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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Cíclico




Claro que Maria era esperta, o que aconteceu foi que ela se apaixonou pelo homem errado. Sabem aquele velho clichê? Pois então, foi isso! José era bonito, charmoso e muitas garotas dariam a vida por ele. Alto, ombros largos, cabelos escuros e fartos, olhos grandes e intensos, havia algo neles que Maria não decifrava.

Maria era uma moça bonita, bem feita de corpo, um pouco franzina, nem alta, nem baixa... De uma "ruivisse" encardida, com olhos pequenos, verdes e frios.

Quando os dois se encontraram pela primeira vez logo gostaram do que viram. No entanto Maria era moça recatada, não era dessas que dão “bola” logo de cara. E a mãe Liliana, sempre lhe ensinou a ficar na dela sem mostrar muito interesse. José era afoito, queria logo, queria pra já, e como Maria se segurava dando a entender que queria sem querer, ele resolveu, após certo tempo, por um fim na tortura e oficializar a paixão pedindo a mão de Maria em casamento à dona Liliana.

Dona Liliana, viúva de longa data, costureira de nome na cidade, apesar dos seus quarenta anos, é que trabalhava desde muito cedo. O falecido, quando vivo, só bebia, quando chegava a maltratava, batia nela, muito mesmo, e quando cansava, tomava um banho e saia novamente para gastar o salário no bordel das borboletas…. Não que dona Liliana se importasse, mas todos na cidade falavam e apontavam para eles quando saiam à rua. Maria não conheceu o pai, dona Liliana estava grávida de poucos meses quando recebeu a notícia para ir à delegacia. Lá o delegado, homem distinto, de bigode encorpado, informou-lhe que o marido havia sido assassinado por um dos amantes de uma das “borboletas” que trabalhava no bordel. Dona Liliana teve um ataque de risos! Daqueles que fazem perdermos o fôlego. Essa foi sua reação à ”triste” notícia. O delegado olhou-a com estranheza. Foi depois desse olhar, que mesmo querendo muito, se segurou exageradamente para não parecer feliz no velório e no enterro do marido. Ficou trancada em casa alguns meses, sem receber visitas e saia apenas para comprar comida e remédios. Queria esconder a felicidade que sentia dos vizinhos...

Quando o jovem José veio lhe pedir a mão da filha, dona Liliana temeu e por alguns segundos viu o falecido no rapaz. “Será que reencarnação existia?” — perguntou-se em silêncio.

Sabia da fama do tal José, sabia que era mulherengo, que não estudara, que vivia graças às posses do pai advogado. Não era bom partido, ou pior, aparentava ser um bom moço, mas, na verdade, era um lobo em pele de cordeiro. Sabia disso. E pensando no melhor, Liliana negou a José a mão da filha. Este, roxo de raiva, lhe ameaçou dizendo que as coisas não ficariam assim... “Mulher sem juízo! Onde Maria vai arrumar outro melhor!” — José gostava de Maria, era boa moça, moça para casar, não era igual aquelas que ele tinha quando quisesse.

Então, um dia José, depois de muito insistir, convenceu Maria a fugir. E em uma noite qualquer consumaram o amor que Maria julgou ser mútuo. Com isso dona Liliana não teve outra opção senão a de casar a filha com José.

Com o passar do tempo Maria perdeu o encanto, e José já não era assim tão galante. Para José, Maria engordara e envelhecera, claro que ele ignorava seus próprios cabelos que brancos estavam. Ele bebia quase todos os dias e Maria apanhava, quase todos os dias. Um dia, dona Liliana, de idade avançada, sentada estava no sofá com o neto no colo, observando Maria à máquina de costura. Por um instante se confundiu com a filha, vendo, dolorosamente a si mesma. Sentiu muito, porque José não morrera, mas agradeceu, porque o neto era homem.



