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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Sombrios - Capítulo II - Marjory Tolentino

SOMBRIOS

Capitulo 2

OUTONO de 1026

Ele precisava correr o máximo que podia...

Mesmo sem saber o que iria encontrar, não podia arriscar. Não conseguiria matar todos sozinho, de qualquer forma, bastava conseguir salvar Dândara e Lutia.

Em um determinado ponto da estrada, achou melhor desviar e adentrar os campos. Passaria pelo entorno da pequena aldeia que o vira crescer e que agora ele trouxera o medo para perto dos seus. As pequenas casas de um só cômodo se amontoavam de três em três. Mas não passavam de vinte e quatro. Corria, as pernas doíam, mas já estava perto. Tinha que chegar a tempo... Tinha que chegar antes que...

­— Merda! — Setúbal gritou antes de cair no chão em meio a um líquido espesso e mal cheiroso no qual escorregara.

— Que merda é essa... Sangue? — olhou em volta. O sangue se misturava a urina e as fezes.

Seu semblante caiu e rapidamente substituiu a ira pelo pavor. Sua mandíbula tremia, mal conseguiu ficar em pé novamente. Não queria acreditar naquilo que seus olhos viam. Por todos os lados havia sangue e corpos, ao menos o que restara deles. Intestinos e cérebros se misturavam em meio à grama e a terra, cabeças adornavam as portas das casas com expressões distorcidas, a lua e o fogo iluminavam alguns corpos empalados e outros esfolados... Podia ouvir alguns gemidos, mas não podia dar a eles o alivio da morte, não agora, não havia tempo.

"Desci ao inferno!"­­­­ — pensou.

Homens, mulheres e crianças... Todos estavam completamente dilacerados, como se um animal selvagem os tivesse estripado. Mas sabia que não fora isso. Sabia que Silas era o pintor de tão miserável tela.

Seu peito queimou diante da ideia de que Silas poderia fazer o mesmo a Dândara e a Lutia. Levantou-se e continuou a correr. Ao chegar à colina, lá estavam: Silas, Nicolas e Rúben.

Silas segurava Dândara enquanto a forçava beber seu sangue negro e maldito. Lutia estava caída nua perto de Rúben, e Nicolas vinha ao seu encontro para matá-lo. Setúbal tentou conter o medo, mesmo sabendo que seria inútil, pois o demônio já o havia farejado. O medo, a excitação, o desejo, deixavam os Sombrios alucinados. Nada para eles era melhor que alguém com medo e excitação o suficiente para dar a eles o mais puro e denso Lícor.

Nicolas usou tanta força para empurrar Setúbal que este caiu praticamente ao lado de Lutia, percebeu que ela estava morta. Abraçou a irmã e em meio a lagrimas balbuciava palavras desconexas. Queria matar a todos, mas seus ossos doíam e da sua boca puderam ouvir um grito, misto de medo e ódio. Gritava... De ódio, de arrependimento, de dor... Duas de suas costelas e seu braço esquerdo estavam quebrados.

— Tem que ser muito idiota para acreditar que poderia salvá-las seu imbecil! — disse Silas soltando os cabelos loiros de Dândara deixando-a cair. Ela se debatia freneticamente, estava tendo convulsões violentas.

Setúbal conhecia aqueles sintomas. Sua alma saltaria de seu corpo e se partiria em três em instantes. Dândara estaria perdida para sempre se tornaria um deles. Esse seria o seu castigo, pior que a morte como imaginou. Ter seu amor transformado naquilo que mais matou em vida.

— Elas não tinham nada a ver com isso Silas.

Silas passou as mãos pelos cabelos escuros, negros, alguns fios brancos cintilavam a luz das tochas.

— Claro que sim! Uma é sua irmã e a outra sua amante... Como não? Não há melhor forma de fazer com que você sinta, que tirar de você aquilo que mais ama.

Silas grudou com as mãos nos cabelos de Setúbal e o obrigou a olhar para a mulher que horas atrás estava tão cálida e linda em sua cama.

— Olhe para ela assassino de monstros. Gosta desta alcunha? Consegue fitá-la? Veja o que fez a ela. Se tivesse ido embora como lhe disse, nada disso teria acontecido. Sua aldeia, seus familiares, sua irmãzinha querida... Ah! Ela gritou como uma cadela no cio enquanto Rúben trepava com ela... Foi divertido, deliciosamente divertido eu diria. — Silas sorriu enquanto olhava para Rúben que lhe retribuiu o olhar e o sorriso demoníaco. Ficou em pé dando as costas a Setúbal.

— Silas, vou matar você! — gritou Setúbal enquanto tentava em vão atingir Silas.

