín, no romântico Wester, no encontro de logo mais com Tabolt, nas pessoas que se foram.
Raya!
Muitos anos separam minha vida da dela. E por todo este tempo me culpo por não ser capaz de impedir sua morte.

O sol nasceu.
Dormi quase que a manhã inteira. Por sorte Agostín não me incomodou. Fazia frio, e o sol brilhava com bastante intensidade dando-me animo. Na mesa, o almoço invadiu meus sentidos! Estava faminto!
Adivinhando meus pensamentos Agostín pedira uma ótima refeição. Salada de ovos, bifes de novilho, para acompanhar o arroz verde e uma boa Balkan².
— Bom dia! Como foi sua noite? — perguntei.
— Ótima, posso dizer o mesmo de você! Está com um ar... Feliz! — Agostín pareceu-me preocupado.
— Tranquilo diria. E seus convidados?
— Saíram daqui bastante satisfeitos. Mas temo que ao longo do caminho de volta a casa alguém os ajudou a atravessar o “Aqueronte”.
— Os dois? — perguntei.
— Sim. Esperei que tomassem caminhos diferentes e os “Usei” até o último suspiro. Não se preocupe. A não ser pelos poucos restos das cinzas, que o vento e a chuva da madrugada espalharam. Ninguém irá notar nada. — me olhou ao terminar a frase e soltou sua gargalhada inconfundível.
— Melhor assim. Quanto menos tivermos problemas melhor. Qualquer acidente é inadmissível. O que menos precisamos é de um assassinato nas mãos. Sem falar em como as autoridades explicariam o cadáver.
— Não se preocupe Keirran. Não cometerei nenhum acidente. Só não vá contar a Wester sobre esta noite... E sobre as outras que viu. Porque aí sim você terá um assassinato para evitar.
Soou como uma piada e acabamos rindo.
— E Yanka?
— Yanka? — perguntei despreocupadamente.
— Yanka. A moça de cabelos escuros, corpo pequeno, lembrava um pardal...
A visão dos últimos litros de água escura descendo ralo a baixo me veio à mente.
— Algum problema? Perguntaram dela? — Agostín sabia o nome deles! Era louco mesmo.
— Não. Procurei por ela e... Bem, me pareceu ser um desperdício não “Usá-la” também, só isso. Queria me certificar que estava tudo certo.
— Devia ter procurado no encanamento do hotel. —ele sorriu discretamente e voltou a comer.
Almoçamos praticamente em silêncio. Perguntou se precisava ir comigo, mas recusei. Isto era algo que precisava fazer sozinho.
A tarde estava leve e o mosteiro de Saint' Laurence ficava a apenas meia hora de carro de Moscou.
Um ancião simpático que aparentava pouco mais de oitenta anos me esperava a entrada de Sain’t Laurence. Em suas mãos trêmulas segurava o pequeno frasco de diamante que pendia de uma corrente cujos elos minúsculos, foram feitos a mão pelo melhor dos ourives. Um líquido verde, brilhante e espesso, descansava em seu interior. Sabia dos riscos que correra durante todos esses anos. Mesmo assim aceitou ser um pedaço meu. Agora me parecia cansado e seu sorriso, já não era mais confiante. Queria sossegar a alma.
— Olá velho amigo! — disse com certo assovio entre as palavras.
— Olá Tabolt! Como vai?
— Não tão bem quanto você. Como pode ver...
— O tempo para você é uma benção velho.
Um padre cruzou a soleira da porta, passando entre nós que obstruíamos a passagem.
— Entre. Vamos conversar em meus aposentos.
— Não sabia que estava aqui até me mandar a carta.
— Nunca comuniquei ninguém onde estava.
— Fez certo. Como sempre.
 O mosteiro foi construído pelos bizantinos no século XI. Creio que depois de tantas reformas para mantê-lo em pé tenha perdido muito da sua arquitetura primitiva. Era um verdadeiro labirinto com várias entradas e passagens sinuosas onde o mais avisado dos visitantes se perderia e acabaria por morrer de fome nos muitos corredores daquele castelo de uma só entrada. Podia ver alguns... Passavam por mim sem perceberem quem eu era.
 O quarto de Tabolt não passava de um cubículo onde uma cama, um baú, uma mesa e uma cadeira conseguiam lotar o ambiente.
— Sente-se Keirran. — ofereceu-me a cadeira.
— Obrigado.
— Não sei como fazer isso. — disse sentando-se na cama, sorrindo sem jeito.
O velho a minha frente era muito diferente do homem viril e saudável que vira a algumas décadas recusando receber meu “Lícor”, essência tão preciosa capaz de fazer com que os anos não pesem tanto a um ser humano. Quando desistiu de viver imaginei ser uma fase, que voltaria atrás. Estava enganado!
Tabolt tossiu com muita dificuldade e continuou.
— Não precisa se dispor da vida. Pode continuar, posso torna-lo forte e saudável novamente... Jovem...
— Não! Eu já não quero mais. Preciso... Morrer! — olhou-me profundamente nos olhos implorando-me...
— Só você pode fazer isso Keirran, só você...
— Não há necessidade.
— Deve-me isso! Já vivi demais. Não sei como suportam. — ofereceu a mim o frasco que segurava.
O “Periapt”! Há muito tempo, não colocava meus olhos nele. Ao tocá-lo meu corpo todo estremeceu. O pouco da alma que restara em mim reconheceu sua outra parte.