sábado, 9 de março de 2013

A melhor defesa - Marjory Tolentino



















Tentou encontrar algum sentido em tudo aquilo, mas não conseguiu. Não doía somente o rosto e o corpo maltratado pela violência que foi submetida. A dor passaria, mas logo seu algoz estaria de volta. Teria tempo de sair e pedir ajuda, teria tempo de esconder-se? Não, definitivamente isso não funcionava. Já o fizera antes e ele sempre se saía bem.  Essa atitude só faria piorar as coisas, só aumentaria a raiva na qual ele adora se afundar, assim julgava ter motivos para bater e bater, mais e mais.
Com esforço levantou-se do chão e foi ao banheiro lavar-se. Estava um horror!  Tinha um corte acima do olho esquerdo, quase na fronte. Os cabelos loiros e longos se desprendiam com facilidade por terem sido puxados seguidamente com tanta força. Era claro porem, que muito mais que seus hematomas e ferimentos o que lhe doía era sua alma que por muitas vezes pensou haver perdido.
Não amava mais. Não sentia nada mais além da dor e do medo. Medo de ir embora e ele por fim em sua vida como tantas vezes lhe jurou enquanto faziam amor, deixando claro que se fugisse morreria. Com certeza não a deixaria permanecer viva!
Não via outra escolha a não ser suportar seu destino.
Depois do banho, voltou à sala para limpar o próprio sangue que manchara o chão. Ele não gostaria nada de ver, ao chegar, que a casa estava suja e bagunçada por conta da surra que lhe dera. Enquanto limpava, lembrou-se da sua adolescência, de quando se apaixonou pelo homem que hoje fazia com que sofresse tanto.
Um carro parou em frente a casa. Estremeceu. Será? Já?
Precisava de ajuda. O medo. Os vizinhos!  A polícia! Alguém! Mesmo impedida de gritar devem ter visto ou escutado alguma coisa. Por alguns segundos esperou. Não era o socorro. Ninguém a ajudaria, ninguém a tinha ouvido. O carro permanecia em frente ao portão. Isso era um problema, se voltasse agora teria que explicar que não havia ninguém em casa e com certeza não acreditaria.
Foi um homem gentil. Tentou lembrar quando foi que ela o havia perdido, quando ele havia se tornado o monstro que era.
Viveram felizes por dois anos. Era muito jovem e cheia de sonhos, queria ser arquiteta como seu pai, mas seu amor pelo homem foi mais forte. Tudo o que ele dizia ela fazia lei. Teve alertas de sua mãe, ela tentou mostrar onde errava, mas não deu ouvido. Ele era tão bom e amável... De alguma forma a fazia sentir-se culpada por nunca poder servir a janta no horário, por ele nunca ter roupas bem passadas, pela casa sempre estar desorganizada, devido o adiantado da hora que chegava da faculdade.
Acabou por ceder a seus pedidos quando surgiu a gravidez. Era um menino. Já sabiam o sexo! No oitavo mês ele a surrou. Chutou tanto a barriga... Teria ido para o pronto socorro, tentado salvar a criança, mas ele a trancou no banheiro.
Quase morreu junto com o bebê, e lamentou muito isso não ter ocorrido.
Merda! – pensou.
O carro não saia dali. Não suportaria mais uma sessão de murros hoje. Morreria se isso acontecesse.
Quem sabe seria melhor, assim ele a mataria e acabaria com o tormento de uma vez por todas.
Foi ao quarto. Abriu o guarda roupa, colocou um vestido, presente de sua mãe, nunca o usaram, Seus pais haviam morrido em um acidente de carro há pouco tempo. Passando a mão pelo tecido leve sentiu uma leve saliência. Um saquinho costurado com maestria no avesso do vestido abrigava um papel e um pacotinho azul. Com cuidado desdobrou o pequeno bilhete.
 “Querida Sofia
                 Serei breve: Use com sabedoria o presente que lhe dou. Ele libertará você de todas as suas amarras. Que Deus a proteja. “Te amo.”
                                                   Mamãe
No pacotinho azul um pozinho branco recheava seu interior. Alguns transeuntes passavam na calçada fazendo burburinho de conversa. Os pelos de seu pescoço arrepiaram.
Tinha que parar de se assustar à toa. Agarrou-se ao saquinho como se este fosse sair correndo.
Na cozinha a geladeira abrigava apenas água. O coração deu um salto no peito. Barulho na rua outra vez! Estava demorando. Ele logo chegaria.
Correu para o quarto e em uma sacola de plástico colocou umas poucas mudas de roupa.
Tinha que se apressar. Desceu as escadas aos pulos e pegando a bolsa deu uma última olhada para a casa.
Quando virou a esquina a dois quarteirões pode ver um homem entrando em sua casa. Limitou-se a apressar o passo.
O sol da manha brilhava forte quando entrou em outro estado. Dois dias se passaram desde que fugiu e nem sinal dele. O ônibus parou e o Motorista alertou que os passageiros tinham quinze minutos para suas necessidades.
Tinha fome. Comprou um pão com manteiga, um pacote de biscoitos e tomou um café.
Na saída, também pegou um jornal. Em letras miúdas apenas uma nota trágica entre tantas outras das páginas policiais lhe chamou a atenção.
Homem é encontrado pelos vizinhos morto em sua casa após sofrer uma parada cardíaca.
Ele era de sua cidade. Mas ignorou seu nome. Tirou um saquinho azul, vazio de seu bolso, e o jogou no lixo junto com o jornal.

Era melhor apressar-se ou o ônibus partiria sem ela.










domingo, 25 de março de 2012

O perfume da Carne - Marjory Tolentino

             


