segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Agradecimentos

Obrigada, quero te agradecer por tudo. Pelas transas forçadas e violentas onde meus "nãos" não surtiam efeito, onde apenas você sentia prazer. Obrigada por fazer com que eu  buscasse a Deus antes, durante e depois de cada ato em prece para que o fim chegasse rápido. Obrigada pelas humilhações, onde sua satisfação estava em me fazer menor para que você parecesse, principalmente no meio da sua família, um pouco mais superior. Obrigada por cada murro, cada apertão, cada chinelada ou cintada dada logo após algo que eu fazia ou dizia que o deixava sem argumentos. Obrigada... Obrigada por fazer tudo isso de forma velada e desconexa, de tal forma que com toda a minha capacidade intelectual jamais consegui nesses anos todos perceber e realmente pensasse ser "brincadeiras". Obrigada, por depois de me usar ao máximo, me jogar fora. Obrigada por tudo que fez comigo. Dos gritos, das faltas de entendimento, das palavras de incentivo:"burra, egoísta, doida..." - Obrigada por prestar atenção nos detalhes da casa que não foram limpos e ignorar todo o resto que foi feito. Obrigada por agora me condenar a trepar cada dia com alguém diferente, vasculhando diversos corpos  buscando o que jamais vou encontrar porque o que busco não existe. Pois todo sentimento que une um homem e uma mulher é superficial e etéreo. Obrigada por me fazer enxergar que o que vivemos foi um pesadelo e só eu não percebia. Obrigada por arrancar sua máscara e me revelar sua verdadeira face mostrando o que realmente é. Obrigada por revelar à minha filha (que já não gostava tanto) que homens realmente não prestam e abandonam mais cedo ou mais tarde e que não adianta se iludir porque isso acontecerá mesmo que você seja exatamente como eles querem que você seja. Que são violentos de uma forma ou de outra. Você? Você foi velado, tudo em você era velado. Vivi anos ao lado de alguém que desconhecia. Obrigada por mostrar ao meu filho, da forma mais dolorida pra ele, a espécie de atitude que um homem não deve ter. Obrigada por confirmar a ele o que eu sempre disse que ele devia ser Homem e não Macho. Obrigada por deixá-lo tão magoado a ponto de querer tirar você da vida dele. Obrigada por mostrar a nós três que você não era o homem da casa, nunca foi... Talvez o cheque no final do mês. Obrigada por fazer com que fosse notada uma certa paz, um certo ar mais leve com sua ausência. Obrigada por nos mostrar que existem sim violências veladas, onde nada é dito, onde nada é explícito. Onde um tapa, um murro, um xingamento, uma grosseria... São apenas "brincadeiras". Obrigada por fazer com que nos fosse mostrado que a máxima: "Quanto mais moralista, mais sem caráter e canalha é!" Sim, é a mais pura verdade! - Obrigada por nos fazer entender que monstros existem. E eles podem ter várias facetas... A sua é esta que você vê todos os dias no espelho...

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Cíclico




Claro que Maria era esperta, o que aconteceu foi que ela se apaixonou pelo homem errado. Sabem aquele velho clichê? Pois então, foi isso! José era bonito, charmoso e muitas garotas dariam a vida por ele. Alto, ombros largos, cabelos escuros e fartos, olhos grandes e intensos, havia algo neles que Maria não decifrava. mas adorava. Quase como a um Deus. Um dos mais chulos diga-se de passagem. Todos sabiam. Menos Maria...

Maria era uma moça bonita, bem feita de corpo, um pouco franzina é verdade, nem alta, nem baixa... De uma "ruivisse" encardida, com olhos pequenos, verdes e frios.

Quando os dois se encontraram pela primeira vez logo gostaram do que viram. No entanto Maria era moça recatada, não era dessas que dão “bola” logo de cara. E a mãe Liliana, sempre lhe ensinou a ficar na dela sem mostrar muito interesse. José era afoito, queria logo, queria pra já, sua vida se baseava no ontem e como Maria se segurava dando a entender que queria sem querer, ele resolveu, após certo tempo, por um fim na tortura e oficializar a paixão pedindo a mão de Maria em casamento à dona Liliana.

Dona Liliana, viúva de longa data, costureira de nome na cidade apesar dos seus cinquenta e poucos anos. Sempre trabalhou desde muito cedo. O falecido, quando vivo, só bebia, quando chegava a maltratava, batia nela, muito mesmo, e quando cansava, tomava um banho e saia novamente para gastar o salário no bordel das borboletas…. Não que dona Liliana se importasse, mas todos na cidade falavam e apontavam para eles quando saiam à rua. Nem à missa dona Liliana ia enquanto o traste era vivo!
Maria não conheceu o pai, dona Liliana estava grávida de poucos meses quando recebeu a notícia para ir à delegacia. Lá o delegado, homem distinto, de bigode encorpado, informou-lhe que o marido havia sido assassinado por um dos amantes de uma das “borboletas” do bordel. Dona Liliana teve um ataque de risos! Daqueles que fazem com que percamos o fôlego. Essa foi sua reação à ”triste” notícia. O delegado olhou-a com estranheza. Foi depois desse olhar, que mesmo querendo muito, se segurou exageradamente para não parecer feliz no velório e no enterro do marido. Ficou trancada em casa alguns meses, sem receber visitas e saia apenas para comprar comida e remédios. Queria esconder a felicidade que sentia dos vizinhos...

Quando o jovem José veio lhe pedir a mão da filha, dona Liliana temeu e por alguns segundos viu o falecido no rapaz. “Será que reencarnação existe?” — perguntou-se em silêncio.

Sabia da fama do tal José, sabia que era mulherengo, que não estudara, que vivia graças às posses do pai advogado. Não era bom partido, ou pior, aparentava ser um bom moço, mas, na verdade, era um lobo em pele de cordeiro. Sabia disso. Sentia o cheiro! E pensando no melhor, Liliana negou a José a mão da filha. Este, roxo de raiva, lhe ameaçou dizendo que as coisas não ficariam assim... “Mulher sem juízo! Onde Maria vai arrumar outro melhor!” — José gostava de Maria, era boa moça, moça para casar, não era igual aquelas que ele tinha quando quisesse.

Então, um dia José, depois de muito insistir, convenceu Maria a fugir. E em uma noite qualquer consumaram o amor que Maria julgou ser mútuo. Com isso dona Liliana não teve outra opção senão a de casar a filha com José.

Com o passar do tempo Maria perdeu o encanto, e José já não era assim tão galante. Para José, Maria engordara e envelhecera, claro que ele ignorava seus próprios cabelos que brancos estavam. Ele bebia quase todos os dias e Maria apanhava, quase todos os dias. Um dia, dona Liliana, de idade avançada, sentada estava no sofá com o neto no colo, observando Maria à máquina de costura. Por um instante se confundiu com a filha, vendo, dolorosamente a si mesma. Sentiu muito, porque José não morrera, mas agradeceu, porque o neto era homem.



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