Não temos poder sobre nossa alma, ela se parte por si só quando mudamos nossa essência. Não depende da nossa vontade, simplesmente acontece. A “Psykhe” se quebra em três partes. Uma fica em nós, a esta damos o nome de Primus; A Secundus se estabiliza à nossa frente, será trancafiada dentro do Periapt. Um frasco feito de diamante; Uma última, assim que se desprende do todo inicia sua busca com o intuito de encontrar uma alma que por algum motivo qualquer não esteja inteira, para que a aceite como parte de si mesma, tornando o ser escolhido parte também do Sombrio ao qual pertencia, chamamos esta de Tertius. E tanto a Primus quanto a Tertius passam sua existência em busca uma da outra
— Preciso partir amigo! — disse Tabolt trazendo-me de volta a realidade.
— Entendo... Como todos partem. Como tudo acaba e apenas eu permaneço...
— Não reclame Keirran! Existem muitos como você. E todos têm um propósito.
— Estou condenado a matar de tempos em tempos.
— Para tudo Deus deu um propósito. Todos matam. Tudo morre. Uma hora tudo acaba. Vocês guardam as almas daqueles que não conseguem se libertar. E isso é, até certo ponto, nobre.
— Matar é nobre Tabolt? Guardamos as almas dos que matamos sem querer, por ódio ou daqueles que não podem viver com a humanidade. Somos guardiões de erros!
— Vai encontrar a paz um dia. Tenho certeza! Sempre foi justo, apesar de ser o que é.
O olhei com pena. Ele precisava ir. Estava cansado, doente e suas forças falhavam. Por mais energia que eu passasse a ele, mais rapidamente a perderia.
— Não será fácil Tabolt.
Ele sorriu e abraçou-me como a um filho.
— Não pense assim. Não estará me matando. Você vai estar me libertando!
Deitou-se na cama e com os olhos afirmou estar pronto.
Era chegada a hora de dar fim à vida daquele que por quatro séculos cuidou de um pedaço meu.
Cheguei perto e o toquei com cuidado. Sua pele estava áspera. Fechou os olhos. Com pesar comecei a tirar dele a vida com um beijo. Podia ser mais rápido, já que não precisava me concentrar em onde começa ou termina sua alma, bastava deixa-la sair e ela encontraria seu caminho. Tomaria do “Lícor” e deixaria sua alma em paz. Quando a trouxesse... Quando a sentisse... A libertaria.
Vi seus músculos secarem e grudarem aos ossos.  Ele não se debateu, não gemeu, nem sequer se moveu um milímetro. E quando sua alma se desprendeu de seu corpo já em cinzas em um sussurro sofrido e mudo, balbuciou:
Esta perto”.
Assim, deixou-me. Pude vê-la sumir pelas frestas das pedras da parede antiga. No rosto da estátua frágil de cinzas, como no da moça da noite anterior, era impossível detectar dor ou qualquer outro incomodo, poderia jurar que esboçava um sorriso.
Estava feito!
Não poderia ficar de posse do “Periapt” mais que cem dias. Teria que correr contra o relógio. Pensar em alguma coisa, algum lugar.
A vida! Algo que o ser humano busca tão desesperadamente, quando se tem em demasia, se torna obsoleta.

De volta ao apartamento, passei apressado entre Agostín e o vice-presidente da G&G Minériun. No quarto, escondi em mim mesmo o “Periapt”.
Hilton Lancaster era o vice-presidente que escolhi para me ajudar a administrar a mineradora. Ele e Agostín cuidavam de todos os processos burocráticos referentes a ela.
— Desculpe não cumprimenta-lo antes Sr. Lancaster.
— Não precisa se desculpar Mr. Gael. Terá apenas que assinar alguns papeis e provavelmente ficará tranquilo por muito tempo.
— São apenas autorizações para o governo russo, vão tornar nossa extração de diamantes legal por mais dez anos. —completou Agostín.
— Certo. E as extrações na Namíbia e em Utah nos EUA. Como estão?
— Sem problemas. Vamos recomeçar ainda este ano depois das férias dos trabalhadores. Será uma nova sequencia de extrações por mais cinco anos. — disse Lancaster.
Já havia lido todas as autorizações, antes mesmo de chegar à Moscou. As assinei e as entreguei a Lancaster. O recomendei que me mantivesse informado sobre tudo.
Lancaster era o único humano, agora, a saber, quem eu era. Ocupava este cargo há mais de trinta anos. Um dos melhores administradores que já tive.
— Devo agradecer-lhe Sr. Gael. Esta viajem, deve poupar-lhe vários aborrecimentos futuros.
— Sabe que Keirran, não gosta de viajar Sr. Lancaster. Mas duvido que ele lhe negue um pedido. — disse Agostín.
— Bem, senhores, seja como for esta feito! Vou deixa-los a sós para que resolvam os últimos detalhes. Tenho que arrumar algumas coisas antes de partir.
Momentos depois Agostín como um gato entrou em meu quarto.
— O avião parte em três horas Keirran. — avisou Agostín.
— Ótimo! E Lancaster?
— Já se foi.
A voz de Tabolt voltou em minha mente: “Esta perto!”. — Quem ou O quê esta perto? — pensei.
— Como foi?
— Hãn?
— Como foi Keirran?
Fiquei olhando Agostín preso a meus pensamentos.
— Com Tabolt! Como foi?
— Ocorreu como deve ser.
— E o... “Periapt”, esta com você?
Abri a camisa e mostrei a ele parte da corrente.
— Melhor assim. Vai encontrar logo um lugar para ele.
Do apartamento até o aeroporto fomos em silencio. Agostín sabia que não estava tranquilo com a morte de Tabolt. Não me torrou a paciência com suas piadas. E as poucas horas que me restariam em Moscou serviriam apenas para tornar minha angustia lancinante.