Foi um dos muitos que cruzou seu caminho. E como todos os outros, ele teve o mesmo fim. Com certeza a cigana o quis mais, o amou mais que a qualquer um.Sua vida fora perfeita até a moça de longos cabelos negros aparecer.  “Maldita! Se não fosse ela...” O ciúme a invadiu mais uma vez.  “Lafayette! Era linda realmente. Não o admiro ter se encantado por ela.”Repentinamente o horror tomou-lhe o semblante. Seria possível alguém ter conhecimento dos seus atos?“Impossível! Ninguém sabe. Nem mesmo ele sabia.”Esta pergunta lhe perseguia há anos.Como se para dissipar seus pensamentos da culpa lembrou-se da mulher. Sentiu o ódio brotar em seus pés e subir chegando ao seu estômago. O vômito quis sair boca afora, como se fosse algo com vida própria. Mas com um gole áspero e seco obrigou-o a descer garganta abaixo, deixando assim, apenas um gosto amargo em sua boca. Era este o gosto da afronta que ele há fez passar. Por isso fez o que fez. Sabia que era assim. Já não era o primeiro. Eles chegavam e após um tempo queriam ir embora. Mas isso não acontecia com ela. Nunca deu uma segunda chance a ninguém. Não estava disposta a passar por tola.
Uma mulher aproximou-se da banca, mais triste que antipática. Levava na face uma carranca de sofrimento tão viva que passava aos transeuntes sentimentos de pena e angústia profunda. A jovem cigana que parecia ter os olhos tão sofridos quanto os dela, vendia de um tudo. Roupas, sapatos, pentes e joias, se espalhavam pela mesa da banca.
Unhas postiças que pareciam reais e cabelos que podiam ter algum dia pertencido a mulheres que foram belas de alguma forma dividiam espaço com sabonetes tão perfumados quanto campos de jasmim e lavanda floridos.  Nada se compara a eles, sabonetes que ela mesma fazia. Ela os fabricava apenas de tempos em tempos, são tão perfeitos em sua utilidade e perfume que todos ansiavam por eles.
A mulher olhou com as mãos as várias peças de roupas. Um terno preto e um vestido verde-oliva foram estrategicamente colocados lado a lado. Eles balançavam com o vento, como se tomassem vida, dançando num vai e vem suave de uma música muda e sombria.
Demorou-se um pouco observando o vestido antes de perguntar o preço.
― Uma moeda de ouro, senhora. ― respondeu a cigana com seu sotaque húngaro.
― Uma moeda de ouro! ― repetiu a mulher indignada com o preço que a cigana dava a uma peça de roupa usada. ― Está usado!
― Porém posso lhe garantir que a dona o usou apenas uma vez. Está como novo. ― a cigana olhou para o vestido e soltou o sorriso torto que ele gostava tanto. Podia ouvir os gritos mudos da vagabunda, podia ver as lágrimas rolarem pela face do miserável antes de sucumbir.
Muitos diziam que era uma bruxa, mas não se importava. Deixou de temer as pessoas quando descobriu que eram elas que deveriam temê-la. E ninguém sabia realmente quem era. Sabiam que aparecia pela região às vezes. Nunca souberam de onde vinha ou para onde ia quando a feira acabava. 
A mulher fez cara de pouco gosto e dirigiu a atenção para longos fios de cabelos tão dourados quanto os seus. Estes que segurava em suas mãos, apesar de não pertencerem mais a cabeça alguma, tinham mais viço que os seus. Acariciou-os com carinho e tristeza trazendo com este gesto a imagem viva aos seus olhos de momentos em que um dia a felicidade reinou em seu coração.
― Qual é o seu nome senhora? ― perguntou a cigana seguindo a mulher com o olhar enquanto esta caminhava de um a outro lado da banca, sempre tateando os objetos que desejava.
― Dolores. É verdade que vocês ciganos não tem moradia? ― perguntou, puxando assunto.
― Moro no mundo senhora. Minha casa é a carroça. Do lugar onde estou faço minha nação.
Olhando para Dolores sentiu por ela algo que se limitava não sentir por quase ninguém; Apreço.
― Quer que leia sua mão? ― perguntou sem tirar os olhos dos seus.
― Não tenho dinheiro.
― Não se preocupe, não vejo as linhas por dinheiro.
Com receio a mulher fez um gesto de aceitação com a cabeça e lhe entregou uma das mãos. No momento em que viu as linhas da mulher seu coração sobressaltou. Nelas leu seu próprio passado recente. Seu destino cruzava o de Dolores e o dela o do homem que amou. Seus olhos faiscaram, apertou-os para tentar mudar a visão que lhe saltava a frente.
A mulher percebendo a inquietação da cigana afastou-se.
― Não há nada na vida de uma viúva, mãe de dois órfãos de colo, que a vila inteira não saiba. —sorriu.
― Não quer saber do futuro senhora? ― perguntou à cigana temendo a resposta ser afirmativa.
― Todas as minhas graças e desgraças vieram a mim sem que eu soubesse e é assim que tem que ser. O futuro a Deus pertence. A Ele entreguei meus pesares. —sorriu para a cigana, voltando sua atenção aos produtos tentou esconder o constrangimento criado.  
― São famosos! ― pegou alguns sabonetes em suas mãos e os cheirou profundamente. Sentiu um arrepio em sua nuca neste instante e de alguma forma que não soube explicar a fragrância lembrou alguém que conheceu. Embrulhados em tecido, e guardados em pequenas caixinhas feitas através da trança do sisal, os sabonetes estavam expostos lado a lado, em pares. O perfume que exalavam era suave e mudava de um para outro. Cada um deles tinha um perfume único. Porém todos tinham o mesmo tom rosáceo e a mesma suavidade. Afirmavam que eles podiam mudar o humor de quem os usasse. Seu aroma muito peculiar arremetia há sentimentos selvagens e intensos, ora depressivos, ora libidinosos e lascivos. Eram muitos os boatos em torno deles. Como em torno de tudo que a cigana fazia diziam que ela conjurava os sabonetes para encantar quem os usava. Fazendo com que fossem mais e mais procurados e desejados.
― Quanto custa? ― perguntou Dolores.
― Têm o valor que achar justo. Valem aquilo que puder dar.
Para a cigana os sabonetes não tinham valor algum, para ela. Eles apenas existiam e queria se livrar deles o mais rápido possível. Assim os vendia a troco de qualquer coisa que o comprador estava disposto a dar: um pente, um bracelete, um brinco, um espelho...
Colocando a mão na bolsa, a mulher ao retirá-la, trouxe junto um lenço que caiu sobre a banca. Nele se via o nome “Lafayette” bordado em vermelho vivo.
A cigana ao por os olhos em tal nome sentiu as pernas falharem. Tentando controlar o nervosismo, mais que depressa pegou o lenço caído e segurando em suas mãos, o analisou. A mulher no entanto puxou-o de suas mãos com rapidez e brutalidade.
― Desculpe. Isto é a única lembrança que me restou deles. Para mim tem um valor sentimental muito grande. ― Dolores guardou apressadamente o pedaço de pano.
― Tudo bem. Espero que para mim tenha algo tão bonito quanto ele. ― procurando conter sua ansiedade fingiu manter sua atenção na barganha que sairia da bolsa.
― Lafayette? Nome bonito.
― Sim, muito bonito. ― respondeu a mulher com ar saudosista, deixando o olhar se perder entre as tramas do sisal.
― Ele era meu marido. Não creio estar vivo. Se o estivesse já teria voltado, se não por mim pela irmã, ele amava a irmã. Os vizinhos dizem que ele se engraçou com alguma mulher e fugiu, que para um homem de bem virar assim a cabeça só mesmo uma mulher de paixão fácil.
A cigana sentiu a ânsia voltar à boca e como antes a conteve.  Lembrou-se dos corpos sendo consumidos pelo fogo. Ele tinha uma família e nunca contara a ela?
― Nunca mais soube dele?
― Não. Há alguns meses a irmã dele saiu a procurá-lo. Eu mesma não fui junto por causa das crianças. Com certeza não o encontrou e se perdeu pelo mundo. Era uma boa moça, bonita, de longos cabelos loiros. ― a mulher tornou olhar para os longos cabelos cor de trigo, esvoaçantes ao vento presos à banca.
O coração da cigana pulsava desenfreado dentro do peito. Teria cometido um engano? Disse algo sobre a moça ser sua irmã, mas não acreditou, não quis ouvir, julgou ser mentira!
― Jamais teria ido embora se não fosse por uma razão forte. Penso ser mesmo alguma mulher por quem se apaixonou. Não entendo os motivos que o levou a ir. Gostaria de estar com ele e dizer-lhe tanta coisa... Uma única vez, a última. ― pareceu desligar-se de suas memórias neste instante.
― Bem, tenho este broche. Serve?
A cigana olhou o broche em forma de folha que a mulher lhe estendia. Era bonito, mas não era valioso. Porem queria livrar-se da Dolores e de todas as suas lembranças e também dos seus próprios enganos.
― Tome. ― disse colocando alguns sabonetes a mais na sacola da mulher.
― Pelo broche pode levar mais alguns.
Dolores com um sorriso tímido virou-se e se foi com seu andar vazio.
Enquanto desarmava a barraca e organizava as coisas para partir, a cigana sentiu pena da pobre mulher.                                                    
                                                        ***
Hoje ao banhar-se, Dolores não sabia, mas era o mais perto que poderia vir a estar do marido novamente.



terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Olhos de cao - Marjory Tolentino