— Levante-o! — ordenou Silas a Nicolas que imediatamente puxou o homem moribundo e sem forças.

O Sombrio aproximou-se de Setúbal, olhou em seus olhos e sentiu-se desejoso em deixa-lo ir. A valentia e o medo que Setúbal exalava o deixavam tentado a deixa-lo ir, só para capturá-lo novamente e o torturar até o fim.

"Podia quebra-lo." — pensou. Admirava aqueles que mesmo sabendo da certeza do seu fim o enfrentava.

Devia ter uns trinta e cinco anos, a mesma idade que ele próprio quando fora quebrado. Sabia que jamais Setúbal devia escapar. Poderia se tornar um problema depois. Ele matou alguns dos mais fortes Sombrios. Matou Syl e Silas sofreu com isso, mais do que poderia supor que sofreria. Desde que foi quebrado e isso foi há muito tempo, se esforçou para ser o mais frio e exato possível. Não permitia a si mesmo que falhasse. Isso poderia significar sua morte... Significou a morte de Syl, seu irmão. A única coisa que lhe restou da sua vida humana e miserável. Syl era apenas um menino, um menino de novecentos anos, mas ainda assim um menino. Ao se quebrar deixou de ser escravo e pode finalmente ser gente. E trouxe seu irmão consigo para agora, quase mil anos depois, Setúbal tirar-lhe tudo aquilo que lhe remetia a humanidade. Só que não mais, vingara a morte do irmão e mesmo tendo Merrian e Elijah o traído e defendido esse assassino, Syl estava vingado. Nunca poderia reaver suas cinzas, Syl jamais voltaria à vida.

— Não, meu caro! "EU" vou matar você! — ao falar isso Silas enfiou o punho com força dentro do estômago de Setúbal, que apenas soltou um gemido rouco e surdo. A carne e a pele cederam facilmente à força de Silas que puxou para fora as entranhas de Setúbal.

— Aproveite a dor, assassino de monstros! — disse Nicolas enquanto o soltava com violência ao chão.

Setúbal realmente era um assassino. Tinha uma estatura grande, alto, de cabelos escuros, olhos castanhos, um rosto marcante. As várias cicatrizes que se espalhavam pelo corpo denunciavam que era um homem de luta, muito mais que de campo.

"O idiota do Syl mereceu morrer." — pensou Setúbal. Estuprava e matava, sem o mínimo de sutilidade. Fazia horrores porque gostava, quebrou dois irmãos gêmeos que mal atingiram doze anos. Ele e Silas nunca negaram ser o que eram. Apesar de que, diferentemente de Syl, Silas procurava fazer as coisa o mais escondido possível. O mais limpo que pudesse. O mais certo que conseguisse. Para Syl a humanidade não passava de gado. Silas, no entanto, ainda respeitava um código de ética antigo, onde jamais deve ultrapassar os limites. Setúbal sempre soube que seu fim seria esse. Só não imaginou que perderia a todos. Inclusive Dândara. A culpa o consumia mais que a dor física. Tentava colocar seus órgãos para dentro da cavidade inutilmente. Seu intestino escorregava de suas mãos e a dor o enfraquecia. Estava morrendo enquanto via Dândara que estranhamente ainda se contorcia no chão. Havia algo errado, já era para ter parado, Dândara não estava se quebrando. Setúbal observou com pena que ela estava morrendo e assim demoraria dias!

A respiração já estava difícil, podia sentir a morte tocando-lhe. Ouviu um barulho... Gritos... A cabeça de Rúben caiu perto da sua. Sua visão estava turva, mas viu quando Nicolas foi partido ao meio por Merrian.

"Claro, ele leu a carta... A pequena Gina conseguiu entregar a Merrian seu pedido de ajuda. Silas estava perdido agora!" — pensou enquanto sorria.

Merrian passou os olhos pelo campo procurando pelo amigo. Quando chegou perto pode perceber que para Setúbal havia chego tarde demais. Grigore, Elijah, Merrian e alguns outros Sombrios estavam com eles.

Setúbal quis falar algo...

— Cale-se. — disse Merrian.

— Es... cute-me... Merrian...

Chegou mais perto do amigo para ouvi-lo. Sabia que para ele seu tempo havia chego ao fim. Merrian não era muito alto, de olhos azuis, usava barba, de cabelos vermelhos era descendente dos antigos Celtas, atraente às mulheres, tinha bom coração. Sempre se vestia com elegância, como os príncipes e reis. Grigore, Merrian, Silas e Elijah foram quebrados na mesma época, com diferença de dias um do outro, os três primeiros pelo mesmo Sombrio: Paulopus de Fertugus um Grego que ultrapassava mil e duzentos anos. Foi quebrado ninguém sabe por quem, aos cinquenta anos. Sabia que ele mesmo matou a família. Era um ser desprezível. Até mesmo Silas perdia pra ele. Já Elijah foi quebrado por Silas.