No avião o sono veio, como sempre que faço essas viagens. Enquanto Agostín flertava com a aeromoça no corredor eu me lembrei de alguém que não conhecia...

O rosto de uma mulher apareceu nítido, apesar da neblina que cobria todo o local. Era a floresta de Cathdearg. Uma dor, um desespero invadiu meu intimo quando a toquei. Precisava dela. Era ela que procurava há tanto tempo. Não estava sozinha, havia mais alguém com ela e meu ciúme foi massacrante. Não podia matá-lo e não pude distinguir se ela sentiu aversão ou prazer ante a ele. Mas seus olhos negros como ébano eram capazes de me acorrentar por toda a eternidade a qual estou condenado. E sem poder controlar o destino, ela se perdeu em meio à escuridão, não conseguia encontra-la. Corri o mais que pude, procurei-a até sentir que o suor escorria por minha fronte. Mesmo sabendo que ela estava perto, mesmo sabendo que me queria, não conseguia chegar até ela. Desesperado, sozinho, vi meu corpo transformar-se em uma múmia desfigurada e desapareci em cinzas em meio às névoas..."

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Sombrios - Capítulo I - Marjory Tolentino

         Sombrios
Marjory Tolentino





 
Capítulo I



“O Destino acompanha os resignados, mas arrasta os que tentam lográ-lo.”

Sêneca
Roma, 4 a.C./65 d.C. — Advogado; Escritor; Filósofo.


A brisa toca meu rosto, traz consigo diversos cheiros que se misturam, e mesmo assim sou capaz de distinguir cada um deles: os pastéis recém-fritos do bar da esquina, as pessoas que perambulam freneticamente pela calçada, o monóxido de carbono que os automóveis exalam incessantemente e o inconfundível aroma do café, que dona Augusta, minha vizinha, faz todas as manhãs. Isso faz com que me lembre de tomar o meu café que esfriou intocado! Bem, não posso deixar que a banalidade de uma xícara de café fria estrague o dia. Justo hoje que, se tudo der certo, se as coisas saírem como planejei, ficarei longe por muito tempo.
Amadurecia a ideia de mudar o rumo da minha vida há algum tempo. Largar tudo e começar do zero! Mas as coisas se complicam quando não se sabe o que faz falta exatamente. Como falar daquilo que não se tem pleno conhecimento? Era como se vivesse uma história que não me pertencia, e mesmo querendo jogar tudo para o alto, a coragem fugia no último instante. Passei cinco anos fazendo as mesmas coisas todos os dias, sem me questionar se realmente era feliz! Talvez não o fizesse porque no fundo sabia que a resposta seria uma negativa. E para não constatar que estava me acovardando, forcei meu consciente a acreditar que era melhor deixar tudo como estava. Achei que desistindo, me revelaria impotente e incapaz! Não consegui enxergar que era exatamente o contrário. E teimosa demais para perceber que caminhava a passos largos para algo que indubitavelmente não seria bom para ninguém, continuei arrastando o destino, que julguei ter logrado.
Murilo não era uma má pessoa, pelo contrário, sempre bom, alegre, um advogado talentoso... Posso arriscar que, olhando de uma ótica externa éramos um casal perfeito. Mas se esmiuçassem o nosso relacionamento e procurassem bem lá no fundo, saberiam que simplesmente já não funcionávamos juntos. As brigas eram constantes e nem ele ou eu nos sentíamos a vontade em uma convivência onde ficar sozinho se mostrava a melhor opção. Da escolha do almoço à compra do carro, tudo era motivo para discordarmos, e da discordância fazíamos um estopim para iniciarmos uma guerra, que podia durar dias, ou mesmo meses.
Não existiu culpado pelo fracasso. E se existiu esse “culpado”, fui eu. Nunca estava feliz, por melhor que tudo a minha volta estivesse bem. Sempre faltava um sentimento, nada era completo, inteiro ou saciado. Essa situação fazia com que odiasse a mulher que fitava no espelho todos os dias pela manhã.
Como dizia tia Nick: “Pior que o fim de um problema é o período que antecede esse fim.” Existem pessoas que nasceram para compartilharem toda uma vida juntas e outras que se tentarem conviver estarão promulgando a si mesmas um período de confusão, tristeza e um enorme sentimento de impotência. Chegamos ao limite e para não nos transformarmos em inimigos declarados, optamos pela separação. Quando resolvi ir embora não podia afirmar se o sentimento que me assolava era a tristeza ou decepção. Talvez os dois! Mas o alívio deu a certeza de que estava tomando a decisão certa. Mesmo levando em conta o vazio que ficou quando me vi sozinha... Mesmo levando em conta estar acostumada à presença dele.
Era como se de uma hora para outra tivéssemos nos tornado órfãos. Sozinhos, perdidos... Com o orgulho ferido por termos insistido tanto em um amor que havia se perdido com o passar dos dias.
O orgulho do Murilo é digno de um deus olimpiano. Quando caiu em si de que estava de volta à casa da “mamãe”, tentando em vão ignorar o fato de viver as turras com o padrasto... Surtou! Sua rotina se resumia a noitadas regadas a bebidas, mulheres e brigas e isso acabou por prejudica-lo na profissão. E o homem responsável e centrado deu lugar a um homem ignorante e irresponsável. Por vezes tentou me fazer voltar atrás e relevar. Como no último suspiro de um moribundo, quis me convencer de que ainda valia a pena ficarmos juntos.