Procuro encontrar algo que me liberte desse ódio que existe aqui dentro, mas não consigo. Talvez por isso deixei que me dominasse, talvez por não saber enfrenta-lo ou apenas por não entender o que aconteceu de verdade. Talvez... Esteja louco realmente e somente me reste a loucura como marco de direção mais confiável... Sempre encontrei em uma pessoa que não gosta de animais um ser humano maléfico. Mas e se é o animal que não gosta dela então é pior ainda, isto demonstra que ela é um ser desprezível. Este ponto de vista viria a mudar após os acontecimentos dos quais fui protagonista.
 Já disse que a loucura não me é estranha, pelo contrario, é minha fiel companheira desde aquela noite. Vou deixar escrito o que vi e se alguém duvidar posso somente esboçar um ‘sinto muito’ irônico. Meu ceticismo veio abaixo depois do que vi e se o que eu vi não for o mal, então concluo que este não existe.
Tinha os olhos mais lindos que já vi, de cor castanha esverdeada, possuía um contorno negro nas pálpebras, como as mulheres costumam fazer com a maquiagem. Tal efeito contrastava maravilhosamente com sua abundante pelagem dourada e larga. Eram olhos extremamente convidativos ao carinho. Não o escolhi, ‘ele’ me escolheu. Tinha outro nos braços quando se chegou a mim cheirando e lambendo minhas botas. Calmo e tranquilamente sentou-se e limitou-se a me olhar... Não resisti...
Eu até gosto de gatos, eles é que não gostam de mim, tentei varias e varias vezes tornar um deles meu amigo, mas sempre fugiam sem nunca mais voltar. Então desde pequeno me apeguei aos cães. Eles sempre se mostravam mais amigos, dependentes e de uma fidelidade incondicional. Não me lembro de um único período da minha vida no qual passei sem ter um deles ao meu lado.
Nossos primeiros meses foram sem mais novidades, como qualquer inicio deve ser, ele de posse dos seus cinco meses, na fase de destruir qualquer coisa que lhe viesse à frente e eu de arrumar os estragos e educá-lo. Nunca usei de violência para com um animal. Conforme o tempo passava, ele se tornava maior, mais esperto e muito mais... Independente. Nunca vi um cão tão dono de si mesmo como aquele. Mal parecia um cão, era um cão com alma de gato: Livre!
Um pouco antes de tudo começar ele teve uma febre muito forte, passei duas noites cuidando daquele que julguei ser meu fiel amigo.
Quando a febre se foi deixou-lhe sua marca, um espasmo, como se estivesse em constante soluço, como se um soco o obrigasse a abalar a cabeça para cima e para baixo, um “tique” creio eu, como nas pessoas acometidas pela síndrome Gilles de Tourete.
Foi então que sem mais nem menos ele deixou de me obedecer, como se não adiantasse gritar, pedir ou até mesmo bater, fiz de tudo. Levei-o em centros de adestramento, mas com pouco mais de duas ou três sessões ele era notoriamente expulso. Mesmo assim não me abandonava nunca, se o deixava preso em casa ele era capaz de destruir a mais poderosa das guias, pular o muro e me encontrar onde quer que esteja. Certa vez me achou estando há dois dias, na fazenda de um amigo há mais de vinte quilômetros da minha casa.
Se alguém se aproximava de mim e ele estivesse por perto nada o impediria de morder a alma infeliz. Passei a entender que as coisas não iam bem, quando passou, não contente em morder os meus, mas também a machucar os passantes da rua.  Um dos fatos e pra mim o pior deles foi quando atacou uma menininha de pouco mais de cinco anos que brincava com seu gatinho na praça que fica perto de casa. A pobrezinha depois de duas cirurgias e uma estadia de três meses no hospital ficou bem, graças a Deus, estava viva, já o gato não teve a mesma sorte. Este caso me obrigou a trancafia-lo dentro de uma jaula.
Ali ele passava dias e noites sem dar um gemido sequer. Nada. Não reclamava, não se debatia... Nada! Algo em seus olhos mudou, não a cor, mas a intenção deles, olhos que antes eram brilhantes e carinhosos agora estavam opacos e com uma expressão demoníaca. Um animal lindo, que se encontrava num estado tão deplorável que dado a tudo que ocorrera não podia deixa-lo solto e também não me conformava em vê-lo preso e definhando a cada dia. Um amigo meu se apiedando dele sugeriu a ideia de leva-lo a adoção... Ah! Grande engano o meu... Em menos de uma semana estava adotado, bonito como era e como se soubesse o que acontecia, se mostrou muito simpático aos novos donos. Voltei para casa com a consciência tranquila, ele estaria bem e assim poderia ate mesmo ter uma melhora em seu comportamento indócil.
Qual não foi a minha surpresa, alguns dias depois ele aparece de volta, ofegante e com o focinho, pescoço e patas lavados em sangue. Liguei com urgência na casa do jovem casal que o adotara, desesperado, temendo o pior perguntei o que aconteceu. O jovem se mostrou muito nervoso quando citei o animal e me contou angustiado que ele matara todos os seus outros animais e ainda o mordera, quase lhe arrancando a mão do pulso, quando tentou impedi-lo.
Sem saber o que fazer trancafiei a fera outra vez na cela de onde jamais devia ter permitido que saísse.
Por alguns dias perdi o sono com uma questão que me atormentava, e numa noite, não me recordo qual exatamente tornei-me simpático a ela. Já há tempos vinha amaciando e sovando uma ideia, como se amacia e sova a massa panifica, e quanto mais se sova tal massa mais ela cresce e toma forma, assim fiz com a ideia macabra. Devido a uma infestação de ratos que teve em minha casa me vi obrigado a ir ao velho boticário e adquirir um poderoso veneno. Era tão medonho o poder do liquido mortífero que com algumas gotas exterminei todos os ratos, sobrando mais de um quarto do veneno no frasco. Acompanhado de uma saborosa fatia de carne embebida em tal fármaco, me pus diante daquele que um dia foi meu amigo e lhe ofereci o alimento que o levaria ao Hades.
Claro, acredito que àquela época ainda lhe restava um pouco do instinto dos Canis lupus familiaris, pois comeu com gulodice seu fim. Não quis ficar para ver o animal dar seu ultimo suspiro, não queria ter em minha mente uma visão que julgava horrível. Sai. E horas depois quando voltei, ele estava encolhido, da boca saia uma substancia branca espumosa, havia evacuado todo seu sangue antes de morrer por todo o chão da jaula havia poças vermelhas. Seus olhos negaram-se a descansar, coisa que eu mesmo os obriguei antes de enterra-lo perto da fazendinha, onde as crianças da vila brincavam, logo atrás da serra. Ali ninguém passava, a não ser o gado.
E tive sim, por certo tempo, paz. Tudo caminhava como o esperado. Posso dizer que ate mesmo o ar se encontrava mais leve. O inverno já se aproximava e naquela noite ventava mais que o habitual. De súbito achei que fosse o vento, depois quando os uivos tornaram-se mais intensos pensei ser o cachorro de algum vizinho ou mesmo um lobo que se perdera da matilha, mas quando as patas começaram a arranhar a porta ficou evidente que era a mim mesmo que queriam chamar a atenção. Em momento algum pensei no que a realidade me mostrou ser a origem do barulho. Minhas pernas cambalearam, meu peito parecia que explodiria por não suportar a violência com a qual meu coração teimava em bater, queria tomar vida sair de mim.
Não sou capaz de descrever o estado em que ele se encontrava, mas pude ver os olhos e na penumbra da noite fui capaz de decifrar mesmo sem acreditar de quem eram. Olhando para mim com total ternura fitei pela fresta da janela, os próprios olhos do demônio. Na rapidez dos que não pensam fechei a porta e corri ate a caixa onde guardava um revolver que fora do meu pai, não sabia sequer se funcionava, mas arrisquei... Tremulo e amedrontado caminhei de encontro a ele. Ao abrir a porta o que entrou em casa era um ser disforme, de aparência apodrecida e nauseante. Dois tiros foram suficientes para derruba-lo e o cutelo terminou o serviço. Cortei-o ao meio e colocando em sacos à parte o enterrei novamente, dispondo de lugares distintos para cada uma delas. Vejo, hoje, que já me encontrava perturbado!
Em casa banhei-me e me desfiz de qualquer lembrança daquele cão atormentado. Mas o meu sossego deu-se ate a noite cair novamente. Outra vez pude ouvir os agoniantes uivos que eclodiam do quintal. Até hoje não sei se o que eu temia era o demônio ou o fato de acreditar estar louco. Mas buscando a coragem em um lugar muito intimo fui à varanda, o que vi me deixou muito mais mortificado que a noite passada, apenas metade do cão se arrastava em direção à casa, descarreguei o revolver nela, mas só serviu para piorar a sua aparência já em estado muito avançado de decomposição. De repente aquilo parou e pensem qual fora o meu desespero quando vi a outra metade indo de encontro com a primeira. Como algo em sonho, (penso estar neste pesadelo ate hoje) as duas juntaram-se novamente e o cão tornou-se inteiro.
Não lembro muito bem o que aconteceu depois. Acordei aqui, na ala psiquiátrica desde hospital que nem sei exatamente onde fica. Não me lembro de ter um desses na região onde moro. Não estou apavorado e nem me recuso a ficar aqui, acredito que seja o único lugar onde esteja seguro. Às vezes quando a noite vem, quando tudo se aquieta, escuto os uivos, e se olho pela minúscula janela da jaula onde me encontro, posso ver os olhos do demônio...



quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Passional - Marjory Tolentino





O ar pesado e o calor insuportável faz com que o suor empape sua blusa de cetim, grudando a alta gola em seu pescoço. Não sabia exatamente porque a vestiu, a gola apertada provocava-lhe angustias. A ansiedade crescia a cada minuto de espera, reencontrá-lo agora seria um alento para tudo de ruim que passou.

Nos últimos tempos as coisas ficaram cada vez mais difíceis, e vê-lo tornou-se algo praticamente impossível. Augusto dava sinais de desconfiança fazendo com que adiassem cada vez mais seus encontros. Tornando suas vidas um verdadeiro suplício. Não estava fácil manter uma postura fidedigna com tanta paixão fervilhando por dentro.

A noite levantou seu manto escuro e cobriu o céu a horas e nada dele chegar.

“Merda! Nunca se atrasou antes!” —pensou.

Através da minúscula janela daquele pardieiro, pôde ver algumas nuvens encobrirem a minguante lua, que nesta noite parecia quase tocar a terra. A tempestade que atingiu a região foi intensa. Ventos, raios e granizo... Agora a calma reinava ironicamente, o agitamento do povo na praça lembrava formigas que iam e vinham...
Mentiu muito e não tinha a menor dor na consciência por tê-lo feito. Não podia dar na cara assim sem mais nem menos, tinha que ter muito cuidado. Sabia o que era preciso fazer, mesmo assim foi insuportável. Necessitava tanto dele quanto do sangue que corria ferozmente por suas veias....
A praça estava barulhenta hoje, já passava das dez e nada do povo dispersar. Carros, cachorros, gatos, passantes... Todos estavam a mil. Aproximou-se mais ainda da janela com a vã intenção de refrescar-se um pouco com a brisa! Mas nada! Nem mesmo um sopro! O mundo a sua volta estava mergulhado em um torpor imenso, em uma calmaria inquietante. Abaixo, na rua, o carrinho de algodão doce estava parado na praça onde varias crianças brincavam de pique esconde. Alguns bancos abrigavam casais de namorados, um dos quais pareciam discutir. Limpando as lágrimas com as mãos, a moça, mostrando indignação, levantou-se, disse algumas palavras ao rapaz que atônito e aparentemente sem reação a observou partir.

Ele a seguiu com o olhar ate desaparecer em uma esquina. Cabisbaixo e com ar de quem não entendeu o que acabou de acontecer também foi embora se perdendo em meio às pessoas que preenchiam o lugar.

Alguma coisa naquela cena a fez lembrar quando era mais jovem, e um aperto no peito a fez lembrar das horas!

“Filha da puta! Ele não chega nunca!”

 Durante o dia Augusto estava irreconhecível! Nervoso, gritava e chorava. Se soubesse que esta seria sua reação não tinha contado daquela forma. Teria fugido. Uma coisa era certa, a situação como estava não dava mais.