— Dan... dara... A... jude... — balbuciou Setúbal.

Merrian olhou para a moça a se contorcer. Silas deve ter dado a ela sangue insuficiente e não a matou de propósito. Ela sofreria horrores antes de sucumbir definitivamente.

— Tor... ne-a... uma de... vo... cês... Por... favor...

Ele olhou para o amigo e Merrian confirmou-lhe a vontade, mesmo sem ter isso em mente. Não era de seu agrado quebrar pessoas por motivos assim. A morte vem a todos. Evitá-la é impossível aos mortais. Porém não podia negar isso ao moribundo.

— Eu farei.

— Prometa-me!

— Prometo!

Merrian olhou para Grigore que assentiu com a cabeça. Grigore puxou a espada e com um só golpe a cravou no peito de Setúbal.

— Desculpe-me! — disse ele ao assassino de monstros.

— Agora ele pode descansar em paz. — disse Elijah beijando o pequeno crucifixo que trazia junto ao peito.

— Sim. Diferente de nós! — afirmou Merrian enquanto caminhava para perto de Dândara.

Elijah e Merrian queimaram os corpos de Ruben e Nicolas, Setúbal foi enterrado como os cristãos. Silas era inteligente. E usava isso a seu favor. Teve sua vingança e isso lhe bastaria por um bom tempo. Forte demais para que morresse, estava ferido, Merrian o feriu, mas se recuperaria logo, não precisariam se preocupar com ele por um bom tempo...

Agora aquela mulher era sua responsabilidade. E teria que cumprir sua promessa. Pegou-a no colo e levou-a consigo para Roma.

No caminho a Roma, Elijah quebrou Dândara tornando-a uma Sombria. Sua primeira vitima foi um aldeão que andava sozinho pela noite. Era uma boa mulher. Aprendia rápido. A tristeza da perca de Setúbal desapareceria com o tempo e Elijah estaria lá quando isso acontecesse. Elijah um mouro forte, era escravo, foi comprado por Paulopus para servir de reprodutor. Esse era um costume de Paulopus que o seguiu sempre, assim tinha a sua disposição vários jovens para saciar sua Primus. Elijah fugiu das mãos de Paulopus. Ele iria encontra-lo e o torturaria por dias antes de mata-lo. Silas o livrou disso.

Elijah gostou de Dândara desde quando a viu junto a Setúbal. A amava, mas refreou o quanto pode seu desejo. Primeiro por respeito a Setúbal, depois por respeito ao luto que surgiu em sua alma após a morte dele. A alma dela não se quebrou em três partes e isso significava que ela era a Tertius de algum Sombrio.

Quando alguém é transformado em Sombrio, sua alma se quebra em três partes. A Primeira é chamada de Primos, ela volta ao corpo quase que imediatamente e mantém o sombrio vivo, é fraca, não pode se manter sozinha e por isso o Sombrio tem que se alimentar de Lícor de tempos em tempos para manter a Primus em equilíbrio. O Lícor nada mais é que a energia que emana de todo ser vivo. O Sombrio pode passar dias apenas absorvendo o Lícor dos seres vivos, mas para se manter consciente e vivo precisa de sangue e carne com certa frequência. É possível sobreviver por algum tempo de Lícor, do sangue e da carne de animais comuns, uma boa saída se estiver em uma embarcação, em uma prisão de quartzo, mas isso não seria viver, talvez nem sobreviver. A Primus é eterna, nada consegue destruí-la, se um Sombrio é dilacerado pode retornar de volta a vida com apenas um pouco de sangue ou com a Secundus que uma vez misturada aos restos do Sombrio assim que este volta à forma humana, volta para dentro do Periapt e a sua forma original, para ser usada novamente se necessário. Isso só é possível graças a Primus que se mantém ligada a qualquer vestígio do Sombrio que exista. A segunda é a Secundus, muitos apenas se referem a ela como Periapt. Lembra uma fumaça quase líquida, etérea, de coloração escura, um azul escuro cintilante. Ela é colocada dentro de um frasco chamado Periapt, este fica junto ao Sombrio como um amuleto, a maioria prefere deixar escondida em algum lugar seguro, já que ela pode trazer o Sombrio de volta a vida. A Tertius é a terceira parte, a mais importante de todas, assim que se quebra e se separa do Sombrio desaparece, seu objetivo é encontrar um recém-nascido que esteja fraco demais para sobreviver. Logo que ele morre a Tertius se funde com a sua alma e cresce nesse corpo. É uma sina terrível, em mil anos de vida sabia-se apenas de dois Sombrios que encontraram suas Tertius, o resto são apenas estórias, lendas criadas para dar aos Sombrios a falsa esperança de encontrar um pouco de amor em meio a tanto horror. É a Tertius que faz, ilusoriamente talvez, com que o Sombrio tenha algum sentido sobre a terra. Alguns a chamam de Alma gêmea, outros de amor simplesmente. O certo é que assim que o Sombrio a encontra torna-se indestrutível. Nada pode detê-lo, sua vida passa a ter sentido. A união de um Sombrio com outro Sombrio pode durar eras, mas sabe-se que tem fim. Por mais que se amem. Já com a Tertius é eterna, enquanto os dois viverem. Se ela for humana o Sombrio ou Sombria a quebrará, este é o único modo de ficarem juntos e se o humano se recusar a ser um Sombrio, quando morrer retornará em outro ser humano e assim sucessivamente até que ser torne um Sombrio.