No entanto, eu não tinha dúvidas. Já havia desistido e voltar atrás seria desistir novamente. Em cinco anos nos magoamos e nos perdoamos. Continuarmos seria condenar os dois a um suplício eterno.
Tudo bem! Não é fácil! Não foi fácil! Mas, entender que acabou, ser honesto e tratar este período com tranquilidade, é ter amor próprio. Fingir que esta tudo bem e ficar empurrando com a barriga uma relação que já não existe harmonia é a maior demonstração de falta de consciência da existência do próprio eu. Seja lá o que foi que tivemos, o que sentimos um pelo outro, acabou! E não queria nem podia fingir que estava tudo bem. Antes de ir embora procurei nas gavetas do meu armário interno por alguma coisa que pudesse fazer com que reconsiderasse, mas foi em vão... Estavam todas vazias. Era preciso fazer algo antes que não sobrasse mais nada, nem mesmo o ódio.
Quando decidi ir morar com ele nem Nick, nem vó Agnes gostaram da ideia. Teria poupado cinco anos da minha vida se as tivesse escutado.
Nick era nova demais para morrer, tinha uma vida saudável e no auge de seus quarenta e sete anos um aneurisma cerebral soa cruel demais. Estava sempre disposta a se deslocar da minúscula Cathdearg e vir para esse fim de mundo no interior do estado de São Paulo. Procurou estar presente nas minhas grandes datas: Aniversários, formaturas...  Minha mãe, Mirian, era brasileira. Morreu durante o meu parto. Meu pai, Edmond, um irlandês, alto de cabelos escuros, morrera dois meses antes de meu nascimento. Foi encontrado boiando nas aguas de um lago perto da cidade de Cathdearg. O pouco que vó Agnes se referia a ele era com certo desconforto causado por sua morte precoce. Apesar das divergências entre eles, seu amor por ele era explícito. Minha vó Agnes e tia Nick foram meus pais, iam às reuniões escolares, chamava a atenção quando fazia algo errado, estavam sempre ao meu lado. Sinto saudades...  Com tudo não posso reclamar: tive uma infância saudável, uma adolescência conturbada e a entrada na vida adulta sem grandes emoções.
Afastando a xícara, passei os olhos em algumas notícias do jornal local sem conseguir me concentrar em nenhuma delas. A ansiedade é minha companheira desde que resolvi embarcar nessa aventura às cegas.
Mudar de país nunca foi meu foco, já viajei bastante, mas à Irlanda fui uma única vez, aos sete anos. Não tenho muitas lembranças a não ser do frio que impregna e da chuva que quando começa não para nunca.
Cathdearg é uma cidade pequena, onde vive não mais que quatro mil e oitocentas pessoas, envoltas ao misticismo de um passado remoto. A cidade é muito bonita aos olhos, lembro-me muito pouco, mas as fotos trazem imagens à lembrança de forma espetacular. Foi fundada a novecentos anos. Suas casas e casarões antigos de madeira e pedra se misturam a uma arquitetura moderna que teima timidamente em crescer, e o faz tão vagarosamente que mal se percebe tal mudança. Sem falar que a paisagem irlandesa compensa o marasmo de se viver no passado.
Árvores enormes, descampados magníficos onde pedras “brotam” do chão. Cathdearg fica isolada no norte do condado de Donegal. Sair do interior de um país como o Brasil e ir morar em uma cidade como Cathdearg é o cúmulo do extremismo.
O sol morno e acolhedor desta manhã de domingo alivia a tensão e a ansiedade. Sinto como se precisasse aproveitar todo o calor disponível. Faz um calor de vinte graus positivos neste final de outono. Em Cathdearg a temperatura é muito baixa, fica entre quatro e sete graus negativos no inverno e entre quinze e vinte graus positivos em um dia quente de verão. Apesar de estar chegando lá agora, quando se inicia o verão boreal, vou ter que enfrentar o frio. Quando aboli a ideia de ir morar na Irlanda, esqueci de comunicar minha decisão ao destino... E nesta confusão de sentimentos e precariedade financeira em que estou envolta, não posso me preocupar com preconceitos geográficos.
Existem outras questões agora, e preciso me adaptar ao lugar e às pessoas, aos costumes por mais diferentes que sejam, queira eu ou não! Pessoas diferentes, costumes diferentes, clima diferente! Estou me sentindo caminhar em um trampolim sobre um abismo, no qual não se vê o fundo e não se sabe a hora certa de pular. E não ter outra escolha me deixa frustrada. Sozinha há seis meses e fora do mercado de trabalho há cinco anos e meio, não tenho praticamente nenhuma alternativa. Podia... Claro que podia em um rompante de insanidade recusar a pensão vitalícia de oito mil Euros mensais e uma herança avaliada em torno de cem vezes esse valor: duas casas, dois automóveis, e três imóveis comerciais onde se encontram uma livraria, um antiquário e um herbário.
“Ok! Faça isso e se interne em um hospício qualquer!” — como disse Sandra.
Quando conheci o Murilo, trabalhava no bar-restaurante do meu avô Chris, ele o construiu assim que chegou ao Brasil. Murilo achou bobagem que continuasse trabalhando e acabei concordando, já que o seu salário dava para nos sustentar muito bem. O restaurante foi vendido pouco antes que vó Agnes adoecesse, e grande parte do capital foi mandado para que Nichole o administrasse. Nem fiz questão de fazê-lo, mal dava conta de resolver meus problemas com Murilo. Quando vó Agnes e Vô Chris morreram, tia Nick me ligou pedindo que fosse morar com ela em Cathdearg. E, apesar das coisas já não irem bem, ainda estava com o Murilo. Nick não veio para o velório da mãe, não me recordo bem qual foi o motivo, acho que cuidava de uma amiga que perdera o filho em um acidente. Sei lá! Cheguei a pensar em pedir parte do dinheiro do restaurante, mas sempre acabava por adiar. Nick viria ao Brasil semana passada para resolvermos isso. E teria o feito se não fosse o detalhe funesto de ter morrido há duas semanas.