Estava escondendo o romance com Marcelo há mais de dois anos, não suportava mais mentir, fingir e não viver. E depois que Marcelo separou-se de Úrsula tudo piorou, era ele que agora cobrava uma atitude dela e o fazia com razão. Afinal não existia motivo algum para permanecer com Augusto. Principalmente depois que descobriu que o marido, Augusto, mantinha com a mulher do próprio irmão há anos. Tentou aproveitar-se desta informação para causar o divorcio. Achou erroneamente conseguir assim, por fim em seu casamento que já estava defasado há muito tempo, sem expor o seu próprio erro.

O sino da igreja anunciava vinte e duas horas e nada dele aparecer.
“Onde diabos ele se meteu, que não aparece!”

Uma criança começou a chorar, caiu enquanto brincava, a mãe correu ao seu encontro para acalenta-la.

Não teve filhos. Não sabe exatamente o motivo, mas nunca aconteceu. Talvez agora, quando as coisas se acalmassem ela e Marcelo poderiam tentar...

Temeu a demora do amante. Augusto podia encontra-los! No estado que estava não pensaria duas vezes antes de fazer uma desgraça.

 “Que merda! Estavam arriscando demais, Marcelo estava louco era isso?”

A porta abriu-se no instante em que lagrimas enchiam seus olhos. Ao ver a imagem de Marcelo conseguiu sentir alivio em sua alma. Estava lindo, vestido com seu inseparável jeans surrado. O cabelo loiro cortado em desalinho e o sorriso torto (“Ah! O sorriso! O mesmo sorriso de menino travesso que fez com que se apaixonasse por ele.”), davam àquele homem uma jovialidade inabalável.

“Te amo!” —disse ao abraça-la.

“Também te amo muito!”

Beijaram-se demoradamente e deixaram o desejo tomar conta de seus corpos. E na loucura única dos apaixonados entregaram-se um ao outro, simples, como se nada mais existisse. Fazendo do eterno um segundo e do instantâneo eras.

A exaustão do amor fez-se presente nos corpos suados. Olhando fixamente a mulher Marcelo tirou uma mecha azeviche dos longos cabelos, revelando-lhe os olhos castanhos, intensos. Ele adora vê-la sorrindo. Quando sorri duas ‘covinhas’ formam-se em sua face uma a cada lado da boca. Laura não era realmente linda, mas era dotada de muitos encantos. Encantos estes que o seduziram desde o primeiro instante que pôs os olhos nela.

Deixando a razão voltar a sua mente, Laura lembrou-se do motivo pelo qual estavam ali.

“Temos que ir. Demoramos demais aqui. É perigoso, arriscar assim é insano.”

“Isso é. Afinal antes de vir para cá nos encontramos e não nos controlamos, acabamos brigando.”

“Vocês brigaram? Como assim, onde ele esta?”—Seu coração queria saltar do peito ante tal informação. Augusto podia ter seguido Marcelo.

“Calma! Não aconteceu nada demais. Fui ate sua casa porque liguei várias vezes em seu celular, mas só dava caixa postal. Fiquei preocupado e arrisquei tudo indo ate lá.”

“Você é louco! Quando o deixei ele estava possesso!”

“Tive medo por você, meu amor. Ana disse que você contaria tudo a ele, e fiquei apavorado quando não atendeu ao celular. Não me perdoaria se alguma coisa ruim tivesse acontecido.”

“Fui tudo muito rápido! Contei e ele simplesmente enlouqueceu, partiu pra cima de mim como um selvagem. Tive que detê-lo acertando a garrafa de vinho em sua cabeça. Assim que consegui levantar corri pra cá.”

“Ah! Então por isso havia sangue na sala. Pensei que fosse seu. Aquele desgraçado tentou atirar em mim, por sorte errou e quebrou aquela escultura ridícula que tem na sala. Mas não se preocupe, dei-lhe uma boa sova antes. Vai demorar a se recuperar. Vamos passar a noite aqui. Amanhã bem cedo saímos.”

Abraçaram-se e como por magia a dor e o medo que sentiam desapareceram. Naquele minúsculo quarto de hotel todas as tardes de quarta e noites de sexta se encontravam.

“Não posso esquecer de ligar para Ana e agradecer pela ajuda e amizade que ela vem nos dispensando durante todo esse tempo.”

“Certo! Amanhã. Hoje descansaremos.”—disse ele dando-lhe um beijo na testa.

O sol já ia alto quando acordou. Todo o burburinho da noite anterior havia desaparecido. Pensou em ligar para a recepção e pedir um café. Desistiu logo, aquilo era uma espelunca! Comeriam na estrada. Marcelo ainda dormia quando o beijou.

“Ter seus beijos como despertador é acordar no paraíso.”

Sorriram...

Enquanto ele se banhava, tentou ligar várias vezes para Ana. Foi inútil, parecia que as operadoras de telefonia estavam com algum problema. Foi quando decidiu escrever um bilhete contando tudo o que aconteceu, dando-lhe alguma satisfação pelo sumiço repentino. Não disse para onde ia, pois desconhecia o lugar onde Marcelo a levaria. Mas prometeu, assim que pudesse ligar avisando.

Deram adeus ao quarto que por tantas vezes os acolheu, e partiram com a certeza que o amor que sentiam um pelo outro era muito mais forte que o medo.

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Por volta das quinze horas Ana e dois investigadores entraram no quarto. O perfume feminino e o cheiro de sexo emanava do lugar onde os amantes tantas vezes estiveram. Ela os convenceu irem lá antes do enterro, podia ter alguma prova que incriminasse abertamente Augusto. Mesmo que desconfiasse de seus atos, ou melhor, por mais certeza que todos tivessem do que ele foi capaz, precisavam de provas. Encostou-se à pequena janela lembrando-se da amiga tão querida. A irmã que não teve.

“Ana? Não encontramos nada. Podemos ir.” — disse um dos investigadores, tocando seu ombro tirando-a do transe.

Sem resistir Ana tomou o rumo da porta, antes passou um ultimo olhar no cômodo e algo que se encontrava entre os livros chamou sua atenção. Um envelope... Como uma criança quando ganha um presente o desdobrou contendo-se para não rasga-lo.

Enquanto lia, lágrimas escorriam pelo seu rosto, os investigadores puderam notar o espanto em seu semblante. Entregou a carta a um deles.

Ali Laura contava como tudo aconteceu, não dava muito detalhes, mas ficou claro que Augusto a matou primeiro e provavelmente matou Marcelo assim que este chegou a sua casa.

“Como?... Quem escreveu isso?” —o policial não pode esconder a confusão mental em que se encontrava.