Dândara já estava bem agora, passaram seis meses desde que ela foi quebrada. Elijah faria o possível para que ela o aceitasse, e faria o necessário para protegê-la. Tentando tornar sua existência menos cruel.

O sol nascia em mais um dia comum em Roma. Desde que Silas envenenou Dândara havia passado muitas horas até que Elijah a pode quebrar por completo. Isso não é usual. Ou o Sombrio mata, ou usa, ou quebra. Fazer o que Silas fez com Dândara... Não se faz, mas não se espera nada mais sutil dele.

Silas, assim como Merrian, era um dos Sombrios mais antigos que existiam. Já viveram por quase mil anos. E viveram bem por um longo tempo. Eram amigos antes, mas as atitudes de Syl afastaram Merrian, Grigore e Elijah de Syl e Silas, que nunca abandonou o irmão, mesmo muitas vezes não concordando com seus métodos de Usar os humanos. As Sombras trazem muitas angustias, mas também proporciona muitos meios de sobrevivência fácil. Principalmente nesses tempos difíceis onde homens se confundem com monstros.

Índia 1250

Sultanato de Délhi - Qila Rai Pitora

O sol entra timidamente pela janela. As terras da Índia não o agradavam mais que o mundo que deixou pra trás e junto o rastro de morte que o segue. Em alguns vilarejos o medo faz com que tenham medo dele, outros apenas o ignoram.

Silas olha a jovem que dorme em sua cama. Ela não imagina o quanto ele obteve dela durante a noite e agora continua inocente quanto sua intenção... Ele a toca de leve nas costas, sua pele morena esta úmida pelo suor provocado pelo calor insuportável nessa época do ano. A moça é uma bela e jovem filha de um dos aldeões.

Ela acorda, vira-se para ele e sorri.

— Como passou a noite meu amor? — ela pergunta.

— Bem e você?

— Muito bem... — ela escorrega pela cama e delicadamente começa a beijar seu peito descendo em direção a seu sexo.

Mas Silas agora quer outra coisa. Com um golpe rápido a puxa para cima pelos longos cabelos negros e se posiciona sobre o corpo dela. Rapidamente começa a morder seus seios arrancando-lhe grandes pedaços e provocando na pobre moça um pavor desnorteante, fazendo-a com que o expresse em gritos horrendos que podiam ser ouvidos há uma distância considerável...

— Cale-se! — ele diz, sem gritar, mas firme o suficiente para assustá-la.

— Irei matá-la de qualquer forma. Doerá menos se ficar quieta.

A moça olha o homem que na noite passada fora tão gentil. Agora lhe parece um animal, um selvagem com a boca e o rosto sujos de seu sangue. Via nele o demônio que os mais velhos diziam existir. Ele estava comendo sua carne, isso lhe provocou ânsia e medo. O sangue jorrava quente de seu corpo enquanto o Sombrio o bebia e mastigava sua carne com ferocidade. Ele olhou para ela, já não gritava. Desta vez não ia sequer torna-la em cinzas. Assim que terminou olhou para o corpo dilacerado em cima da cama, os lençóis estão empapados de sangue, o cheiro de sangue fresco e o sabor do Lícor que ainda sente em sua boca o satisfará por um tempo. Ele lava a boca e nu, lentamente vai até a sacada... Mais um dia após tantos. De onde esta lança um último olhar para o corpo na cama. Jogaria ela no rio. Ainda não precisava se preocupar com corpos...