A casa dela seria minha agora. Receberia a pensão que ela recebia do governo desde que seu marido morreu e passaria a administrar a livraria, e os aluguéis do antiquário e do herbário. Arriscar tudo, na atual conjuntura dos fatos em outro país não me parecia má ideia partindo do principio de que tudo o que eu tinha agora, estava exatamente lá!
Minha mãe voltou para o Brasil depois da morte do meu pai. Ela e minha avó chegaram aqui no inverno de mil novecentos e oitenta, se não me engano. Vó Agnes tinha quarenta e cinco anos quando veio pra cá sozinha ficar com minha mãe. Nesta época Nichole mal completara dezessete anos.  Dois anos depois vó Agnes que já estava viúva há um ano, casou-se novamente com um amigo de infância que veio visitá-la e nunca mais voltou para a fria Irlanda. Christopher O’ Toole foi o avô que conheci, não tinha meu sangue, mas foi muito especial em minha vida. Amigo da família da minha avó nutriu, durante muito tempo, uma paixão secreta por ela até ter coragem de pedi-la em casamento. Foi ele a referencia masculina que tive. Vivia de bom humor, com grandes bochechas rosadas e longos cabelos loiros que o tempo tratou de branquear. Meus avós estavam sempre cheios de vida, mesmo na velhice. A simpatia e bons ares que dos dois emanava enchia a casa de calma e paz.
Nichole, com seus cabelos encaracolados da cor do fogo, seus olhos negros expressivos e sua voz calma e meiga, que quase sempre vinha acompanhada de um sorriso largo e doce encantava a todos. Raramente estava triste ou zangada, mesmo quando descontente com algo, aquele sorriso meigo estava perceptível em seu rosto.
Uma família como outra qualquer! Com defeitos e qualidades. Não conhecia muito do passado dos meus pais, nem suas histórias e nunca na verdade me interessei em saber. Ninguém comentava nada e, depois de passado o tempo da adolescência, onde tudo se pode e nada se explica, deixei de fazer perguntas que nunca seriam respondidas. Guardei todas elas em um lugar escondido dentro de mim...
Jogando o jornal na mesa levantei e recolhi a xícara. Fiquei na varanda pensando na vida e olhando o nascer do sol por mais tempo que devia. Demoraria muito para vê-lo novamente neste continente. Esta manhã que estou vivendo hoje é pra ser lembrada com muito carinho. Meu voo amanha sai as onze da manhã. Carro, casa, alguns móveis, tudo que não fosse mais usar, vendi e o que sobrou deixei na casa da Sandra uma amiga inseparável desde os tempos do jardim de infância. Sentirei muitas saudades dela. Passei os olhos pela sala. Abarrotadas, entre blusas e coturnos impermeáveis, enfim, as malas estavam prontas!  Até que não eram tantas, consegui não exagerar, três ao todo e uma pequena mochila de mão. Nelas se encontrava tudo o que me restara.
Estou cansada! Mas é uma exaustão mental, não física. Ansiedade provavelmente. Exausta e ansiosa! Um bom banho resolveria... sempre resolvia.
Deixar a água morna escorrer pelo corpo para relaxar. Imaginando que, assim como a água, a insegurança e o medo escorriam pelo ralo. Por meia hora joguei na água corrente tudo aquilo que me incomoda.
Nada funciona é como se algo me comesse por dentro...
Tranquei a porta com certa dificuldade, a chave emperra na hora de girar e nunca me lembro de trocá-la. Resolvi ir a uma churrascaria que fica a poucos metros de casa. Sabe-se lá quando veria um churrasco novamente!
De volta para casa, caminhava tranquilamente, o sol coberto por nuvens me dava de presente sombra suficiente para aproveitar a caminhada.
— Helen! — Por um segundo hesitei. Ao virar me deparei com Otávio, um amigo que trabalha na mesma agência bancária que Lucas, marido de Sandra.
Correu até onde eu estava. Abraçou-me forte e acrescentou um beijo em minha bochecha ao pacote. Sandra e Lucas sempre torceram para que ficássemos juntos, principalmente depois que me separei, mas nunca deu certo, acho que nunca surgiu uma oportunidade real.
Cheirava a almíscar com toques de baunilha. Alto, cabelos castanhos, olhos de azul acinzentado, sua boca carnuda e vermelha abria-se em um sorriso largo e simpático. Era o sonho de consumo de qualquer uma.
― Olá! Como vai? Fiquei sabendo que está indo embora, é verdade? ― perguntou ofegante.
― Oi! É verdade sim. Meu voo para São Paulo sai amanhã às onze da manhã.
― Deus do céu!  Vai ser uma viagem cansativa!
― Com certeza! São Paulo-Londres, Londres-Dublin, Dublin-Donegal e dai pra frente cem quilômetros de carro. Nem penso muito na viagem senão já canso.
— Quando volta?
— Ah... Otávio! Não pretendo voltar tão cedo. Estou indo para ficar. Vou ter que suportar firme a saudade. — sorri.
― Que pena. Onde está indo agora?