“Estão mortos! Que porra de brincadeira é essa!”

“A letra é dela. Não sei como ou quando, mas Laura escreveu isso.”

“Impossível!” —o homem jogou na cama com indignação o bilhete e sem olhar pra trás saiu.

Ana não disse nada. Limitou-se a pegar de volta o papel e guardar em sua bolsa. Pensou nos amigos que perdera com a certeza de que, seja lá onde estiverem, estavam bem, em paz e finalmente... Juntos.


quarta-feira, 21 de abril de 2010

A canção do Umbral - Marjory Tolentino



O vento soprava forte por entre as árvores indicando que o inverno já se fazia presente, apesar do tom outonal que durante o dia a floresta apresentava. Suspirava toda vez que sentia a brisa gélida tocar a sua pele, mas sentia-se impulsionada a atender o seu chamado. A música era tão envolvente e aquecedora que podia ser ouvida a longas distâncias com notas que eram perfeitas, de tal forma que jurava poderem ser palpáveis.
Não tinha medo. O amou desde o primeiro instante que o viu, soube ali que morreria por ele, mesmo que ele fosse o seu algoz.
A noite não estava tão escura e as sombras apenas a circundavam. O ser, ao vê-la, sorriu lindamente. Ela era o amor de sua vida, aquela que esperou por anos. Durante séculos ele procurou e esperou por ela. Jurou para si mesmo, por tudo que já acreditou um dia, que jamais a prenderia, não a levaria junto de si. Mas vendo-a assim tão linda, pronta a entregar-se a ele sem se preocupar com sua monstruosidade, não era mais dono de suas certezas. Seu coração encheu-se de dúvidas.
E se ela estivesse ali para negá-lo, traí-lo? Se não o amasse? Podia estar com medo... Em sua consciência sabia que fisicamente não. Era muito jovem e belo para alguém o temer. Sua beleza exterior o tornava agradável aos olhos de quem o visse. Porém, ela o conhecia, inexplicavelmente ela conhecia seu mistério, seu segredo. Soube o que ele era no mesmo instante que o viu. E mesmo assim o amou.
Ou será que apenas sentiu? Quiçá ela não tenha noção do que ele é na realidade. O amou pela beleza e charme, mas não em sua essência.
Seu âmago se corroeu ante estes pensamentos. Pela primeira vez em Eras intermináveis sentiu medo. Medo de perder aquilo que nem mesmo veio a ter. A mulher, o amor, a liberdade...
Era isso que, além de tudo, ela significava: LIBERDADE! — gritou em pensamento.
A culpa; aqui estava ela. De tempos em tempos penetrava-lhe a mente. Sabia que era seu, por direito, uma fração de vida a cada alma que aprisionava.
A canção do umbral embriagava todos que a ouvissem. Porém, com ela não foi assim. E no desenfrear dos sentimentos que o avassalaram entregou a ela sua alma e seu coração.
Possuindo a maldição eterna, seu destino era aprisionar os que não mereciam viver. As almas que tomava, em grande parte, nem o inferno as queria, mas isto não o tornava melhor, sua atitude não deixava de ser a de um assassino. Muitos eram infanticidas, pedófilos, matricidas. E existiam também aqueles que usavam de má fé levando outros a erros incorrigíveis, deleitando-se ao ver a imundícia alheia em que foram coadjuvantes. Ah! Mas talvez nenhum desses fosse mau de fato, na grande maioria existia o fator do ambiente em que foram criados: pais omissos, mães promíscuas, amigos torpes, drogas, caráter fraco... Mas não maldade. Os de espírito puramente mau eram melhores. Seu prazer era maior quando aprisionava uma alma má e os vários anos acrescentados a sua já longínqua existência o tornava quase um imortal. Mesmo sabendo que livrava o mundo desses seres infames, sua culpa não diminuía. Isso não o tornava melhor que qualquer um deles, porque como eles, também sentia prazer em seus atos.
Nunca tocara a mesma melodia.  De quinquênio em quinquênio perambulava pela terra destilando sua melodia infernal, a cada cinco décadas apenas uma melodia seria tocada, a cada meio século a terra ouvia o seu chamado e os maus rendiam-se a ele.
Por mais de mil anos recusou-se a condenar alguém a carregar seu fardo. Fardo este que ele mesmo atraiu para si, com seus desejos impudicos. Mas agora ela existia. A dona de seus sonhos em eternais desejos contidos. Precisava encontrar alguém que pudesse continuar a fazer o seu infausto trabalho.
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Parou em frente ao músico. Era perfeito. De seus quase dois metros de altura a olhava com tamanha intensidade que o sentia devorar sua vida com seus pensamentos.
Colocou em dúvida, por instantes, se poderia corresponder a um desejo tão profundo como esse. Logo a mesma dúvida se dissipou. Afinal, não seria difícil amar alguém tão lindo quanto ele. Seus cabelos negros azulados, seus olhos de um verde esmeralda translúcido, sua pele branca e suave, era impossível imaginar que um homem como aquele, de traços tão masculinos, dono de uma beleza incomum fosse capaz de ser o destruidor de tantos seres.
Tocando o rosto dela com as pontas dos dedos como se tivesse medo de feri-la percebeu que cedia ao seu toque. Teve vontade de sujeitá-la a si ali mesmo, não suportaria a distância de seus corpos por mais tempo. Levantou-a em seus braços e a levou para dentro da velha casa.
Lá, apenas algumas lamparinas iluminavam o ambiente. Deitou-a em uma cama antiga, limpa e perfumada.
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O toque e o olhar dele a enfeitiçavam, mais que sua própria canção. 
— É linda. Tem certeza... Que quer a mim? — fez a pergunta lentamente. O medo da negativa invadia sua alma. Mas era necessário ter a certeza. Não poderia tomá-la sem que estivesse certa do que aconteceria com ambos depois. — Após esta noite, será minha. A mim pertencerás. Não só seu corpo, mas sua alma, seu coração... Entende isso?
— Sim. O meu coração já é seu desde o primeiro instante que te vi. — tinha a voz sonora e trêmula.
Abrindo seus braços para recebê-lo, abraçou-o e com um desejo promíscuo e insano se entregou a ele...
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A alvorada já era próxima quando levantou para poder cumprir o destino dos dois. Por um instante a observou em seu sono. Percebeu que não seria capaz de fazer com ela o que fazia há tanto tempo com outros.
Como uma sombra pesada e opaca, dedilhou uma melodia em sua guitarra; está era única, feita exatamente para aquele momento. Ele havia imaginado este instante muitas vezes, mas nunca pensou que seria tão difícil e doloroso. Pelo contrário, pensou que seria um alívio, afinal teria paz. Paz, alívio... Seria pedir demais para alguém que já causou tanta dor e sofrimento à humanidade. Um sorriso amargo mesclou-se às lágrimas que escorriam pelo seu rosto enquanto fitava a mulher. A música entrava em seus poros, não sentia dor física, apenas a dor que a separação lhe causava, a dor que a muitos fez sentir...
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A mulher acordou feliz ao som dos pássaros. O sol banhava o quarto por várias frestas e um calor cálido e aconchegante a envolvia. Procurou com o olhar pelo homem que a amava.
Estava sozinha. Apenas a guitarra estava deitada ao seu lado.
Olhando o instrumento, entendeu que ele já tinha partido, e sem coragem de se juntar a ele, segurando a guitarra em suas mãos, saiu em busca de almas cruéis...