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Sombrios - Capítulo I - Marjory Tolentino

SOMBRIOS

Capítulo 1

INVERNO de 2010

A pequena medalha de ouro, onde vários símbolos antigos ainda eram visíveis, pendia da corrente de elos mínimos enquanto Thomas fazia movimentos com os dedos provocando uma ação de pêndulo no pingente. Um objeto antigo, que ganhou de sua mãe, o objeto era mais antigo que ele por sinal. Sorriu triste quando o pensamento surgiu. O tempo tornou impossível sentir algo por ela. O seu rosto, o seu cheiro, o seu toque.... Por mais que se esforçasse, não se lembrava mais. Seu nome era Mara, é difícil lembrar detalhes de uma época tão remota. Depois de um tempo, as lembranças turvam-se e nada mais resta. Tudo o que sobra são borrões indefinidos. Lembrar de um passado tão antigo é o mesmo que olhar através de uma lente embaçada pelo vapor quente e engordurada pelo suor.

O tempo tem suas dádivas e também seus suplícios, se encarrega de criar e destruir. Merrian viu impérios nascerem radiantes e portentosos e os viu cair em total desgraça com a mesma fúria com a qual surgiram. Presenciou a ascensão e ruína de homens e mulheres que julgavam a si mesmos donos de um poder que só existia em suas mentes doentes, um poder tão frágil e delicado quanto o mais fino cristal. Dos vícios da humanidade o único que se permite ceder é o sexo. Apenas esse. Todos os outros são fagulhas irregulares, simples demais perto do que podem vir a ser. A paixão e o amor não cabem a seres como ele, apesar que nem todos pensam da mesma forma. Apaixonou-se inúmeras vezes e odiou outras tantas, com a mesma intensidade. Deixou de procurar um sentido há tempo o bastante para perceber que nada fará mudar como as coisas devem ser. E se foi Deus ou o Demônio que redigiu as linhas que conduzem os passos que damos em vida não faz a menor diferença. Das desgraças que podem recair ao um Sombrio a paixão é de longe a mais sutil. No entanto pode significar um conjunto de dores das quais nem mesmo o pior dos homens mereça experimentar. Sente certa angústia com relação a Grigore por isso.

"Mas como saber o que é correto a se fazer? Se algo der errado.... Se essa mulher o traísse..." — Seria difícil afirmar se Grigore suportaria um dos flagelos que a Ordem estaria disposta a impor-lhe caso o pior acontecesse.

A vida tem sentidos interessantes e misteriosos demais para serem questionados, em relação a si mesmo, pensou que não suportaria... E lá estava, trezentos anos após sofrer dois dos piores flagelos já experimentados por um de sua espécie: "A Taça da Dor" e o "Voo do Dragão". Pelo "Sono de Thanatus" nunca passou, para muitos seria uma maldição, para ele teria sido uma benção. Ao menos o pouparia de ver as prostitutas experientes que contratava hesitarem ao sentirem o asco subir por suas entranhas ao verem seu rosto.

Levou a mão ao rosto e sentiu o frio da máscara de veludo que o cobria. Nunca mais o viu, não lembrava como eram suas feições direito. Tiraram-lhe tudo, menos a única coisa que deveriam: a vida!

"O que estava falando?" — pensou suspirando profundamente. Condenara a si mesmo a isso. Grigore, além de Agostín e Dândara, eram os únicos que o viam desde... Bem, Elijah o viu uma vez, logo depois do seu mergulho na "Taça do Diabo". Todos tentam, erroneamente, sentirem-se à vontade em sua presença quando está sem a máscara, mas Merrian sabe que fazem um esforço enorme para isso.

Ele entende que tudo vai se normalizar e que aos poucos cada um dos seus amigos vai deixando no passado todo o horror que sofreram, cada um segue com suas próprias aspirações. Trezentos anos pode parecer muito tempo para pessoas normais, mas não para seres como ele.

Para Merrian o tempo acaba por apresentar aos poucos a solidão que lhe aguarda. Principalmente agora que Grigore está envolvido com essa mulher.... Nada mais natural, Grigore permaneceu tempo demais sozinho e a solidão não é um bom conselheiro. Sente falta das longas conversas que tinham. No entanto não é justo que todos paguem por um erro que ele se deixou cometer. As consequências alcançou a todos por tempo demais. Chegou a hora de libertarem-se. Já havia decidido que passaria seu tempo lendo e resolvendo a maioria dos problemas da RINGS de agora em diante, já que Grigore estaria, por um longo tempo, distante e Agostín iria passar um período com Grigore na Argentina. Seria só ele, Dândara e Elijah naquele casarão. Talvez se mudassem também...