― Pra casa. Tenho que ajeitar umas coisas... Dormir cedo senão vou acabar perdendo o voo. Sou muito desorganizada. ― olhei o relógio com certo desdém, ainda eram treze e vinte cinco.
― Posso acompanhar você? Estou livre o resto do dia.
― Claro!
E assim começamos a caminhar vagarosamente aproveitando a copa das sibipirunas plantadas nas calçadas para fugirmos do sol escaldante.
― Está decidida mesmo a morar lá?
― Estou. Quer dizer, pode ate não dar certo, mas agora tenho que ao menos tentar.
― A Irlanda é tão longe! É um mundo totalmente diferente.
— É, realmente. Mas vou ter que arriscar.
O caminho de volta da churrascaria pareceu mais curto.
― Vai dar tudo certo. Tenho certeza. — disse ele.
Passamos alguns minutos conversando em frente ao portão antes de nos despedirmos de vez. Quando me vi sozinha, uma sensação que mesclava medo e angustia tomou conta de mim...
Ficar ali só iria piorar a minha situação. Resolvi ir ao Shopping, fica perto de casa e lá não teria tempo para pensar em nada que me deixasse pra baixo.
As horas passaram tão rapidamente que nem percebi e quando dei por mim já passava das oito da noite e eu lá, ‘passeando’. O celular tocou.
— Oi!
— Cadê você? Fomos à sua casa e nada...
— Vim ao Shopping. Precisava dar uma arejada na mente. —sorri.
— Ah! Tá! E como está se saindo nesta sua empreitada? — senti o sarcasmo na voz de Sandra.
— Já estou voltando pra casa. Daqui uns dez minutos chego lá.
— Não vou poder ir lá agora. Um daqueles jantares semanais com a sogra. Fala sério! O Lucas me arruma cada coisa... Amanhã nos vemos.
— Sandra! São os pais dele! Coloca-se no lugar dele.
— Helen, impossível isso. Eles olham pra mim como se eu fosse um ‘E.T.’. Já reparou?
— Sandra, você não é... Digamos... ‘Comum’...
‘Normal’, você quis dizer?
— Não, ‘normal’ também não sou. Quis dizer comum mesmo.
— Acredita que a mãe do Lucas inventou que vai tentar fazer com que eu me torne ‘evangélica’ agora? Pode um trem desses?
Gargalhei imaginando a cena. Dona Silvia conversando com Sandra, a professora de história, sobre aquilo que ela mais abominava: ‘Cristianismo’! Tocar no assunto religião com Sandra era delicado. E para dona Silvia, Sandra não era simplesmente a ‘bruxa má do Leste’, era a própria sacerdotisa do demônio. Ver as duas junto já era hilário, conversando sobre tal assunto então...
— Tá aí uma cena que eu pagava pra ver.
— Você ri porque não é com você. Aquela velha chata!
— Sandra, faz seis anos que você a conhece, já esta na hora de se acostumar. Não é você que vive dizendo que tenho que aceitar as coisas das quais não se tem controle?
— Eu sei, eu sei! Mas é que tem hora que ela me irrita! Até gosto dela, só que essa mania besta de se meter na minha vida me enche!
— Fala pra ela isso então. Fala que não quer que ela de palpite em sua vida com o Lucas e nem na sua visão de mundo.
— É difícil, você sabe... E agora que ela “encontrou Cristo” nesta igreja de ponta de esquina... Está insuportável!
— Então não dá ouvido. Finge que escuta! Uma hora ela percebe e desiste.
— Vou tentar! Tenho que ir linda! Já estou atrasada. E por falar nisso, vê se você não vai atrasar amanhã, viu?
— Tá bom Sandra! — disse com marasmo.
— Quem escuta pensa ate que a pontualidade é uma das suas virtudes. Um beijo, linda! Preciso ir!
—Até amanhã! Beijo.
Ao chegar em casa me senti estranha novamente. Estava com sono e no vazio da casa nua meus pensamentos ecoavam. Minha mente se encheu de lembranças. Foi nesta casa que vivi a vida toda! Aqui cresci, sorri, chorei, brinquei, briguei, fiz planos e os desfiz. É difícil sair daqui desta forma, sem querer deixar tudo isso pra trás. Tinha muito mais que historias nesta casa. Tinha uma vida toda.
Por outro lado sei que é bobagem minha pensar assim. Tudo que queriam é que eu fosse para a Irlanda. Como se isso fosse fazer alguma diferença, como se algum dia tivesse pertencido àquele lugar. No entanto ir era o certo a se fazer neste momento. Pena que nenhum deles estaria aqui para ver. No fundo acho que me sinto culpada, podia ter feito isso antes. Se o tivesse feito, talvez Nichole ainda estivesse viva. Talvez...
“Não!”— gritei em uma tentativa vã de me trazer de volta sem mesmo saber de onde. O eco da minha voz percorreu todos os cômodos da casa, atingindo-me em cheio e junto veio um turbilhão de sentimentos: raiva, arrependimento, medo... Deveria ter feito isso quando ainda era fácil, enquanto estavam aqui para dar seus conselhos obsoletos. Agora teria que fazer tudo sozinha. Literalmente sozinha! Não me restara mais nada, nem ninguém.
O choro brotou como a lava de um vulcão adormecido por muitos anos. A solidão doía e a ideia de ficar sozinha me amedrontava. Isso nunca aconteceu, ao contrário, ficar sozinha me agradava. Provavelmente porque nunca ficara só de verdade. E ali deitada no chão da sala em meio às lagrimas acabei adormecendo...

