terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Cíclico




Claro que Maria era esperta, o que aconteceu foi que ela se apaixonou pelo homem errado. Sabem aquele velho clichê? Pois então, foi isso! José era bonito, charmoso e muitas garotas dariam a vida por ele. Alto, ombros largos, cabelos escuros e fartos, olhos grandes e intensos, havia algo neles que Maria não decifrava. mas adorava. Quase como a um Deus. Um dos mais chulos diga-se de passagem. Todos sabiam. Menos Maria...

Maria era uma moça bonita, bem feita de corpo, um pouco franzina é verdade, nem alta, nem baixa... De uma "ruivisse" encardida, com olhos pequenos, verdes e frios.

Quando os dois se encontraram pela primeira vez logo gostaram do que viram. No entanto Maria era moça recatada, não era dessas que dão “bola” logo de cara. E a mãe Liliana, sempre lhe ensinou a ficar na dela sem mostrar muito interesse. José era afoito, queria logo, queria pra já, sua vida se baseava no ontem e como Maria se segurava dando a entender que queria sem querer, ele resolveu, após certo tempo, por um fim na tortura e oficializar a paixão pedindo a mão de Maria em casamento à dona Liliana.

Dona Liliana, viúva de longa data, costureira de nome na cidade apesar dos seus cinquenta e poucos anos. Sempre trabalhou desde muito cedo. O falecido, quando vivo, só bebia, quando chegava a maltratava, batia nela, muito mesmo, e quando cansava, tomava um banho e saia novamente para gastar o salário no bordel das borboletas…. Não que dona Liliana se importasse, mas todos na cidade falavam e apontavam para eles quando saiam à rua. Nem à missa dona Liliana ia enquanto o traste era vivo!
Maria não conheceu o pai, dona Liliana estava grávida de poucos meses quando recebeu a notícia para ir à delegacia. Lá o delegado, homem distinto, de bigode encorpado, informou-lhe que o marido havia sido assassinado por um dos amantes de uma das “borboletas” do bordel. Dona Liliana teve um ataque de risos! Daqueles que fazem com que percamos o fôlego. Essa foi sua reação à ”triste” notícia. O delegado olhou-a com estranheza. Foi depois desse olhar, que mesmo querendo muito, se segurou exageradamente para não parecer feliz no velório e no enterro do marido. Ficou trancada em casa alguns meses, sem receber visitas e saia apenas para comprar comida e remédios. Queria esconder a felicidade que sentia dos vizinhos...

Quando o jovem José veio lhe pedir a mão da filha, dona Liliana temeu e por alguns segundos viu o falecido no rapaz. “Será que reencarnação existe?” — perguntou-se em silêncio.

Sabia da fama do tal José, sabia que era mulherengo, que não estudara, que vivia graças às posses do pai advogado. Não era bom partido, ou pior, aparentava ser um bom moço, mas, na verdade, era um lobo em pele de cordeiro. Sabia disso. Sentia o cheiro! E pensando no melhor, Liliana negou a José a mão da filha. Este, roxo de raiva, lhe ameaçou dizendo que as coisas não ficariam assim... “Mulher sem juízo! Onde Maria vai arrumar outro melhor!” — José gostava de Maria, era boa moça, moça para casar, não era igual aquelas que ele tinha quando quisesse.

Então, um dia José, depois de muito insistir, convenceu Maria a fugir. E em uma noite qualquer consumaram o amor que Maria julgou ser mútuo. Com isso dona Liliana não teve outra opção senão a de casar a filha com José.

Com o passar do tempo Maria perdeu o encanto, e José já não era assim tão galante. Para José, Maria engordara e envelhecera, claro que ele ignorava seus próprios cabelos que brancos estavam. Ele bebia quase todos os dias e Maria apanhava, quase todos os dias. Um dia, dona Liliana, de idade avançada, sentada estava no sofá com o neto no colo, observando Maria à máquina de costura. Por um instante se confundiu com a filha, vendo, dolorosamente a si mesma. Sentiu muito, porque José não morrera, mas agradeceu, porque o neto era homem.



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