A RINGS era nos últimos dois séculos, uma rede de joalherias. Sua sede era em Trieste na Itália, mas preferiram morar em Liebe quando voltaram da Rússia, era mais calma, menos povoada e de fácil acesso. O frio não era tão intenso e para esse fim de inverno, os menos sensíveis podiam facilmente passar esta tarde com roupas leves.

"Ah! Itália, sempre o palco das mais insólitas histórias. Onde os Deuses e os Demônios reinam plenos."

Merrian levantou-se, colocou o colar no bolso da calça e foi até a sacada do seu quarto com ajuda da guia. Virou o rosto contra o vento e tentou montar na mente a paisagem fria e densa da região fronteiriça de Liebe. Paisagem que não via desde a segunda metade do século XVII.

A "Taça do Diabo" o deixara cego do olho direito e no esquerdo uma fina membrana de pele e cílios recobria todo o conjunto ocular, tornando sua visão limitada a vultos e sensações.

"Qual seria a desculpa usada para a noiva de Grigore hoje? Um acidente, uma agressão? Seja lá o que for não tem muita importância... Seria apenas temporário esconder-lhe a verdade. Somente até ela estar pronta para se tornar um deles." — sorriu.

Grigore quis a brasileira desde o primeiro instante que a viu. Não parava de falar nela quando voltou de Roma oito meses atrás. Este jantar seria muito importante, já que ela daria a ele a resposta que estava aguardando ansiosamente nos últimos dias. Ele havia decidido contar a ela quem era e que pretendia trazê-la para as Sombras tão logo estivesse pronta. Isso ia contra as recomendações da Ordem das Sombras, que recomendava fazer se esta fosse a vontade do Sombrio. Revelar aos humanos quem éramos era algo terminantemente proibido. Grigore, no entanto, quis dar a Suzana a opção, a chance de escolha e mesmo que algo saísse do controle ele não a mataria como era esperado pela Ordem.

"Ele confiava nela. Ele a amava, claro que confiaria. Grigore havia esquecido o quanto as mulheres podem ser traiçoeiras quando lhes favorece."

Não era de seguir regras... Na verdade nenhum deles seguia. Duvidava se realmente algum Sombrio dava importância real às insanidades que a O.S. pregava. Todos tomam os cuidados necessários, mas nada, além disso. Tornar público o que somos pode se tornar o fim de todos isso é obvio, mas a Ordem tenta fazer dos seus dogmas leis imutáveis, isso poderia ter funcionado no passado, mas se tornara obsoleto, principalmente após a ascensão tecnológica. Paulopus transformou os Sombrios em uma grande sociedade obscura. O Sombrio que ousar colocar outros em perigo é castigado de forma primitiva. Talvez porque essa seja a única forma que funciona com eles. Existem quatro consequências para cada uma das infrações. Três delas não eram comumente usadas e Merrian Gael conhecia bem duas delas.

As regras eram claras. O problema, na verdade, estava em tudo aquilo que elas representam e o quão ampla podem ser suas interpretações.

• Jamais colocar em risco o anonimato dos Sombrios.

• Não colocar em perigo a Sociedade das Sombras.

• Jamais possuir a Tertius de um Sombrio, salvo se este estiver no "Sono de Thanatus" ou morto.

• Jamais matar a Tertius de um Sombrio, mesmo se este estiver no "Sono de Thanatus", mas é permitido se este estiver morto.

• Não contar sobre sua natureza a alguém, a não ser que tenha a firme certeza de que vai trazê-lo para as Sombras ou que este seja sua Tertius, nesse caso tem poucos dias para quebrá-lo.

• Não matar um Sombrio, salvo se este representar um perigo para a existência de outro Sombrio, sua Tertius ou para a Sociedade das Sombras.

• Se alguém descobrir quem o Sombrio é verdadeiramente mate-o ou quebre-o.

Para tais infrações uma das quatro sentenças mais horripilantes esperava o Sombrio: a Taça de Dor, o Voo do Dragão, a Sina de Prometheus ou o Sono de Thanatus.

A Taça de Dor, ou a Taça do Diabo como também era conhecida, baseia-se em mergulhar a cabeça do Sombrio amarrado com correntes de quartzo, o único material capaz de deter um Sombrio, em um tanque de vidro cheio de "óleo de vitríolo" o famoso: Ácido Sulfúrico (H²SO⁴) e Peróxido de Hidrogênio (H²O²).