Uns poucos raios de sol entravam pela janela. Acordei assustada, com um gosto amargo na boca e a sensação de que meus olhos estavam cheios de areia. O relógio marcava sete e meia da manhã. Fui ao banheiro e olhei para o espelho.
Estava horrível!
Os olhos inchados e vermelhos delatavam o choro da noite anterior, o único que parecia estar bem era o cabelo curtíssimo e desalinhado, cortei-os no dia anterior, tinham reflexos azuis esverdeados de tão negros que eram. O rosto personificava a própria imagem da derrota.
O celular tocou. Atendi com desânimo.
― Oi.
― Esta em casa?
A voz do outro lado me soou familiar. Familiar demais...
― Murilo?
― Helen? Esta bem?
― Estou... Um pouco cansada só isso.
― Precisamos conversar. Você vai viajar mesmo? Não pode ir morar naquele fim de mundo...
― Ah! Murilo... Para vai! Preciso ir. ― interrompi.
― Não faz isso. Se for, talvez nunca mais nos vejamos. Nossas chances...
— Não temos mais ‘chances’!  Vamos encarar isso de uma vez por todas!
— Não o amo mais, e nem você me ama mais.
— Não tem o direito de jogar fora tudo o que vivemos.
— Não estou jogando nada fora. Só não quero mais.
— Vamos tentar de novo. Posso ir com você pra Irlanda.
— Qual o problema Murilo? O que aconteceu?
Ele manteve o silencio do outro lado da linha.
— Ah! Já sei! Problemas?
— Luciana. Mas não pense... — respondeu sem graça.
— Não venha me dizer que ela desistiu de você? Logo agora que perdeu o emprego? — o interrompi com ironia.
— Não é isso Heleonora!
— Murilo, Tchau! ― era só o que me faltava, servir de estepe para ele na atual conjuntura dos fatos!
— Espera! Queria ir ao aeroporto me despedir. ― insistiu.
— Acho melhor não.
— Só me resta desejar a você uma boa viajem então?
— Sim, obrigada! ― desliguei.
O celular tocou mais algumas vezes. Não atendi. Passo um tempão relutando em tomar decisões, mas depois que decido, não volto atrás mesmo que morra.
Troquei a roupa, penteei os cabelos, Escovei os dentes e passei um gloss nos lábios. Os cabelos e os olhos castanhos escuros contrastavam com minha pele branca.
Dei a última olhada para a casa antes de fechar o portão. Tive a impressão de ver a criança de outrora brincando pelo quintal, ora de balanço, ora subindo na velha mangueira.  Tudo isso ficou no passado.
Coloquei os fones de ouvido com o volume no máximo e fui esperar Sandra no bar do seu Joca. Aproveitei e tomei meu café. Não abusei, porque sempre me sinto enjoada quando voo e estando com o estômago cheio é bem pior.
— Heleonora! — o grito veio acompanhado de uma buzina longa e estridente.
— Vem logo! Vamos nos atrasar!  Desse jeito vai perder o voo sua louca! — continuou impaciente e seguiu com outra buzina.
 Enrosquei as mãos nos fios do fone por causa da pressa e corri para o carro assim mesmo, caso contrário ela chamaria a atenção do quarteirão inteiro.
Sandra e eu éramos inseparáveis e agora teríamos um oceano inteiro entre nós. Linda! Seus cabelos longos caíam pelos ombros como um tecido dourado. Sua pele tinha um tom oliva que contrastava absurdamente com eles. Seus olhos eram mel e seu rosto sustentava traços mais que belos e suaves. Sei que não o sou, mas sempre me sinto “feia” perto dela.
Parecia mais avoada do que de costume. Colocamos as malas no carro com a ajuda de um transeunte desconhecido. E fomos para o aeroporto.
— Você esta bem? Parece... Sei lá... Estranha. — perguntou franzindo a testa e olhando para meu rosto como se procurando algo que definisse “estranha”.
— Acho que ansiosa seria a palavra certa. — respondi olhando meu rosto pelo retrovisor para me certificar se minha aparência estava agradável.
— Não é só isso. Não sei. Fica mais que m mês nesse lugar? —as palavras saíram como se perguntasse para si mesma.
— Espero que sim. Afinal são minhas “origens”, como dizia vovó. — falei sorrindo para ver se conseguia aliviar a minha própria tensão.
— Olha, Helen, eu sei que esta sendo difícil, mas você não precisa ir, dê uma procuração pro tal tio, o advogado de sua tia. Ele vende os bens dela e você fica. Vai arrumar um emprego logo, tenho certeza! Seu currículo é ótimo. — tentava me convencer.
— O nome dele é Shawn O' Toole! E tem a pensão da Nick, se esqueceu? Só vou poder recebê-la se morar lá. É uma das condições que estão no testamento.  E vender tudo aquilo não me parece justo. Nick passou a vida naquele lugar, cuidando daquelas coisas. É tudo que eu tenho agora. Além do mais já foi feito. Vai ser bom passar uns tempos fora, vou me desligar mais, estando longe.
— Deixa essa pensão pra lá! E quanto ao Murilo... Não precisa fugir. Se quiser voltar com ele é um direito seu, se ele a faz feliz... Ninguém tem o direito de julga-la por isso.
— A questão sou "eu" Sandra, e não "ele". Não quero tentar. Não estou fugindo do Murilo. Estou indo embora e em grande parte é sim por causa da nossa relação. Mas é para que “eu” me sinta melhor, mais a vontade com tudo isso. E não! Ele não me faz feliz!
Ela ainda me olhava com olhar incrédulo, sem acreditar que eu estava fazendo aquilo de livre e espontânea vontade. Realmente nem eu acreditava no que eu estava fazendo.