segunda-feira, 15 de março de 2010

O assassino - Marjory Tolentino



O sangue percorria seu corpo com rapidez, os músculos tremiam e algo doía por dentro. Ela era tão cheia de vida, tão bonita… Estava entre as mais belas que já teve.
Nenhum escapava à sua fúria quando ela se apresentava, homens, mulheres, crianças... Não que se arrependesse, era necessário, só não queria mais ter que fazê-lo. Não desejava matar, desejava viver! Não tinha escolha, nunca teve. A ânsia por tomar vida de outrem era insuportável. Negava, passava muito tempo afastado das pessoas, mas quando o desejo vinha não o abandonava. Tinha medo de ficar sozinho consigo mesmo e enlouquecer de vez.
Precisava ir embora. Logo amanheceria, e ninguém poderia nota-lo ali.
Era um homem livre (por hora). Um dia alguém o denunciaria. Teriam que perceber quem era, ou então ele mesmo se entregaria e assim acabaria com sua infernal existência. Talvez, alguém viu ele matar a moça que cheirava a tempranillo¹ fresco. Ele viu os olhos. Olhos que o procuravam.
Se tivesse coragem para tornar público seus atos... Se o vissem, acabaria esta agonia.
‘As pessoas o perseguiriam novamente e desta vez dariam fim ao que desonrosamente chama de vida. Assassino! Pária! Demônio!
Lembra? As pessoas ensandecidas, borbulhando de ódio a vingar entes queridos, que você destruiu. Que você carrega em si. Enfrentaria a fogueira novamente? Covarde!'
A voz! Agora era assim, ela o atormentava quando a necessidade chegava e também quando a saciava. Antes de levar a jovem para encontrar-se com seu destino naquele beco fétido ela o incitou e outra vez se fazia presente!
―Estou louco! É isso! Enlouqueci! ―pensou consigo, sorrindo cínico.
‘Vai matar amanhã? O que será? Quem será? Um homem ou uma mulher?Ah!’ ― uma risada fina e compassada cruzou sua consciência...
‘Desta vez será animais? Lixo!’
―Maldita! ―gritou para si mesmo, mas sua voz rouca ecoou pelas ruas vazias. A voz não o deixava em paz! Estava com ele há anos. Sempre o culpando por fazer o que sua mente e seu corpo queriam, mas que seu coração recusava.
De todas as pessoas que tirara a vida, nunca deixou que nenhuma gritasse ou olhasse em seus olhos. Era cuidadoso.  Porém hoje cometera o erro. A mulher bela, de olhar intenso, por um fragmento de tempo olhou dentro de seus olhos tão profundamente que queimou sua alma.
A chuva fina tornava as ruas íngremes, escorregadias. Ouviu falar que uma tempestade se aproxima. Não importava. Nada o amedronta mais que a si próprio.
―Os loucos homens da ciência deste infante século XVIII julgam saber tudo! ―um sorriso irônico estampou-lhe o rosto.
 ―Eles não fazem ideia o quanto ignoram.
Tentaria dormir quando chegasse ao hotel. Sabia que sonharia.
―Olhos negros e brilhantes. Intensos... Vivos. ―repetiu para si. Sua face tornou-se rude ante a lembrança.
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O homem de boas vestes chegava um tanto desalinhado à recepção do hotel barato. O cheiro de café, álcool e cigarro o entorpecia. Pegou as chaves das mãos da velha e gorda recepcionista, uma mulher de horrível aparência que se apoiava sobre o balcão, sorriu-lhe deixando-o ver as falhas de dois incisivos superiores.
Começou subir as escadas com dificuldade. Lutando com os degraus para que não rangessem tanto e rompessem sob o peso do seu corpo que além de si levava as almas de outros. Suava. E o suor descia espesso por suas têmporas. Estava cansado, a mulher não fora suficiente.
No quarto, um cubículo com pouca iluminação que fedia a urina e mofo, estava seus pertences, que se resumiam a um velho baú e uma valise. O lugar de tão ruim era seguro. Ninguém o procuraria naquele inferno. Sorriu ao pensar nisso.
―Quem procuraria o demônio no inferno? Quem se atreveria? 
Lavou suas vestes, tomou um banho e deitou-se na cama, nu e ensopado de água. Antes que o sono chegasse e o dominasse, veio a sua mente o olhar da sua ultima vitima. Aqueles olhos profundos, olhos negros tão vivos e brilhantes. E seu toque ainda se fazia sentir em sua pele. A vívida lembrança deles ficou em sua mente até adormecer em um limbo mortal.
Amanhã quando a noite cobrisse a cidade novamente com seu lençol de escuridão, e a necessidade se fizesse presente, teria que encontrar outro alguém. Não importaria quem fosse. Alimentar-se-ia da energia de um ser, porém desta vez seria mais cuidadoso. Não olharia em seus olhos…


Nota do autor¹: Tempranillo é uma casta de uva tinta da família da Vitis vinifera, uma das castas mais conhecidas da Península Ibérica. Originária do norte da Espanha, também é muito cultivada em Portugual, onde é geralmente conhecida como Aragonez, ou Tinta Roriz na região do Douro.

Nota do autor²: Este conto é uma adaptação de uns dos trechos do Romance "Sombrios" da mesma autora.

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