A dor é horrível sim, porém esta não é a pior parte. A pele, enquanto derrete, como resultado da reação química, entra pelos orifícios como nariz, ouvido e boca. A garganta queima violentamente e se tem a sensação clara de sufocar. E isso culmina em um choque já que o organismo do Sombrio com sua rápida regeneração acaba por criar mais e mais tecidos em uma tentativa insana de repor o que se lesiona, fazendo com que o rosto do Sombrio se transforme em varias e varias camadas de pele e músculos distorcidos um por cima do outro. Depois de alguns minutos nesse pequeno inferno, retiram o infeliz e o mergulham dentro de outro tanque contendo uma base neutralizadora. A dor provocada por esta segunda ação é tão intensa que a nada se compara. A pele, a gordura e os músculos que estão moles, parecendo um composto gelatinoso se contraem rapidamente sem dar a chance para que a natureza do Sombrio restaure seus ferimentos por completo. É negado a este o Lícor, o sangue ou carne por dias, assim ele se cura muito lentamente, fazendo com que sua aparência seja algo indescritivelmente bizarro de se olhar levando o mais forte dos homens às náuseas.

O Voo do Dragão não é menos insuportável que o anterior. O Sombrio é amarrado pelos braços em extremidades opostas de forma que fique ajoelhado. A linha da coluna é aberta da nuca ao cóccix e é feito quatro ou cinco cortes que acompanham as costelas de cada lado. Nos ferimentos é derramada uma mistura de sal de quartzo e óleo para retardar a regeneração. Grandes ganchos ligados a correntes são encaixados na coluna e nas costelas, na outra extremidade das correntes, penduradas a uma roldana, estão três cavalos que são impelidos a andar por poucos metros, a distância suficiente para que a coluna e as costelas saltem para fora do Sombrio, levando seus pulmões junto. Logo depois ele tem seus órgãos recolocados dentro de si novamente, mas a mistura de sal de quartzo e óleo faz com que a cicatrização seja demorada e pouco eficiente no sentido estético.

No Sono de Thanatus, o Sombrio é crucificado e queimado, em alguns casos sua cabeça é preservada e suas cinzas são guardadas. Em outros... Todo seu corpo é queimado e suas cinzas são divididas em quatro partes sendo cada uma delas descartadas em um continente diferente.

Na Sina de Prometheus o Sombrio, após sofrer o Voo do Dragão, onde não tem seus órgãos recolocados, é levado a um lugar ermo e de difícil acesso, amarrado com correntes de quartzo por suas extremidades, pescoço, pernas, braços e cintura, de forma que fique imobilizado, em pé, normalmente a uns quarenta centímetros do chão. Sua pele é totalmente esfolada e em seus ferimentos é colocado sal de quartzo. Sua traqueia é repuxada para fora e colocasse um tubo de quartzo entre ela e a garganta evitando que o Sombrio possa gritar. Dessa forma é deixado. A dor é insuportável, pede para si a morte, mas esta se nega a vir. É um suplício eterno. Onde, quando a dor cessa, a loucura já faz companhia há muito tempo.

Merrian se lembrou daquele que fora seu amigo e que nesse exato momento em algum lugar estava a sentir o suplício da Sina de Prometheus, essa lembrança lhe fez recordar de sentimentos que preferia deixar esquecidos. Apertou com força a cabeça da Mamba Negra que fora esculpida em sua bengala.

"Ele mereceu... Nós dois merecemos!"

Alguém estava na porta do quarto...

— Merrian? Está aí?

— Sim — respondeu indo para a porta.

— Sou eu, Dândara.

— Eu sei. — sorriu ao abrir a porta para a Sombria de pouco mais de mil anos.

— Como se sente hoje?

— Bem, Grigore vai continuar com sua insanidade?

— Agora não tem mais como ele voltar atrás, você sabe...

— E ela, já deu a resposta?

— Não. Mas acredito que será positiva.

Dândara sentou na cama afundando-se no colchão suave.

— Logo elas estarão aí.

— Elas? Como assim elas?

— É... Este é um problema. — levantou e ficou de frente a Merrian.

— Ela tem uma amiga, alguém que gosta muito. Uma irmã. E antes que me pergunte essa amiga não sabe de nada. — disse fazendo uma careta.

— Grigore é louco! E eu preocupado com ele...

— Não deve, vai dar tudo certo.

— Espero.

— Elas devem estar chegando... Você vai jantar conosco, não é?

— Sim, prometi a ele que iria participar dessa palhaçada.

— Ah! Merrian... Ele esta feliz e são tão poucos os momentos de paz e felicidade que temos que o melhor é aproveitarmos o máximo que pudermos.