— Por Deus Sandra! É uma pensão de oito mil Euros! E não tem nada tão definitivo assim. Posso voltar a qualquer momento. —completei sorrindo.
Sandra deu um suspiro balançando a cabeça negativamente. Nós duas sabíamos que eu tentaria ficar em Cathdearg o máximo que pudesse. Por mais tempo que conseguisse.
— Ele me ligou agora a pouco. — soltei.
Sandra me encarou com os olhos arregalados...
— E aí? O que ele falou? — perguntou ansiosa.
— O de sempre. Pediu pra tentarmos mais uma vez... Queria que eu ficasse. — fiz uma expressão de descaso com os olhos revirando-os.
No aeroporto, enquanto tomávamos um café preto antes do check-in, contei a ela tudo que foi dito no telefonema inesperado do Murilo. Relembramos a infância, a minha separação e tecemos alguns comentários sobre um possível provável futuro longo em Cathdearg. Rimos, choramos, sessenta minutos tornaram-se uma eternidade.
Check-in feito era hora das despedidas. Sandra me olhou como se eu estivesse prestes a cometer um suicídio. Talvez ela estivesse angustiada não pelo fato de que eu iria ficar longe, talvez sentisse alguma coisa que não sabia explicar. Temi por um minuto, e um arrepio caminhou por minha coluna até a nuca...
Quando éramos adolescentes brincávamos de adivinhar o futuro. Eu particularmente nunca ‘vi’ nada, já Sandra alega que às vezes consegue ‘ver’ alguma coisa. Nichole dizia que todos carregam em si um pouco dos antepassados. Enquanto era criança, cheguei a cogitar o fato, depois, cresci e deixei as bruxas nos contos de fadas. De onde nunca deviam sair.
— Tentei ‘ver’ através de sua áurea esses dias. —confidenciou Sandra.
— E o que viu?
— Não sei ao certo, estava confuso. Não consegui distinguir os sinais. Era como se...
— Como se...?
— Como se de repente, você deixasse de existir... Olha Heleonora, prometi para o Lucas que não ia abrir minha boca, mas realmente eu não quero que vá.
“Definitivamente não!” — pensei olhando-a com falsa incredulidade.
Afastei a ideia do pensamento balançando a cabeça como se assim ela fosse sair dali. Não podia ser tão tola de desistir de tudo, sem nem ao menos tentar. E por um motivo tão bobo! Se eu não fosse agora eu não iria nunca mais.
Abracei Sandra.
— Desculpe, não devia ter dito nada.  — disse ela com a voz embargada pelas lágrimas.
— Tudo bem, sabe que não ligo pra essas coisas.
Forçamos um sorriso.
— Não esta se esquecendo de nada? Você sempre esquece alguma coisa.
— Não. Tenho certeza que não estou esquecendo nada desta vez.
Não estava mesmo, tudo que eu possuía estava naquelas malas. Tive que refazer meu guarda-roupa inteiro.
— Vou ficar bem, fique tranquila. Vou ficar muito bem. — acho que a ultima frase saiu para mim mesma e não para Sandra.
E no avião, do alto, vi cada vez mais minúsculo o passado que ficava onde devia estar daqui para frente...
Na lembrança!


“Havia uma grande tempestade. Estava perdida dentro de uma floresta de árvores enormes, de raízes e troncos retorcidos, onde dava para visualizar rostos desfigurados e angustiantes. Uma voz desconhecida, calma e que de alguma forma passava uma segurança extraordinária me chamava. Comecei seguir a voz. Mas, quanto mais eu a procurava mais ela se distanciava... Até que de repente a escuridão e a neblina tomaram conta de todo o cenário e a voz segura e reconfortante cessou. Podia sentir minhas mãos suarem e o medo me sufocar.
Procurava uma saída dentro daquele labirinto acinzentado. Uma força estranha me mantinha ali, grudada, sentada exausta à uma pedra. Estava sozinha no meio daquelas árvores enormes com densa neblina. O pavor irradiou meu corpo numa onda de arrepio e tremor. E em meio à escuridão uma mão máscula e ao mesmo tempo suave, se ofereceu para que eu a segurasse. Um anel adornava o anelar esquerdo. Aquele ser sem rosto me levantou e me apoiou em seus braços. A luz estava na direção oposta a que caminhávamos. E dela surgiu alguém, mas não pude ver seu rosto, apenas seus olhos e silenciosamente com o olhar me requisitou. Seus olhos, apesar do verde vivo, eram cálidos e quentes. Ao contrario dos olhos azul-celeste do ser em qual eu me apoiava, que se mostravam frios e estáticos. Impossível definir suas faces, como se estes rostos fizessem parte da névoa, como uma simbiose lúgubre.
O medo enchia meu peito. Com triste angustia meu colo reconfortante se afastou de mim e enquanto se distanciava senti o terror apoderar-se da sua alma como também da minha. Corri o mais que pude em sua direção, afastando-me da luz, entrando em uma escuridão intensa. Sentia que o outro estava por perto, sabia da sua presença. Mas apenas o frio do azul profundo era o que buscava. Não sabia o que era e não entendi por que me era inacessível. Perdida no pântano do meu íntimo, não pude mais me encontrar. Em todas as direções só a escuridão era perceptível e a névoa tornara-se tão densa que talvez fosse capaz de segurá-la.  Quando tudo desapareceu, sem saber o que fazer, sentindo o corpo febril... Vi o chão se abrir, e em meio a lodo e a lama deixei-me cair exausta...”

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