Dândara mal fechou a boca e escutaram Grigore chegar com as convidadas. Ela desceu primeiro, já que Merrian passaria no escritório antes de seguir à sala de jantar. Dândara era uma mulher bonita, não exatamente magra, tinha os cabelos loiros e atualmente os usava em um Chanel desfiado, os olhos eram castanhos, e a pele olivada denunciava sua origem Hispânica. Gostava de usar roupas ousadas e de varias cores, assim fugia da soturnisse que aquela casa se tornara. Estava com Elijah há muito tempo. Ela não sabia ainda se era ou não a Tertius dele, mas ela era o que ele tinha e ele o que lhe havia restado de toda tragédia. Como castigo por esconder Silas, a Ordem fez com que Elijah dormisse por duzentos anos no Sono de Thanatus. Foi Dândara que o acordou quando Paulopus lhe permitiu. Eles sofreram horrores por conta de um romance mal sucedido. Todos sem exceção. Silas era o único que podia ter evitado tanto sofrimento. Com seu orgulho, sua incapacidade de perder. Podia ter libertado Soria. Ela não era sua Tertius, também não se soube se era a Tertius de Merrian. Soria era apenas a mulher por quem dois homens se apaixonaram e se perderam. E que amava apenas um deles. A Ordem a matou assim que soltaram Merrian e prenderam Silas na Sina de Prometheus. Merrian sabia que Paulopus a mataria, ele guarda suas cinzas em um lugar onde ninguém sabe. A morte de Soria machucou a Merrian mais que seu próprio suplício. Nunca superou sua perca totalmente. No entanto para Silas as coisas ocorreram diferentes. Ele a amava, não como a uma Tertius, não com paixão e loucura, mas a amava e sentiu sua morte mesmo estando tão distante. O tempo, com Silas, não foi capaz de destruir os sentimentos, a dor e o ódio que sentiu quando tudo aconteceu tornou-se maior a cada dia. Merrian perdera Soria, mas Silas... Silas perdera tudo!

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Degust -1 - "Sombrios" - Marjory Tolentino





“E das sombras ergueu-se um ser desforme, que nem homem era, nem demônio era. Como o suave roçar da brisa nas frágeis pétalas das tulipas do jardim, ela pode sentir seu toque apesar da distância. Um abraço gélido a perfumou com o cheiro de sangue e morte já conhecidos.
Seus olhos frios eram reconhecíveis, e transmitiam um sentimento mais quente que a paixão. Não lutaria, não fugiria... A ele entregaria a alma, nele depositaria a vida, pois já sabia que a ele, pertencia!”

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Merrian/Kerrian - "Sombrios" - Marjory Tolentino





“—Procurei por você em anos e nunca antes fui capaz de encontrar. Tive medo e alienei. Tive coragem e dispersei.” – Kerrian

“—Penso diferente de antes. Como alguém que tem os sentidos aguçados ao extremo. Sinto com tanta intensidade que somente vivendo além seria possível.” – Merrian

“—Crê que a uso como já o fiz com tantas outras que se acercaram de mim?Está enganada... Você é diferente! Sinto-a com mais força. Algo que até então me era desconhecido." – Merrian

 “—Como um animal, deixo meus instintos aflorarem. Não tenho medo de viver aquilo que todos fingem ser grotesco ou impuro. O meu toque arrepia a alma de quem o sente, seja por prazer ou por medo e não me importo com o que provoco. O que pensam, ou o que querem é mero detalhe." – Merrian

“—Sei aquilo que sinto, aquilo que penso e aquilo que quero. E sim, isto me basta! Vivo por mim mesmo e que isto signifique viver por você. Satisfaça-se com isso. Pois não consigo mais afastá-la. Não quero mais afastá-la. E não se iluda... Não tenho a mínima intenção de mudar.” – Merrian

“—Não olhe para mim desse jeito! Jamais pense que não a amo. Você é tudo o que mais quero. Necessito de ti mais do que pode supor. Dependo de você mais que de mim mesmo. Sua vida me dá forças para continuar vivo.” – Kerrian

“—Em todos esses anos aprendi a refinar meu paladar. O sabor da vida é diferente à superfície da língua. Saboreio apenas o que me atrai. Então... Não me culpe. Você me atraiu. Você é a única culpada da sua desgraça. Não se engane quanto a isso. Usarei de você diferentemente. Isso é claro! Não passa pela minha mente nem por um único instante a ideia de perdê-la.” – Kerrian

“—Saborearei você vívida, lúcida... Em minhas papilas gustativas será mais doce que qualquer outra. Descerá mais suave por minha garganta. Entrarei em suas entranhas marcando cada centímetro do seu ser como minha propriedade.” – Merrian

“—Mesmo que seja amarga como o fel... quando terminar... Mesmo assim, serei o mais completo entre todos. Simplesmente por ter um pouco de você em mim.” – Merrian

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